Reginaldo Prandi: o que dizem os orixás sobre a pandemia?
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Reginaldo Prandi: o que dizem os orixás sobre a pandemia?

Morris Kachani

27 de outubro de 2020 | 17h42

“Existe um Orixá muito ligado às doenças e às pestes, que é o Omolu. O Omolu não é só capaz de curar uma peste, uma doença, como também é capaz de provocá-la”

“Que Deus nos proteja iluminando as mentes dos cientistas que vão trazer a salvação real, que é a vacina”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=hH_Rqjc1oyM

“Os mitos acabam falando exatamente o que a ciência está dizendo. A pandemia é consequência de um desequilíbrio provocado pela ação humana no arranjo da natureza”

“O mundo é perigoso, tão perigoso, que para proteger o terreiro – que é a morada dos Deuses – na hora de oferendas, é preciso entrar de branco e com muito cuidado, para não trazer os “vírus” para dentro. Então essa noção de que o mundo é “perigoso” e que você tem que se “limpar” sempre, isso é muito presente na cabeça de muitos do candomblé, desde sempre”

“Tem a ideia sempre presente de que a sociedade ao se reproduzir, nada mais faz do que sofrer o resultado das sucessivas reencarnações dos espíritos. (…) Um desequilíbrio entre natureza, sociedade e indivíduo provoca desde uma guerra até o empobrecimento de uma pessoa, até a morte de alguém, até a loucura de uma determinada figura, mas em última instância pode provocar o fim do mundo através de uma coisa que tenha essa extensão da pandemia, que nós vivemos hoje. A solução é restabelecer esse equilíbrio”

Quais são as respostas que o candomblé teria a oferecer neste momento de tanta incerteza, privação e ideias tortas?

Pra quem nunca foi ao terreiro, como definir o candomblé?

O professor Reginaldo Prandi escreveu uma obra seminal a respeito desta religião afro- brasileira. Mitologia dos Orixás resgata histórias, fábulas e lendas vividas pelas divindades.

E o que inspirou esta entrevista foi investigar justamente, como essa mitologia pode nos ajudar a entender melhor e a lidar, com as dificuldades e por que não, também com as alegrias de nosso tempo.

Reginaldo deu aulas sobre sociologia das religiões por décadas na USP e é autor de dezenas de livros sobre o candomblé. Um deles, o primeiro, escrito há 30 anos, “Os candomblés de São Paulo”, está sendo reeditado agora, com 3 capítulos novos dando conta das atualizações.

O crescimento evangélico, a intolerância religiosa e as perseguições aos terreiros, de um lado. E a popularização da crença através da internet, de onde hoje é possível se jogar búzios online e participar dos rituais. Sinal dos tempos, surge uma tendência, a dos candomblés veganos.

Estamos acostumados com as religiões monoteístas, e o candomblé é politeísta. Ele vai se apropriando dos deuses que aparecem. Não tem bem e mal. Não tem diabo. É uma religião a um só tempo, ancestral e contemporânea.

“É uma religião politeísta, com muitos deuses, e sacrificial, em que você oferece sacrifício aos deuses. Esse sacrifício significa dar aos deuses tudo aquilo que é fundamental para a vida humana, que é  comida, bebida e a diversão. A diversão para o povo era bebida e música, então você vai dar aos deuses muita música, muito ritmo, muito tambor, bebida e muita dança”

Ilustração de Pedro Rafael para “Os candomblés de São Paulo: Nova Edição Atualizada”, de Reginaldo Prandi, editora Arché, no prelo (2020/ dezembro)

“Você tem cada elemento da natureza sendo governado por uma divindade específica; você tem um Deus supremo/criador, mas ele não se intromete no governo dos outros. Esses deuses são chamados de orixás, que são as divindades fundamentais do candomblé”

“No cristianismo e no judaísmo todos têm uma só origem, um Deus único, e vem do primeiro casal, Adão e Eva. No candomblé cada um vem de uma divindade diferente. (…) Por isso que aqueles que descendem do Deus do mar, os que descendem do Deus do Trovão, os do Deus do rio, da Deusa da Guerra e assim por diante”

“Qual a matriz da natureza que dá origem a sua pessoa, a sua identidade? Isso tem consequência nas suas preferências, nos seus talentos, desejos”

“Você olha para o mar, você vê Iemanjá, você vai em Foz do Iguaçu, aquilo é Oxum. Quando tem uma tempestade e você escuta um trovão, isso é Xangô. Em cada elemento da natureza, em cada acidente geográfico, você tem não só a presença da natureza morta, mas também da natureza viva. Tudo isso tem a sua divindade, o seu orixá”

“Essa noção de “bem e mal” é uma noção muito ocidental, muito judaica. O bem e o mal fazem parte da mesma coisa, não existem bons nem maus, você tem que aprender a lidar com os dois, aprender a satisfazer as duas metades para você chegar a um equilíbrio, nunca o bem vai vencer o mal ou o mal
vencer o bem porque eles não existem sozinhos”

“De trinta anos para cá, você pode imaginar, a maioria dos terreiros que eu estudei na época – eram uns 60 – eles desapareceram porque os pais e mães de santo morreram e não deixaram sucessor ou porque os terreiros passaram por algum processo com que eles fechassem, ou então porque muitos pais e mães de santo foram convertidos a outras religiões. Mas muitos terreiros sobreviveram, inclusive os mais importantes estudados na época, continuam existindo até hoje, com novos pais, novas mães, muitos se expandiram. (…) As “gerações zero”, que são aqueles que iniciaram a religião, que estavam na Bahia, todos morreram”

Ilustração de Pedro Rafael para “Os candomblés de São Paulo: Nova Edição Atualizada”, de Reginaldo Prandi, editora Arché, no prelo (2020/ dezembro)

“Novas fontes de conhecimento estão se abrindo. O que esse livro [“Os candomblés de São Paulo”, está sendo reeditado] vai mostrar, é que com a chegada da internet isso se acelerou até um certo ponto. (…) Na medida que a pandemia fechou o terreiro, o contato social passou a ser feito através da internet, usando-se aplicativos; zoom e outras coisas desse tipo. E com isso, os pais e as mães de santo puderam manter os seus filhos, fazendo as sessões através de lives, mensagens no Facebook, grupo de WhatsApp”

Ilustração de Pedro Rafael para “Os candomblés de São Paulo: Nova Edição Atualizada”, de Reginaldo Prandi, editora Arché, no prelo (2020/ dezembro)

“Os Deuses se manifestam para receber a sua oferenda através do transe, que é um processo que o iniciado deixa a sua identidade e assume uma outra identidade, que é a identidade da divindade que ele carrega”

Ilustração de Pedro Rafael para “Os candomblés de São Paulo: Nova Edição Atualizada”, de Reginaldo Prandi, editora Arché, no prelo (2020/ dezembro)

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