Rabino Nilton Bonder: a alma imoral em tempos de pandemia
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Rabino Nilton Bonder: a alma imoral em tempos de pandemia

Morris Kachani

21 de outubro de 2020 | 20h17

Cura e alegria são as palavras-chave

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=nU-hX0yb6Vk

Traduzir e interpretar à luz dos dias de hoje os sinais contidos na bíblia judaica e nas velhas discussões talmúdicas, não é missão das mais simples. O rabino Nilton Bonder, surfista, líder da congregação carioca Midrash, o faz com maestria.

Ele se tornou best seller, com mais de 10 obras publicadas. A mais famosa é Alma Imoral, que virou peça de teatro, super premiada, com a atriz Clarice Niskier encarnando no palco a tradição e a transgressão que nos moldaram desde o pecado original – para Bonder, a chave para o entendimento da vida transita no equilíbrio entre estes dois campos.

No momento, ele está trabalhando como dramaturgo em um projeto artístico em conjunto com a coréografa Debora Colker.

Bonder talvez seja o maior especialista brasileiro na Cabala, escola de pensamento do misticismo judaico.

Nesta entrevista, ele introduz o milenar método de interpretação contido nos livros antigos, e compartilha sua visão de mundo de uma forma mais ampla, lançando alguma luz sobre estes tempos obscuros de pandemia e negacionismo.

“A Cabala é uma forma de interpretação do mundo que vem de uma tradição judaica muito antiga. A gente tem quatro formas de interpretação: uma que é literal, depois uma narrativa metafórica – que é mais imaginativa -, uma terceira dimensão que é alusiva – não só uma metáfora, mas algo que me abre para outros assuntos – e por último, a quarta que é a secreta – que é um lugar intuitivo, que não está escrito, não é literal, não está simbolicamente sendo representado.

A Cabala nasceu disso, do interesse dos rabinos em estudar a interpretação até este último nível, que é um nível em que você depura de um texto algo que não está literalmente escrito, mas que você consegue intuir. Uma saída que não é racional, que para você vai parecer uma mágica. É um hocus pocus. Se eu levasse um aparelho celular para 1000 anos atrás nesse período de ocultismo, e eu mostrasse os recursos que tem meu telefone, eles iam dizer, ‘ah, a gente estava certo’. No fundo existe algo oculto entre um ser humano daquela época e o de hoje”

“Gênero é uma fronteira impressionante da evolução, porque a própria história de Adão e Eva, ela começa com uma questão de gênero. (…) O ato inicial de transgressão do ser humano não acontece com um substituto, ele acontece quando há uma paridade, que é o caso de Adão e Eva. Adão e Eva são sócios nesse processo de transgressão que vai acontecer. Nós não inventamos gênero masculino e feminino, isso é uma coisa da natureza, mas nós inventamos o “esposo” e “esposa”. Nós inventamos essa construção de uma identidade, e isso foi uma alavanca evolutiva enorme para o ser humano.

É muito curioso que cinco milênios depois – se a gente usar essas cronologias bíblicas – nós estamos indo de novo buscar na dimensão do gênero um impulsionamento evolutivo para o ser humano. É muito interessante quando o ser humano diz: ‘o fato de que eu tenho uma genitália não determina minha identidade de gênero’. Estamos apostando em um lugar absurdamente transgressor. Por transgressor eu estou exatamente dizendo isso, um lugar que o ser humano experimenta a sua identidade cada vez mais longe da natureza original do ser humano”

“Essa “inteligência” que questiona a ciência, ela tem seus dias contados. Ela pode ter um valor político hoje, assim como o desequilíbrio da desinformação. Esse desequilíbrio não se sustenta porque ele não é inteligente. Em algum momento essa desinformação se descontrói. Imaginar que o ser humano vai
para as trevas é absurdo.

A gente tem momentos de retrocesso. É horrível pensar que vamos ter que viver 30, 40 anos com as coisas assim. Mas no final, a verdadeira inteligência vai se impor”

“É um reequilíbrio das coisas. O mundo fez um movimento transgressor muito grande, apostou todas as fichas no movimento transgressor, o que deu muita força para o aspecto conservador. O aspecto conservador tem uma fala muito importante, porque no meio desse desejo transgressor que o mundo ganhou no século XX, turbinado nos anos 60, o mundo se desequilibra”

“A gente perdeu uma das coisas mais estruturadoras no ser humano, que é o senso comunitário. Substituímos isso pela individualidade, somos consumidores ávidos da privacidade, da capacidade de fazer as coisas do jeito que eu quero, da minha maneira. Isso para nós é um valor que é parte dos
desequilíbrios dos anos alegres, livres. Esse mundo onde a gente pode não ter filhos, onde podemos ter liberdade para fazer o que quer com a vida – “quero ser livre”, “quero fazer o que eu quero” – que é uma grandeza, que trouxe coisas importantes para o mundo, é também parte do desequilíbrio do mundo”

“A China está hoje mais habilitada à sobrevivência do que os lugares livres. Estou falando isso porque estamos tendo uma gravíssima crise que está impactando não só a saúde, mas a saúde econômica de países muito estruturados, como Estados Unidos e Europa. A verdade é que houve mecanismos conservadores, controladores, menos individualistas que se mostraram bem mais eficazes para a sobrevivência tanto física, quanto econômica por um país que não era de ponta, do ponto de vista da inteligência do século XX, ou dos direitos humanos, da privacidade…”

“Religião e Estado juntos, do ponto de vista da gestão, é uma coisa inaceitável. São duas instituições de poder, de acesso às pessoas, que se forem duplicadas, funcionam tanto para o lado da política como para o lado da religião de forma desleal. (…) Juntas, a política e a religião são um cartel”

“Tem uma parte de tudo isso que a pandemia representa, que vai embora. Isso é um episódio da vida, quem viveu vai ficar marcado, quem foi para um respirador vai ficar muito mexido, mas a vida vai caminhar para um normal que é alienante.

(…) O que eu acho diferente de 1900 e pouco, quando houve a gripe espanhola, é que nós estamos sendo atropelados por uma revolução, que não tem nada a ver com a pandemia, é mais grave que a pandemia. A gente tem que mudar de curso nos próximos 10/15 anos, não é mais 20/30, para não termos eventos catastróficos planetários do ponto de vista do meio ambiente, como a gente nunca experimentou. São decisões que impactam a nossa vida profundamente”

“Eu sei que o mundo é capaz de reeleger o Trump, mas o Trump não é uma coisa inteligente. Então se tivermos mais quatro anos de Trump, vai ser muito problemático para o mundo em vários sentidos. Não é nem no sentido conservador, mas pelo negacionismo e a questão climática, os países estão
ardendo em fogo”

“Diz a tradição judaica que a partir dos 6 anos, quando você fez a primeira varredura sobre o que é viver, ou a sua alma virou leniente ou ela virou rigorosa. Não existe outra determinação. Existem pessoas a partir dos 6 anos, que são republicanas ou democratas, mortadelas ou coxinhas, e serão assim até o resto de seus dias”.

“O Bolsonaro é um bolsão, é uma bolha. Ele não existe do ponto de vista da inteligência no país. O personagem Bolsonaro, que é esse personagem da ignorância, não se sustenta”

“Quando a gente vive um momento assim, que é um momento de escuridão, é muito importante não perdermos a esperança. Para mim essa coisa da alegria, isso que a gente perde com o crescimento quando a gente não é mais criança – porque para a criança, o dia começa do zero -, esse zerar é fundamental à vida. Então quando você for acordar de manhã, sabendo que tem uma tempestade do lado de fora, diga – isso que a tradição judaica sugere – uma bênção; ‘Obrigada meu Deus, porque tudo que tinha que estar aberto, está aberto e tudo que tinha que estar fechado, está fechado’. Você não pode trazer a tempestade do dia anterior. Você tem que dizer, começou um novo dia, ele é independente de como você dormiu ontem, ele tem todas as qualidades da normalidade de antes e da normalidade de depois, todos os ingredientes e qualidades para a existência da vida”

“Existe essa questão: agir com responsabilidade e precaução com relação ao vírus, mas tomando o cuidado de não ficar reproduzindo a ameaça exacerbada, para não ativar o medo. Tem perdas nesta pandemia que não são só de doença física. São de doenças emocionais”

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