Roberto Romano: niilismo e sebastianismo à brasileira
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Roberto Romano: niilismo e sebastianismo à brasileira

Isabella Marzolla

17 de setembro de 2020 | 18h26

“A culpa da nossa deriva não está na direita, na esquerda ou no centro. Está na sociedade brasileira e na sociedade planetária que não encontra mais possibilidades de universalizar valores. Não existem valores universais mais”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=xo33Z94j1fQ

“O Brasil se perdeu em determinado momento, que eu não sei dizer qual exatamente. Você passou a desacreditar valores, aquilo que na filosofia chamamos de niilismo, ou seja, pouco importa, você diz o que é importante dizer na hora, você não acredita naquilo. Nós nos perdemos, o país está à deriva, você não tem solidariedade política, solidariedade humana, veja esse espetáculo das praias e bares cheios em um momento em que você tem 4 milhões de infectados”

“O mito sempre acompanha essas situações desesperadas em termos sociais. Quando a sociedade não tem mais razão e ciência que explica para ela mesma o que está vivendo, ela vai para o mito, é o sebastianismo constante que nós vivemos no Brasil”

“Com a destituição de Dilma Rousseff houve uma levada dos partidos oposicionistas a uma reação e não a uma ação. Todos os partidos de oposição reagem a atos do governo ou a situações sociais, mas quase todos deixaram, de certo modo, o seu papel programático, o seu papel de vanguarda. Isso me parece um ponto delicado, porque se você não tem oposição, o país fica entregue ao arbítrio de quem governa”

“A oposição está devendo ao país mais ação e menos reação. (…) “Eu sempre lembro da república de Weimar, em que o grande inimigo da Social Democracia era o partido Comunista, e o grande inimigo do partido Comunista era a Social Democracia. E eles lutaram um contra o outro até a vitória do nazismo, quer dizer, eles não tiveram condições próprias de unir as suas forças de maneira eficaz e o resultado foi tremendo”

Para entender a crise política e social do Brasil, o Inconsciente Coletivo conversou com Roberto Romano, doutor em filosofia pela L’École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), professor de ética e filosofia da UNICAMP e autor de obras que estudam a sociedade e a política, entre elas o livro “Brasil: Igreja contra Estado”.

“O centrão hoje é o coágulo vem corroendo o congresso nacional, do fenômeno que é conhecido como fisiologismo. Nós chegamos ao ponto extremo do fisiologismo apimentado pela mistura do aspecto político e do mercadejo de recursos com a pauta religiosa”

“(…) O centrão foi pouco a pouco perdendo as suas grandes lideranças, aliás em como toda a política brasileira. Você não tem mais na política nacional pessoas no porte de um Itamar Franco, de um Mario Covas. O último grande personagem do lado da esquerda foi Luiz Inácio Lula da Silva, se você pegar o centro vai ter políticos limitados regionalmente ou limitados dentro das suas organizações partidárias”

“O Bolsonaro vem em uma onda, antiquíssima na política brasileira que vem desde o final do governo Getúlio Vargas antes do suicídio, chamada “mar de lama”. A corrupção tem sido um tema constante na política brasileira e sempre aqueles que dizem que vão lutar contra a corrupção chegam ao poder. É quase uma receita certa de ganhar eleições”

“É o truque de colocar os atuais governantes e políticos todos como corruptos, sem fazer dissenção nenhuma, e isso resulta no seguinte: “Eu sou fora do sistema, eu não sou corrupto”. Isso aconteceu com o Fernando Collor, aconteceu com o Jânio Quadros e isso aconteceu com os dirigentes militares que diziam que vinham de um campo totalmente alheio à corrupta política nacional. Esse é um truque velho”

“O Max Weber, grande teórico do início do século XX, dizia que os partidos europeus são programáticos e ideológicos e os partidos norte-americanos com indivíduos que conseguem ganhar as eleições utilizando essas técnicas de marketing e de leniência absoluta. Essa dissenção não funciona mais, você vê na Europa partidos que plenamente utilizam dessas técnicas de marketing e vê tentativas na América do Norte e na América do Sul de instaurar partidos que sejam programáticos, mas esses partidos não têm grande amplitude eleitoral”

“Você não tem em nenhum partido a prática das primárias de verdade. (…) Então primeiro, você não tem respeito por base partidária nenhuma. Segundo, você não encontra eco e não procura apoio de juventude, portanto, não há renovação. Essa “não renovação” leva a esse automatismo de repetir estratégias e táticas. Os partidos estão “morrendo” com o corpo bem gordo, o corpo funcional está bem “gordo”, mas a quantidade de adeptos que lutam por eles diminuí a “olhos vistos”

“O que é a classe média? A classe média não é nem a proprietária nem a trabalhadora pura. Ela tem uma propriedade que é o seu diploma, ela tem um pecúlio familiar, então ela tem uma propriedade que a todo momento pode estar ameaçada. (…) A classe média é plural em certos pontos mas ela tem alguns traços éticos que são comuns, ela é ressentida, desejosa e tem uma capacidade maior de racionalização do que o pobre, ela assume uma ideologia monopólica, sempre “a corrupção é dos outros””

“O marketing político é muito antigo, eu diria, que é possível até chegar na democracia grega. Existem estudos que mostram essa capacidade de mentir e destruir o outro. Não é à toa que o Platão, em todo a sua vida teórica, ele era contra o sofista e o demagogo. O Bannon empanturra as massas com essa técnica absolutamente moderna com essa cultura da demagogia antiquíssima e a utilização do medo. Veja o Trump agora dizendo que “as manifestações são feitas por terroristas que vão ameaçar a vida das boas famílias americanas, e que ele [Donald Trump], é o único que vai garantir a “law & order” [lei e ordem]”

“É preciso, na minha opinião, que haja a adesão primeira a base do pensamento liberal que une a representação do governante com a responsabilidade diante do governado, a famosa accountability. Nosso Estado surgiu sob o signo da irresponsabilidade. Veja a concessão de 1824, o Imperador é irresponsável e essa irresponsabilidade foi transmitida muito rapidamente aos governadores. Você não tem o princípio da obediência do governante a accountability e, portanto, não tem soberania popular. Se você não muda essa prática e consciência e institui o princípio da accountability, não veja possibilidade nenhuma de melhorar a vida política, partidária e oficial do país”

“O Luciano Hulk vai retomar a história do “aquele que vem de fora da política” e que vai “salvar o sistema” com meios que não são da velha política. O Boulos é uma pessoa de classe média que tem uma política bastante radical, eu acho necessário que existam pessoas como ele e a Erundina, que coloquem em xeque a ortodoxia, mas acho difícil ele chegar a Prefeitura de São Paulo.

“O Fernando Haddad também é de classe média, um professor, intelectual, com uma “cabeça bem mobiliada” em termos de conceitos, com um discurso realista e um pequeno problema, que é o fato dele ter que encarnar uma figura muito carismática da política nacional, que é o Luiz Inácio Lula da Silva”

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