Um sarau sobre a agonia do Pantanal, com Tetê Espíndola: “os pássaros na garganta silenciaram”
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Um sarau sobre a agonia do Pantanal, com Tetê Espíndola: “os pássaros na garganta silenciaram”

Morris Kachani

09 de outubro de 2020 | 15h20

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=8aqh67DyDRc

“Recebi um vídeo do meu irmão, com os bichos todos correndo, sofrendo, aquela queimada. Eu fiquei angustiada e comecei a rezar, pedi para Deus como que eu poderia ajudar. E foi nessa noite que sonhei que eu tinha virado uma nuvem e tinha ido para o Pantanal. E eu chovia no Pantanal e salvei um monte de bichos. Aquilo deu uma aliviada na minha angústia. É bom ser nuvem, você vê tudo lá de cima”

Foi o poeta Augusto de Campos quem definiu Tetê como a cantora com “pássaros na garganta”. De acordo com a Enciclopédia Itaú Cultural: “Com seu repertório exótico, dotada de um timbre metálico e de uma extensão incomum, em que se destacam seus agudos extremos e afinados, ela criou um estilo sem paralelo na música brasileira”.

Natural de Campo Grande (Mato Grosso do Sul), foi reproduzindo o som de cachoeiras e pássaros de sua terra natal que Tetê, ainda criança, desenvolveu o gosto pela música, compartilhado por seis de seus sete irmãos, autodidatas como ela.

Tornou-se conhecida nacionalmente com o hit “Escrito nas Estrelas” (85), e figurinha carimbada do movimento da vanguarda paulistana, como backing vocal da banda de Itamar Assumpção.

Seu penúltimo disco, “Outro Lugar”, é um primor. Tetê é uma autêntica representante da cultura pantaneira, que tem no poeta Manoel de Barros o grande expoente.

O tema desta entrevista, com direito a performance a capella, foi a arte de Tetê e o impacto do fogo que ardeu no bioma que lhe é caro – 22% do Pantanal virou cinza, o equivalente a mais de três vezes a região metropolitana de São Paulo.

A situação catastrófica motivou a produção de um clipe dirigido pelo marido de Tetê, Arnaldo Black, contando com a participação de Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes, entre outros artistas. A música escolhida foi “Adeus, Pantanal”.

“Eu vejo a natureza em mim como uma raiz mesmo, que brotou. Eu alimento essa árvore, que é a mãe natureza, continuando a compor, a ter uma ideia, um visual do que eu quero cantar. Para mim, desde o início da minha composição, é como se fosse uma paisagem sonora, como um quadro. Percebi que a minha inspiração vinha direto dessa natureza que existia em mim”

“A minha infância foi no Pantanal. Antes de mais nada o pessoal se reúne ao cair da tarde – porque o pessoal dorme muito cedo –, e todos sempre estão tocando um violão, um ritmo chamado chamamé. É o que a gente escuta do pantaneiro, uma coisa entre a guarânia e a polca paraguaia. E a coisa de acordar com os pássaros, de tomar aquele café, que eles falam que é o “quebra torto”. Tudo é em função da natureza, acorda com o sol nascendo, vai dormir com o sol poente. Eles saem para cuidar da boiada. (…) A comida a gente nunca deixou de fazer, o arroz carreteiro, o chipaguaçu, a farofa com banana da terra, o pacú. É um outro ritmo de vida”

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