Quanto mais branco, melhor
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Quanto mais branco, melhor

Morris Kachani

23 de março de 2021 | 09h42

Se a subjetividade do negro brasileiro foi formada e construída a partir da memória dos aspectos da escravidão, como fica a do branco? Quais são as heranças materiais e simbólicas que lhe dizem respeito? Onde entram os instrumentos de dominação… como o chicote?

“Brancos e negros” é quase uma metáfora para dizer “senhor e escravo”, nas transformações econômicas.

Assista à entrevista: https://youtu.be/9LkG2wLvkwo

Para a psicóloga social Lia Vainer Schucman, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, e autora de um livro seminal sobre o tema, chamado “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo”, o Brasil é o país mais racista do mundo, e a forma como a supremacia branca se expressa é através do que ela chama de ‘branquitude’ – o mito da democracia racial e um falso discurso sobre meritocracia.

Na escala branca – que vai justamente do encardido ao branquíssimo -, existe sempre uma ideia de que, “quanto mais branco, melhor”.

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“A raça como categoria pressupõe a ideia de que um representante do grupo vai ter uma continuidade moral, intelectual ou estética. Você pode atribuir algo interno a esse sujeito. E o que é atribuído ao sujeito branco nessa ideia de raça? Uma ideia de superioridade moral, superioridade estética, superioridade intelectual, ou seja, por trás disso, a ideia de “civilização”. Isso vai produzindo subjetividade no sujeito, uma subjetividade que Florestan Fernandes vai chamar de um ideal de superioridade em relação aos outros grupos racializados. Então os efeitos da subjetividade [nos brancos] é essa ideia permanente de superioridade civilizatória, do desenvolvimento europeu, de que a racialidade é da Europa”.

“Na minha pesquisa de doutorado eu perguntei para pessoas brancas, “o que é ser branco para você?”, e todas as respostas tinham um aspecto de superioridade. A branquitude é justamente esse lugar de vantagem que os sujeitos ocupam numa sociedade estruturada pelo racismo. Pessoas brancas incorporam, se apropriam da branquitude, que é essa identidade racial do branco constituído através dessa ideia de raça, de um lugar de superioridade estético, intelectual e moral”.

“A raça produz hierarquias nos grupos de negros; a gente tem um ideal de embranquecimento, então tem pessoas negras de pele mais clara e aí as pessoas chamam de moreno, fazem um eufemismo, a própria categoria também hierarquiza os brancos. Então,

tem um tipo de branco que é o “branco brasileiro”, que é branco só aqui no Brasil. Se ele sair do Brasil, ele não é mais branco;

este é o branco encardido”.

“Existe um branco mais branco? Eu pergunto isso na minha tese, e todo mundo sabe me responder que há um branco mais branco, e esse branco mais branco para eles é aquele que tem o cabelo loiro, o olho azul, o nariz fino, um fenótipo tipo Xuxa, e essas pessoas vão narrando quem é “menos branco”. O “menos branco” tem cabelo castanho, depois é o outro de cabelo enrolado. Então tem todo um saber sobre raça no Brasil, eu sempre peço para as pessoas fazerem esse exercício, e todo mundo consegue fazer uma “escala dos brancos”, e sempre com uma ideia de que quanto “mais branco” melhor”.

“O que foi muito interessante na minha tese é que o desejo de brancura para homens e mulheres não é o mesmo. O “encardido”, se ele tiver poder político e econômico, ele fica super bem. Porque é essa coisa da masculinidade construída através de uma ideia de poder econômico. Mas o desejo de brancura das mulheres é puramente fenotípico, porque as mulheres estão sempre submetidas à opressão de gênero em que a beleza é fundamental. Então há a ideia de beleza construída sobre a branquitude, nessa ideia de superioridade, de beleza branca.”

“Eu acho que a maior amarração para entender a branquitude no Brasil é a ideia de mérito, que é o seguinte, a gente tem um ideal de democracia racial, o mito da democracia racial, e ele nos diz que temos oportunidades iguais entre brancos e negros, só que só os brancos estão em cargos de poder; poder econômico, poder político, poder jurídico, todos ocupados por brancos. A própria ideia de mérito no Brasil é a lógica na qual vai se expressar uma supremacia branca. Porque a gente acha que quem tem supremacia branca são os Estados Unidos, a África do Sul. A nossa supremacia branca é o mito da democracia racial junto com mérito.

Aqui no Brasil as pessoas falam o tempo todo que os brancos são superiores, o que muda é a forma como isso se expressa”.

“Outro dia eu fui em uma vendinha, estava na fila e eu ouvi uma moça perguntando para o vendedor: “e aí, nasceu a filha da dona Fernanda? Nasceu com aquele olho azul?”. “Não, nasceu morena”. “Ah, que pena…”. Essa é uma “resposta” para uma criança que acaba de nascer. O que é isso, se não a ideia de uma supremacia branca?”.

“A minha segunda pesquisa foi com família interraciais, eu tenho um segundo livro que chama “Famílias inter-raciais: tensões entre cor e amor”. E todas as mulheres grávidas narram o que a princesa Meghan Markle narrou na entrevista com a Oprah, que é o desejo e medo da família branca da criança nascer com a cor escura. É assim, uma tecnologia que essas famílias aderiram, que é olhar a mucosa, olhar o joelho, olhar o cotovelo, para saber se essa criança vai ficar negra, porque nas famílias inter-raciais em geral as crianças nascem mais claras e depois vão escurecendo, com o tempo. Umas cinco mulheres me relataram que a família colocou um pregador no nariz, para a cartilagem ficar fina quando elas eram pequenas: uma violência atroz”.

“A gente tem [no Brasil] um racismo de intimidade. As pessoas acreditam que por estarem próximas não tem racismo de segregação. Todo mundo, especialmente nas classes mais baixas, negros e brancos convivem juntos, e eu entrevistei diversas classes sociais e a hierarquia racial está colocada mesmo em todas relações”.

“Se a gente vai, por exemplo, tomar uma cerveja na Lapa carioca, com samba. Vão ter negros e brancos, branco servindo negro, negro servindo branco, um monte de casal interracial. A questão é que [o racismo] é tão estrutural que depois desse samba, os brancos vão de carro para a zona Sul e os negros pegam o trem e chegam em casa às 6 da manhã. Então tem espaços que são ainda ilhas de democracia racial no Brasil, que em geral são espaços de lazer, “áreas moles”; agora, nas “áreas duras”, que são o mercado financeiro, poder econômico e jurídico, são totalmente ocupadas por brancos”.

“Em São Paulo a branquitude é muito ligada ao tema de “progresso”. Essa ideia ligada ao trabalho, ao imigrante trabalhador, de uma branquitude progressista, de imigrante trabalhador, é muito característica da branquitude paulistana. Então é branco e ainda é paulistano. Um preconceito muitas vezes ligado ao Nordeste, Norte”.

“A raça é filha do racismo, então a branquitude é o resultado do processo de dominação colonial,

aquilo que era relação “senhor-escravo”, “colonizador-colonizado”, se transformou depois em brancos-negros”.

“Raça é uma invenção, uma ficção. Não existe nada genético que prove que, por exemplo, uma pessoa branca se pareça mais com uma pessoa branca do que com uma pessoa indígena ou com uma pessoa negra. As semelhanças internas não são maiores do que aquilo que é externo. A raça é uma construção geopolítica”.

“Havia um medo desse país se tornar negro. Nós éramos 4 milhões descendentes de africanos, e 750 mil descendentes de portugueses. Era um país negro. Então tinha um medo da “haitinização” da América Latina, que é esse medo de perder o lugar de poder. E no século XXI, essa fragilidade, esse medo branco vai aparecendo na discussão de cotas, vai aparecendo em uma revolta contra a autodeterminação das populações negras. Então o medo branco aparece toda vez que um negro autodetermina o seu caminho.

O medo branco é a perda desses lugares de privilégio, perder um engodo, é medo de ficar escancarado que não há superioridade, só há desigualdade”

“A branquitude também tem uma outra forma de se expressar, que é a ideia de que todo branco é um indivíduo. Enquanto os grupos racializados são sempre chamados para falar por todos. Dando um exemplo do BBB que aconteceu agora, as pessoas falam: “nossa, que vergonha para os negros, para os movimentos negros, os negros [lá dentro] estão se matando”. Os brancos sempre estiveram se matando lá dentro e ninguém fala “nossa, os brancos estão se matando”. Ou seja, essa invisibilidade é a invisibilidade da raça. A ideia de que quem tem raça é o negro, de que quem tem raça é o indígena, quem tem etnia é o negro, quem tem etnia é o indígena, enquanto o branco é o representante de um indivíduo. Essa ideia de que quem tem raça é o outro, não o branco”

“O negro não tem a chance de poder errar. Não estou dizendo que o comportamento dela [Karol Conká] é adequado ou não, mas a gente já teve pessoas brancas no programa muito violentas também e a linha que se mede o erro de uma pessoa negra para o de uma pessoa branca é muito diferente”.

“Não ser racista em um país onde tem racismo estrutural, não modifica as estruturas. Por isso tem a frase da Angela Davis: “em um país com racismo estrutural não basta não ser racista, tem que ser antirracista”. Então você tem que tentar quebrar a estrutura. Todos os brancos estão em todas as instituições, é uma instituição família, é uma instituição escola, é uma instituição na qual você trabalha e são as instituições que fazem a estrutura social. (…) então se eu sou um jornalista, é preciso ver se está equilibrado a quantidade de pessoas [negras e brancas] que eu entrevisto para qualquer assunto – por que eu só chamo negro para falar de racismo? Se eu sou uma educadora, então posso abordar esse tema [racismo] como centro dos assuntos que pesquiso. Agora se é o dono de uma empresa, tem a ver com a contratação, com o serviço que essa empresa oferece. Ser antirracista tem muito a ver com o lugar que você ocupa; se você é RH de uma empresa tem a ver com a contratação, se você é um juiz, por que não fazer um multirão? Analisar os 80% de encarcerados que são todos negros e estão sem julgamento.

Cada um precisa pensar nas atividades que faz no dia a dia e em como você pode ser antirracista”.

“O dinheiro da população branca gerou dinheiro para o próprio branco enquanto o trabalho da população negra, na história inteira do Brasil, também gerou dinheiro para a população branca, porque os negros. ao serem desvalorizados, também têm seu trabalho desvalorizado”.

“O fato de que 73 pessoas jovens negras morrem todos os dias [no Brasil] e que essas vidas não importam porque elas significam “vidas menos humanas”.

“Ser branco no Brasil não quer dizer que você tenha pai negro assim como ser negro no Brasil não quer dizer que você não tenha mãe branca; não é a sua origem que importa, é o seu fenótipo”.

“Eu acho muito chocante pensar na pandemia, porque arrasta essa categoria sociológica e a gente pensa no racismo estrutural que vai definindo o acesso à cultura, o acesso à educação, o acesso à saúde. 75% das pessoas que estão morrendo são negras, então essas pessoas são as que menos conseguem ficar em isolamento, precisam sair para trabalhar, moram em ambientes mais aglomerados, têm menos acesso ao diagnóstico, ao teste”.

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