Por dentro da UTI de covid, no Hospital Albert Einstein
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Por dentro da UTI de covid, no Hospital Albert Einstein

Morris Kachani

15 de março de 2021 | 09h50

“A atmosfera é de cansaço e ao mesmo tempo esperança. O profissional de saúde tem que ser otimista, porque se não, acaba sucumbindo a tudo. Essa é a arte do cuidar”, diz médico infectologista que atua na linha de frente

Que ar que se respira, e não se respira, dentro de uma UTI de covid em um hospital de ponta? E como se sente o profissional de saúde, trabalhando de domingo a domingo, quando depara com a cena de um bar lotado na Vila Madalena ou um presidente estimulando as pessoas a nem usarem máscara? Esperança e otimismo, além do cansaço, são as respostas.

Assista à entrevista: https://youtu.be/Zmz-bIXM-SM

Moacyr Silva Júnior é infectologista do Hospital Albert Einstein, e atua na linha de frente desde o surgimento do primeiro caso, em março do ano passado.

“As pessoas não têm noção do quão é difícil, mesmo em um hospital de ponta, tratar esses pacientes. Acho que das doenças que temos essa é uma das mais graves. Tem 200 complicações, dá complicação renal, dá complicação neurológica. As pessoas não têm noção do quão grave é um paciente que interna por covid. E agora com muito mais gente jovem. Você não imagina a tristeza que é o óbito de uma jovem de 28 anos sem comorbidade”.

“O que é fundamental no tratamento de covid é uma equipe multi. O que está acontecendo agora nos hospitais gerais é que você não tem recursos humanos. Então, para você tratar bem um paciente com covid não é só no nível tecnológico, é você ter uma equipe muito bem alinhada.

O tratamento – de paciente internado – geralmente é antibiótico, muitas vezes precisa de oxigênio, corticoide, fisioterapia, nutrição, farmácia, psicologia. Isso é só uma parte da equipe multi. Se o paciente é entubado muitas vezes precisa do nefrologista, do intensivista, do infectologista, do hematologista. São umas 6 pessoas para lidar com 1 paciente, em média”.

“No Einstein, a ideia é sempre não mandar o paciente embora, mas a gente está no limite mesmo e cada dia que passa aumentando mais leitos; o que era enfermaria, ala, está virando lugar de leito de UTI, covid. A taxa de ocupação aqui está bem elevada. Aqui no Einstein a média de paciente internado por covid é de 200 pessoas. De hora em hora eu vejo pacientes sendo internados, complicações [de covid-19], troca de antibióticos, adição ou anulação de antibióticos”.

“A gente está achatando aqueles pacientes que não são covid, o que também é um problema sério, porque as outras doenças continuam, a gente não congela elas”.

“Com o covid você percebe a demagogia, tanta falta de solidariedade, de estar junto com o povo, de falar a verdade, de falar o que é científico. Você se depara com o quanto a política brasileira está precisando evoluir de uma forma verdadeira, de uma forma transparente. O político é um estrangeiro, um visitante no nosso próprio país, essa a impressão que tenho”.

“No Brasil, porque é um país subdesenvolvido, a morte está sendo por desassistência estrutural, não é nem médica. A gente já tinha um sistema sucateado antes da pandemia e agora isso virou a ‘melancia do bolo’”.

“A variante foi uma coisa a mais. Não é o único motivo para essa calamidade pública. Há vários fatores. Não adianta criar um bode expiatório. O Brasil de forma histórica sempre atribuiu as coisas a um só inimigo. Não é o caso”.

“É um momento de desalento, porque a gente achava que a pandemia ia durar de 3 a 6 meses, e a gente está numa maratona prolongada, basicamente como se fosse triatleta. Estamos fazendo muitas coisas por muito tempo. Todo mundo está cansado. A gente achava que não ia ter uma mortalidade tão alta”.

“Uma pessoa com covid fica ansiosa para saber em qual grupo ela vai ser colocada. Eu estou falando no sentido de, “será que ele vai melhorar? /Será que vai ser só um resfriado? /Será que vai ser aquela parcela pequena que vai evoluir mal? / Será que vai entrar na estatística de óbitos?””

“No início da pandemia o paciente se sentia sequestrado, o paciente não conseguia ver a família de forma alguma, e hoje em dia isso está sendo flexibilizado”.

“Acho que é uma atmosfera de muito cansaço, muito dinamismo – porque as pessoas estão fazendo várias tarefas ao mesmo tempo -, e o barulho do ventilador mecânico, isso eu acho que vou gravar para o resto da vida, vai virar um trauma meu, o barulho do ventilador mecânico. Toda vez que eu entro em uma ala de covid escuto o ventilador mecânico tocando lá”.

“Trabalho de domingo a domingo, estou folgando um fim de semana por mês, justamente para ficar com minha família. Isso está perdurando por 1 ano. E o problema para todo mundo é que está sendo “casa-trabalho-trabalho-casa”, não tem uma rotina social mais, isso foi “amputado” da gente. Durante a semana trabalho em média 10 horas e no final de semana 6 horas”.

“Entre a equipe a atmosfera de cansaço e ao mesmo tempo esperança. Todo mundo está muito cansado e essa interrogação do futuro incerto. A gente quer um final feliz. Mas ao mesmo tempo, a gente se sente valorizado pela sociedade. Estamos sendo reconhecidos pelo nosso esforço. Uma coisa que eu sempre prezo é o otimismo. Acho que o profissional de saúde tem que ser otimista porque se não ele acaba sucumbindo a tudo. Mesmo no sofrimento. Esta é a arte do cuidar”.

“Estamos jogando futebol. Perdemos de 7 a 1. Mas o brasileiro nunca desiste, persiste e tem esperança. O brasileiro tem essa característica de ser um povo alegre, esperançoso e otimista. Vamos passar por uma fase dura, mas temos que ser esperançosos e otimistas.”

“Uma lição disso tudo é que o mundo está interligado. Por exemplo, agora está havendo mais casos na África de ebola. E a gente não está dando muita bola, do mesmo jeito que fizemos com a covid, no começo. A gente tem que olhar para o vizinho, não adianta fechar a própria fronteira e dar as costas para os problemas no mundo. O mundo é como se fosse o corpo. Se você tem um problema em um dedo, o corpo está doente”.

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