Quanto pior, melhor

Quanto pior, melhor

Morris Kachani

28 Maio 2018 | 03h03

 

Foto: Nina Dahmer

O humor vive épocas de ouro durante as crises

Por Tracy Segal

No dia seguinte ao assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes, muitos de nós, cariocas, fomos à Cinelândia pela incapacidade de seguirmos sozinhos diante do absurdo cotidiano desta cidade em cataclisma chamada Rio de Janeiro.  Estava eu lá e dei de cara com o cartunista André Dahmer, nos abraçamos em silêncio por um tempo estendido. Olhei para esse moço no meio da multidão e o convidei para uma entrevista, afinal seu traço comenta com argúcia esse país que sucumbe a olhos vistos, a cada semana algo some, algo morre, algo desaba.

Quase dois meses após o encontro, e a morte da vereadora ainda sem resposta, nos encontramos às quatro horas da tarde num bar de cerveja artesanal no Humaitá.  Teríamos pouco tempo, pois na sequência ele teria que pegar suas filhas na escola.

Tira gentilmente cedida para o blog “Inconsciente Coletivo”

André Dahmer, 43, já ganhou o Jabuti com o livro Quadrinhos anos 10 entre outros prêmios. Suas tirinhas atualmente saem na Folha de São Paulo e no O Globo, numa produção de dezoito tiras semanais.  Ano que vem está previsto  sair pela Companhia das Letras uma coletânea de Malvados e O livro dos Cães, nome provisório para seu livro de poesias.

O André Dahmer poeta é menos conhecido que o cartunista, entretanto foi onde tudo começou. Sua entrada para o universo dos quadrinhos foi quase que por acaso.  Ele pouco conhecia quando começou a desenhar Malvados, motivo pelo qual seu amigo, o cartunista Arnaldo Branco, o chama de O bom selvagem.  Sua timidez foi a porta de entrada para o desenho. Diagnosticado na infância, com o que hoje chamamos de TDAH – vulgo déficit de atenção, sua mãe foi avisada que o menino não conseguiria muita coisa na vida, certamente não chegaria a se formar em nada. Ao que parece a realidade desmentiu o médico desavisado, André Dahmer passou na época do vestibular para três faculdades, se formou e hoje é um dos mais consagrados cartunistas da sua geração.

Em 2013, num período sombrio de sua vida, entrou em depressão e surgiu o personagem Terêncio Horto, que assim como Malvados tem desenho fixo, só muda o texto, e foi nessa  época também que o conheci – uma amiga, a escritora Juliana Frank,  o trouxe à minha casa e ofereci um bife que ficou famoso, pois toda vez que nos encontramos ele diz: “Eu não comia nada, e a primeira vez que eu comi alguma coisa que gostei foi um bife que você fez”.

O poeta e o cartunista são o paradoxo deste homem de pequenos olhos pretos, ou talvez nem sejam tão pequenos, apenas afastados pelas lentes divergentes para  miopia que filtram uma doçura e uma virilidade em tensão constante. Convivem  o rapaz  de traço firme que acusa a sociedade de consumo com personagens niilistas e a melancolia doce do poeta que se emocionou até as lágrimas ao me contar  a experiência de se apresentar ao vivo, ano passado, no CEP 2000 – evento de poesia que acontece no Rio de Janeiro desde a década de 90 – quando o poeta Chacal o convocou a encarar o palco, enfrentando uma timidez paralisante. “Me preparei um mês. Tremia na hora, mas no final joguei o livro pra plateia. E disse pro Chacal – tirei um demônio de dentro de mim”.

Foi entre goles da cerveja artesanal, risadas e lágrimas que conversamos sobre o drama do país, o amor às filhas – seu maior sonho é conhecer os netos –, a esperança no futuro e sobre quadrinhos. “O humor vive épocas de ouro durantes as crises”, lhe avisou seu amigo, o cartunista Jaguar. E para que ele não se esqueça mais: Sim, lembro de ter lhe oferecido um bife inesquecível.

Ora, quem não conhece o poeta aqui vão alguns poemas retirados de seu livro “A coragem do primeiro pássaro” pela editora Lote 42:

“amor é assim

quem nunca perdeu

não sabe o que está perdendo”

 

“a luz teima nos lugares mais escuros

força e delicadeza são irmãs

que nunca se conheceram

 

dúvida é ferramenta da construção

de tudo que dura para sempre

tudo dura para sempre”

 

“atrasado

o mundo funciona

como um relógio”

 Você se tornou esse cara que dissemina o comentário da sociedade nesse momento de crise, faz uma crítica social. Suas tiras giram na internet…

Eu sempre quis fazer um trabalho atemporal, que pudesse ser lido daqui a vintes anos e achar que ainda faz sentido. Mas por eu trabalhar há tantos anos em jornal,  entendi que não. A charge é política, marca o momento. Então você lê hoje uma charge dos anos noventa e não entende, é jornalístico.

Uma tira, por exemplo, que fiz essa semana de um cara saindo de uma caixa e falando “não fujam para Portugal”,  e volta pra dentro da caixa, vai se perder, não fará sentido daqui a uns dez anos.

O Arnaldo Branco  brinca comigo e diz: “Dahmer você vai virar o quadrinhista dos idosos”, porque trabalho em jornal e eles gostam de mim. Mas mesmo que exista este leitor do jornal provavelmente mais velho, existe também uma renovação, por causa do Instagram, Facebook e do Twitter. Ontem um garoto de uns quinze anos me abordou e disse “eu gosto muito de seu trabalho”.  Sou um cara que ainda tem uma voz dentro do contemporâneo. Me deixa aliviado saber que meu trabalho não é uma moda e que perdeu relevância.

Mas a fama é um dos maiores carmas que eu conheço, porque primeiro você perde sua privacidade, depois você vira de domínio público. Sempre tive medo de não poder mais andar de ônibus. Eu não dirijo.  Eu sou tímido. Hoje quando alguém pede pra tirar uma foto, eu falo: Pra quê? Isso não serve pra nada.

Onde te afeta a crise da arte e da cultura diretamente, profissionalmente?

Profissionalmente é um momento maravilhoso pra ser cartunista. Eu estava numa mesa de debate com o Jaguar e ele falou “nada melhor que uma ditadurazinha pra gente trabalhar mais”. Claro que eu não quero que o país continue nessa merda que tá, mas pra gente é ouro. Na verdade o desmonte é geral. Os meus pares não conseguem mais não falar de política. O Laerte por exemplo se voltou inteiramente pra política e pra questão de gênero, que é a bandeira dele. Porque estão acontecendo coisas muito sérias no país.

Quanto pior melhor, um certo niilismo em suas tirinhas. Uma crítica ácida ao sistema de produtividade. Tem tirinhas geniais, porém geniais diante do horror. Existe um prazer ao compor uma tirinha que você ache incrível, mesmo retratando a miséria da condição humana? Gera culpa?

Não, porque é por denúncia do horror e não pelo prazer de retratar o horror. Como essa tira que passa um avião com a faixa “não há nada acontecendo” e na tirinha seguinte, outro avião com a faixa “está tudo bem”. Esta tira circulou muito, num momento em que a gente estava vivendo uma normalidade pós queda da Dilma. Eu não consigo avaliar de fora o que funciona ou não funciona.  Não sinto prazer, mas encaro como uma forma de mostrar o que tá acontecendo.

Mas quanto pior, melhor?

Como diz o Jaguar… Nada como uma ditadurazinha pra alegrar o nosso trabalho.

Tira gentilmente cedida para o blog

O humor tem uma força muito grande de denúncia. Não é à toa que quando o tempo fechou em 68 prenderam primeiro os intelectuais e os sindicalistas, e os artistas foram junto – que só faziam piada. A censura prévia só começou a existir a partir de uma charge do Jaguar, em que ele colocou Dom Pedro às margens do Ipiranga, e um balão dizendo “Eu quero paçoca!”, que era uma música da época. A polícia foi no dia seguinte prendê-lo por ter profanado símbolos nacionais. Ele falou “eu não profanei nenhum símbolo nacional, não falei de hino, bandeira…”.

O Jaguar me deu essa charge, e eu disse: “por que?” E ele disse: “cuida bem dela”, eu disse “Por que?”. “Porque eu fiquei três meses em cana por causa dela”. Achei que era brincadeira, mas era verdade.  E ele me deu pra guardar. Ele me deu uma coisa histórica.

Você é amigo do Jaguar?

Sim, não sei se ele me considera amigo, mas eu o considero um bom amigo. Às vezes ele me liga, só os velhos fazem isso. Eu já sei que é ele, porque hoje ninguém mais liga. Eu atendo e ele diz “você, hein, rapaz. Gostei dessa de ontem hein. Tô ligando pra dizer que gostei dessa de ontem.”

Como vê a realidade hoje? Onde estamos e para onde iremos? Qual a perspectiva de futuro?

Pro país são as piores. O que estamos passando agora, com as leis e o que estão vendendo… No meu lado egoísta, penso “ainda bem que a minha filha só tem sete anos”. Coitado dos  garotos que têm dezoito, que merda. Quando eu entrei na faculdade em 94 eu procurava estágio pra design no jornal e não tinha. Era uma crise muito feroz, foi coisa de louco até a moeda estabilizar. Eu tendo a achar que essas gerações que passam por grandes crises econômicas e momentos de cerceamento de liberdade, formam gerações mais conscientes, com mais artistas bons. Agora nos próximos dez anos vai ter muito guri fazendo coisas maravilhosas. Me chamam de pessimista e niilista, mas é mentira, eu acredito muito nos jovens, e até quando vejo caras da minha idade que não perderam a fé na política, eu digo “Você é que nem eu”. Esperança é tudo, a certeza de que a gente consegue construir uma sociedade boa. Esse viralatismo de falar que o Brasil está fadado, que este povo é uma merda… A gente ainda vai construir um país bom pra todo mundo, meu otimismo é que os que estão vindo com dezesseis anos estarão muito conscientes.

O que é o Rio de Janeiro hoje? Cidade sitiada, falida. O que fazer neste contexto e pra quê?

O Rio de Janeiro: Você tem um governador que é um general e o prefeito, um bispo [risos]. É motivo pra rir, é claro. Se eu acreditasse em fundo do poço, porque só otimistas acreditam que poço tem fundo, acreditaria que a gente tá no fundo do poço.  A gente chegou num lugar em que ou se discute a questão da droga, ou vai continuar enterrando setenta mil pessoas todo ano.

O Rio já foi uma cidade poesia, uma cidade fetiche. A boemia, a praia, etc. O que o Rio é hoje?

Você repara o tamanho da depressão do país, estamos a menos de um mês da Copa e não tem decoração. Você vê bandeirinhas na rua? Isso é uma tradição, e não há nada. O Rio tá muito degradado. O número de pessoas pedindo dinheiro! Hoje vi uma moça cantando em espanhol no metrô, muito lindo. Uma artista de rua, quase pedi o telefone dela, mas fiquei com medo dela achar que eu estava assediando.

Os dois maiores problemas do país: a violência que passa pela droga, e a mobilidade urbana, se resolvesse esses dois melhorava muito.

A tirinha é uma crônica, um comentário da sociedade, mas para além do humor, como definir o quadrinho no Brasil?

O quadrinho no Brasil sempre foi visto como coisa de criança. Há dez, quinze anos você não tinha uma seção de quadrinhos para adultos, inclusive os meus ficavam numa estante de quadrinhos infantis – o que é um perigo, porque não é pra criança.

Teve um amadurecimento grande desde essa geração que chamo de geração zero zero, que começou na internet. Eu fui um dos caras, o Arnaldo Branco foi outro, fomos os pioneiros em colocar quadrinho na internet. Por  bem da verdade é que aconteceu um renascimento do quadrinho de adulto, que já tinha tido um boom antes, nos anos 80 –  com os três amigos,  o Glauco, Laerte e Angeli em São Paulo e aqui os Cassetas.

Essa geração foi destruída pelo Collor nos anos 90. Eles lançavam revistas em banca e com o confisco da poupança várias indústrias foram destruídas…  vários movimentos culturais acabaram, um deles foi o quadrinho paulista. O Laerte fala com propriedade sobre como o confisco da poupança fez mal pra essa geração. A política ainda era muito marginal na impressão de zines. Eles caminhavam em paralelo, eram revistas filhas do Pasquim.

Mas o Pasquim foi o pioneiro no Brasil dessa forma de fazer humor independente e organizada, antes teve a Pif Paf do Millôr Fernandes que só durou 7 números.

Em 69 eles lançam o Pasquim. Que ideia de gênio! Não sei como tiveram a ideia brilhante de lançar uma revista contra a ditadura um ano depois do AI5!  Pois, em 1970 já estavam  todos presos.

Como nascem seus personagens?

Já passei por diversos métodos. Anotar no caderno… Hoje não anoto nada, já conheço o caminho. Eu sento pra trabalhar e faço. Mas, por exemplo, eu fui entregar meu livro de poesias na editora, O Livro dos Cães, e fiquei nervoso, li e reli porque sinto insegurança. Mas quadrinho eu já domino.

Mas Malvados, como foi?

Dentro da redação. Trabalhava num jornal de futebol, o Lance, e eu odeio futebol, nem tenho time. Na entrevista de emprego o cara me  perguntou: “qual seu time” e  eu pensei, vou falar Flamengo, porque achei que teria mais chance de ganhar o emprego, mas ele era tricolor.

Eu fazia gráfico, e às vezes sobrava espaço, então o diretor de arte falava “tapa esse buraco que faltou matéria, faz um desenho”, e eu ficava todo feliz.

Eu queria fazer algo que fosse rápido, porque eu tinha uma vida corrida. Fiz dois bonequinhos, que julguei terem um traço de ouro, proporção áurea. Era um traço fixo, fácil, e eu só escreveria o texto. E realmente, eu olho Malvados, até hoje, é um desenho muito bom.

Em 2003 ou 2004 publiquei a minha primeira tira na internet, e já existiam outras pessoas publicando charges. O formato de tirinha era perfeito para a velocidade da rede, um recado em três quadros. Se disseminou porque combinava com a mídia da internet. Fiz uns cem, que mandava para oito amigos. Um dia alguém perguntou porque eu não instalava um contador de visitas. Instalei, e no fim do dia fui olhar o link, e vi que tinha tido 1.600 visitas na página, levei um susto.

Mas, na verdade, eu comecei a escrever tirinha pra aprender HTML, estava fascinado com esse alcance da internet. Eu queria aprender a publicar coisas.

Você nunca se imaginou um quadrinhista?

Nunca imaginei ser quadrinhista profissional. Mas vi que eu gostava de fazer isso. Depois descobri que tinha leitor. Mais ou menos um ano e meio depois recebi uma ligação do JB dizendo que o Ziraldo tinha entrado de editor e queria me convidar,  achei que era trote. Eu nunca sonhei que pudesse publicar, nunca achei que eles publicariam, só tinha Recruta Zero, Garfield… O meu quadrinho falava de outras coisas. Aqui não tinha tradição.  Na Folha tinha Piratas do Tietê, mas eu nem sabia.

Eu não lia quadrinhos. Eu li Homem Aranha ao dez anos, Mortadela e Salaminho, Obelix e Tintim, e só.

E o Terêncio Horto?

Nasceu em 2013, um período triste da minha vida, você sabe muito bem, eu estava em depressão, e falei com meus dois editores que eu queria parar, não conseguia fazer mais. Nessa época já desenhava mesmo, trabalhava pra dois jornais importantes.  E eles falaram, “já me separei, sei como é isso, me manda umas trinta tiras de 2005 até você melhorar” e isso me salvou.  E nesse mês pensei, “não tô com força pra desenhar, mas consigo fazer o que faço com Malvados”, então criei um personagem fixo que se movia pouco e era só texto, fiz o Terêncio.

O Emir foi o primeiro personagem depois de Malvados e quando eu publiquei na internet, eles [os leitores] falaram: eu odeio isso, esse negócio colorido. Muita gente reclamou, criaram um bordão que era “Só gosto de malvados, Tio”.

Alteridade, lugar de fala e linchamento. Como fica o humor hoje?

Uma charge que fiz no ano passado, com dois velhos apontando o dedo e falando “aquele ó, aquele ali fingindo que não é machista é meu filho”. Recebi comentários  de mulheres dizendo que esse não era meu lugar de fala, “quem fala sobre machismo somos nós”.  E eu concordo. Eu sou homem, sou branco, e toda vez que eu vou falar em algum lugar só tem homens ao meu lado, não tem mulher nas mesas, enfim… Hoje tem um movimento das mulheres nos quadrinhos. Não pode ser eu, nem um cara branco a carregar essa bandeira, não por medo de ser atacado, mas porque acho que não é meu lugar mesmo.  Acho o feminismo uma das bandeiras mais importantes, apesar de toda a violência que ainda persiste, é um movimento que cresceu muito rápido. Se organizou e solidificou.

Quem você curte hoje?

Muita gente. As meninas Lovelove 6 (Garota Siririca), Mariana Paraíso, Arnaldo Branco, Benett, Andrício de Souza – que é um cara novo.

E jovem, quem você lia?

Eu fui diagnosticado com TDAH. Eu não consigo ver um filme inteiro, tenho dificuldade de me concentrar, em ver televisão, livros, acho que foi por isso eu fui pra poesia.

Tem uma semelhança entre a poesia e a tirinha…

Me influenciou toda esta parte da sociologia, toda a minha família é formada por assistentes sociais, tinha muita literatura sobre isso em casa.

Leminski foi o primeiro cara que me encantou, e na faculdade conheci Ferreira Gullar, Adélia Prado, Hilda Hilst…

Eu frequentava o CEP 20000 na plateia e era fã daquela galera. Ano passado, eu falei para o Chacal que eu assistia e não tinha coragem de me apresentar, então ele disse: “Você vai ter que falar uma poesia”. Eu me preparei semanas. Eu falava dentro do banheiro…

E foi lindo – eu fico emocionado de falar disso –, aí eu subi no palco e falei: “Tô tremendo aqui, pode falar tremendo?”. Quando eu desci tinha menos um demônio dentro de mim. A gente tá na vida pra realizar as coisas. E foi muito importante. Tinha decorado mas levei o livro, falei decorado e no final joguei o livro pra plateia. Se eu não fosse tímido teria feito isso com vinte anos e teria tido outra vida. Tô chorando, desculpa Tracy, eu faço isso toda hora, eu gosto de chorar.

Maturidade e carreira. Vi numa entrevista você dizer: “minha natureza é desmedida”. Defina o desmedido.  A idade abranda essa desmedida?

Abrandou muito com o nascimento das minhas filhas. Sou uma pessoa muito impulsiva, de coração, sempre me movi por impulso bruto, e  isso é muito perigoso. Quando você é mais jovem pode dar várias merdas, você pode se viciar, se acidentar, morrer. Eu entendo que é importante ficar vivo muito tempo, porque eu tenho coisas pra fazer e não digo de carreira. A coisa mais importante é ficar vivo pras  minhas filhas me curtirem, minha maior ambição, depois de morrer dormindo, é ver netos.

Eu sempre tive um monstro dentro de mim, cada um deve ter um, mas o meu fala muito alto, por isso acho que devo muito às artes, porque é uma válvula de escape para o que eu tenho dentro de mim. Várias pessoas ficam malucas, precisam tomar remédio, ficam deprimidas. Se essas pessoas tivessem arte, um violão, uma folha de papel, essas pessoas não sofreriam tanto a ponto de ter que ir a um psiquiatra. Cara, eu me considero muito mais doido do que muito dos meus amigos que tomam remédio, e não tomo remédio. Não porque eu seja forte ou corajoso, é porque eu tenho um escape.

Nem quando você ficou deprimido você tomou?

Não. E acho que deveria ter tomado nesse caso. Não faço apologia contra o uso de remédio, porque tem casos em que salva a vida.  Tem casos em que você sofre risco de vida. Eu tive síndrome do pânico, achava que estava morrendo, e fui várias vezes ao médico, e ele falava que eu tinha que ir ao psiquiatra, e não fui. Fiquei três dias sem dormir, fui durão pra não me chancelar como doente mental, mas ele estava certo, eu estava com uma doença mental, eu tive depressão.

Hoje em dia, por exemplo, dão ritalina e outros remédios para as crianças, simplesmente porque são crianças fora do padrão, que não ficam sentadinhas olhando o professor. Eu fui essa criança, o médico falou pra minha mãe “Seu filho não vai chegar na faculdade, você vai ter que cuidar dele a vida inteira”. Mentira, eu passei em três faculdades quando prestei. Minha filha, a Nina, a mais velha, ela parece comigo, ela tem o monstro dentro dela também. Ela vai precisar de qualquer  tipo de apoio, pode ser a terapia, a arte…

Como você percebe isso?

Porque ela tem essa impulsividade, não escuta ninguém, não se concentra, não para quieta. A Nina é muito parecida com o que eu sou.  Às vezes fico assustado, não quero que ela sofra o que eu sofri. Espero que ela entenda que ela só é fora do padrão, não é doente. Quando eu tinha catorze anos meu apelido era Dodói. Todos já sabiam que eu era diferente, então essa pecha de maluco me acompanhava, e eu não achava bom, na verdade eu sou todo certinho, pago minhas contas, faço tudo certinho.

Você não é doidão.

Não, não sou um porra louca, como temos vários amigos. Mas eu vejo que a maioria das pessoas não são como eu. A Nina vai precisar entender que ela só é diversa da maioria.

Qual é o seu maior medo?

Medo de morrer, o maior de todos, o primeiro, o meu medo de avião é derivado disso. Sou ateu. Tenho medo de não ver os netos, eu gosto tanto da vida que quero ser o último, enterrar todos os meus amigos, carregar todos os caixões. Eu vejo o Jaguar, não é nada fácil, seus amigos estão todos mortos. Mas ele renova as amizades dele.  Eu perguntei pra ele se poderia entrevistar ele semana que vem, ele respondeu “Dahmer , eu tenho 86 anos, eu só marco coisa pra amanhã”. [risos]

(Após uma pausa, na hora de nos despedirmos)

Como sou louco de ter te perguntado sobre o bife… Porque isso foi um marco na minha vida. Eu menti, disse que comia pouquinho. Aí quando eu comi, pensei, nossa isso é gostoso.