Safatle: “É impossível uma sociedade que consiga naturalizar estas mortes como a brasileira naturaliza”

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Safatle: “É impossível uma sociedade que consiga naturalizar estas mortes como a brasileira naturaliza”

Morris Kachani

14 de maio de 2020 | 14h34

Por Morris Kachani e Isabella Marzolla

Assista à entrevista: https://youtu.be/E8nyu1H_PKs

Medo.
Violência.
Melancolia social difusa.
Desamparo.
Estrutura de afetos políticos.
Solidariedade.
Emancipação.
Desejo.
A partir destas palavras-chave, o filósofo Vladimir Safatle, professor livre-docente da Universidade de São Paulo, desenvolve um olhar próprio sobre como a pandemia evolui no país. Que pode ser resumido em duas palavras: imoralidade social.

“A substância ética de um povo é definida pela maneira como ele se relaciona com a morte. Uma relação com a morte que é marcada pela indiferença, pela incapacidade completa de respeito com relação a aquele que não conheço, é de uma imoralidade social sem precedentes. A morte define questões vinculadas à memória, universalidade e respeito. É impossível uma sociedade que consiga naturalizar estas mortes como a brasileira naturaliza”.

“Talvez a experiência social da pandemia mostre, que a proposição “meu corpo, minhas regras” é errada. O corpo não é meu. Ele também é um veículo de contágio que interfere na vida do outro. O que eu decido, afeta a vida do outro. Se é isso, alguma coisa mudou”.

“A função do Estado é não só administrar a vida, como também organizar a morte e o desaparecimento. A gente como sociedade escravocrata sabe o que isso significa. Dividimos em dois estamentos. Tem aqueles que alcançam a condição de pessoa, em que a morte tem luto, tem dolo, tem narrativa, história, tristeza. E tem o outro, que é um número só. A gente conhece essa lógica. Ela funda a sociedade brasileira. Ela foi generalizada agora, só que com um elemento a mais. É a lógica suicidária. As pessoas que fazem carreata na frente de hospitais querem admitir a lógica sacrificial”.

“O Estado brasileiro se coloca como porta-voz deste tipo de afeto, o que deixa marcas na sociedade. Discursos que nunca imaginávamos ouvir, se naturalizam. A situação é cada vez mais calamitosa do ponto de vista de convivência social”.

“Nós brasileiros fracassamos na nossa construção como sociedade civil. Não se trata de masoquismo social. Este é um exercício fundamental para que possamos medir o tamanho das tarefas que nos aguardam daqui para frente”.

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