Ronaldo Lemos: o que Brasil tem a aprender com a China
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Ronaldo Lemos: o que Brasil tem a aprender com a China

Morris Kachani

09 de setembro de 2019 | 12h23

Foto: Bruno Prada

“A China retirou 750 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos. Se há uma lição que aprendi na China é a importância de planejar e de executar o planejamento. No Brasil somos muito bons de fazer planos. Mas péssimos em executá-los”.

Ronaldo Lemos acaba de voltar de uma viagem imersiva de três meses pela China, onde desvendou as mais diversas e incríveis experiências em termos de inovação e tecnologia, para seu programa “Expresso Futuro”, do Canal Futura.

Como por exemplo a explosão do livestreaming (transmissões ao vivo pelas pessoas por meio do celular) ou o trem bala, que hoje cobre 29 mil quilômetros no país e seria um sonho para qualquer brasileiro – ir de São Paulo a Salvador em 5 horas, ou do Rio a SP em pouco mais de 1 hora.

Eleito em 2015 pelo Fórum Econômico Mundial como um dos “Jovens Líderes Globais”, o advogado, com mestrado por Harvard e doutorado pela USP, representante no Brasil do MIT Media Lab e um dos criadores do Marco Civil da Internet, compartilha aqui o seu olhar.

Colaboração: Gabriel de Campos

Quais suas impressões gerais sobre a China?

A China é um país muito complexo e diverso. Não há uma só China, mas várias. Cada região do país tem suas peculiaridades e uma coisa que chama a atenção é o modelo de experimentalismo do país. Há modelos que são testados regionalmente. Se dão certo são ampliados, se não, são descontinuados. No Brasil usamos pouco nosso federalismo nesse sentido. Os Estados no país poderiam também ser laboratórios de inovação.

E do ponto de vista tecnológico? O que viu de mais surreal?

Do ponto de vista da tecnologia e redução da pobreza a China conseguiu um salto monumental. É impressionante como a China integrou infraestrutura e tecnologia. As verticais que o país vem desenvolvendo, como computação em nuvem, inteligência artificial e internet das coisas são visíveis em toda parte e têm um impacto direto na vida das pessoas. Por exemplo, os pagamentos na China hoje são digitais, feitos pelo celular.

Valeria a pena comentar um pouco sobre cerceamento de liberdade e crescimento econômico – essa ‘estranha’ mistura.

A história da China é única e singular. Não é um país que possa ser copiado. O arranjo político da China de hoje é produto de três séculos extremamente conturbados que o país atravessou, onde houve guerras, fome e um processo de abertura traumático. É um país de contradições mesmo. Apesar do Estado forte, em muitas áreas há muito mais liberdade econômica do que há no Brasil. E certamente mais competição entre as empresas locais.

Como a guerra comercial com os Estados Unidos está sendo vivida pela indústria tecnológica chinesa?

Esse é um tema que está na cabeça de todos os chineses. Há um temor de que o comércio internacional seja danificado como um todo por conta da disputa entre os dois países. Esse é um jogo em que ninguém ganha, nem os Estados Unidos, nem a China. No campo da tecnologia, um processo de cooperação continuada seria melhor do que de rompimento.

E Hong Kong?

Hong Kong mostra na prática o conceito de “um país, dois sistemas”. Dá para dizer que a China é um país e vários sistemas. As manifestações em Hong Kong demonstram isso claramente. São 7 milhões de pessoas em Hong Kong e 1,4 bilhão na China continental. As manifestações – que até agora têm sido tratadas diretamente pelas forças de segurança locais – são um teste para esse modelo.

Qual o papel da Huawei nesse imbroglio? A Huawei tem sido alvo de constantes de sanções de Washington, inclusive com a quebra de contrato com o Google, que oferecia o sistema Android às plataformas da empresa chinesa. Essa questão envolve o chip 5G, 10x mais rápido que o 4G.

A Huawei é uma empresa que se tornou muito competitiva, especialmente com o sistema 5G, bem como celulares de ponta. A questão da cibersegurança é importante e deve ser abordada com seriedade e de forma estrita com relação a qualquer empresa, seja ela a Huawei ou qualquer outra.

Sobre a aparelhagem com reconhecimento facial e leitura de expressões, feliz ou triste, tipo e cor de roupa utilizada e idade aparente. Antes de mais nada, poderia explicar como funciona esse mecanismo, e o que isso pode representar em termos de democracia?

A tecnologia de reconhecimento e detecção facial está presente não só na China mas em toda parte e veio para ficar. Hoje computadores são capazes cada vez mais de processar imagens em tempo real. No Brasil, participei da elaboração do estudo que levou à criação do Plano Nacional de Internet das Coisas. Nele fazemos uma série de recomendações sobre as salvaguardas que devem ser adotadas com relação a esse tipo de tecnologia.

Uma comitiva de autoridades brasileiras visitou a China no começo do ano para conhecer a tecnologia, o que foi criticado pela ala ideológica do governo, alegando espionagem chinesa. O Brasil acerta ao se abrir para a chegada desta tecnologia chinesa ao país? Alguns Estados do Nordeste como Pernambuco e Bahia já contam com aparelhos da Dahua, que fabrica equipamento de reconhecimento facial, e é uma das empresas chinesas vetadas pelos EUA. A empresa também participa de uma licitação aberta pelo metrô de São Paulo.

A história mostra que o Brasil teve oportunidades de se desenvolver sempre que há uma polarização global acontecendo. Nesse sentido, nosso país saber se posicionar em um mundo que novamente caminha para a multipolaridade é fundamental. Uma posição do Brasil consistente com sua independência e soberania histórica facilita que o país navegue da melhor forma possível nesse novo contexto.

A relação do Brasil com a China é muito forte e não é de hoje, mas tem se fortalecido ainda mais pelo nordeste brasileiro. Se o governo federal é ambíguo quanto a essa relação, os chineses entram pelos Estados. Há por exemplo o projeto do Nordeste Conectado, rede de fibra ótica que conectaria os nove estados nordestinos. 5.000 km de fibra ótica. As obras de infraestrutura são trocadas por imersão chinesa no comércio de commodities, com a intenção de incluir o Brasil na Nova Rota da Seda. Isso é bom para o Brasil?

A relação comercial entre o Brasil e a China é muito forte. Somos parte do seleto clube de países que possuem um superávit comercial com a China. A maioria absoluta dos países compra da China. No caso do Brasil, nos vendemos para a China e não é pouco, são 64 bilhões de dólares por ano. É possível alavancar essa posição para promover mais investimentos no país, inclusive em infraestrutura e transferência de tecnologia. Estamos em momento crítico em que o nível de investimento no país está historicamente baixo. É possível cooperar com os Estados Unidos, China e Europa para promover um ciclo de investimentos que seja de interesse do país.

O que o Brasil tem a aprender com a China? Que caminhos já avançamos – talvez a regulação? E que caminhos temos por avançar?

A China retirou 750 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos. Foi de uma economia rural na década de 70 para uma economia industrial e agora para uma economia cada vez mais baseada em inovação. Como disse, não é um país que podemos copiar, por sua história única. Mas entender economicamente o que aconteceu é importante. Se há uma lição que aprendi na China é a importância de planejar e de executar o planejamento. No Brasil somos muito bons de fazer planos. Mas péssimos em executá-los.

Como o Brasil é visto pelos geeks chineses?

A visibilidade da China no Brasil é muito pequena, assim como a visibilidade da China no Brasil também não é grande. A distância geográfica e cultural existe. No entanto, temos um histórico na área de cooperação científica e tecnológica, inclusive na construção conjunta de satélites. Acredito que uma compreensão maior entre os dois países pode facilitar outras colaborações que sejam de interesse mútuo.

Você assistiu “Privacidade Hackeada”? O filme termina com um apelo pelos direitos digitais e proteção de dados. E a pergunta é: os mecanismos de rastreamento de publicidade atuais de google e facebook já não violam por si só a privacidade dos usuários?

A proteção aos dados pessoais tornou-se um dos temas mais importantes deste século. Felizmente, o Brasil e a Europa estão adotando leis gerais de proteção de dados, que são um passo importante para tratar dessa questão. A lei de proteção de dados brasileira foi aprovada em agosto de 2018 e é um marco para essa questão. Hoje, mesmo a China está considerando adotar modelos de proteção de dados similares, especialmente por conta da expansão internacional das empresas chinesas.

Com relação à nova temporada do programa, o que podemos esperar?

Tem muitos temas importantes. Vamos tratar, por exemplo, da explosão do livestreaming (transmissões ao vivo pelas pessoas por meio do celular). É algo que ainda não estamos familiarizados aqui, mas que certamente vai chegar. Mostramos também o trem bala na China, que hoje cobre 29 mil quilômetros no país e seria um sonho para qualquer brasileiro (ir de São Paulo a Salvador em 5 horas, ou do Rio a SP em pouco mais de 1 hora). Ainda tem mais 2 semanas no Fantástico e 6 semanas no Canal Futura. Ao todo, são 4 episódios no Fantástico com 7 minutos, e 8 no Futura, cada um com 30 minutos de duração. Todos os episódios estão disponíveis no Futura Play: http://www.futuraplay.org/serie/expresso-futuro/

 

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