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Saúde mental durante a pandemia, por Christian Dunker

Morris Kachani

18 de março de 2020 | 21h13

Por Isabella Marzolla

Foto: Nino Andrés/ Divulgação

Ficaremos confinados, mas não loucos ou alienados. Pelo contrário, talvez sejam momentos para a introspecção e de esclarecimento coletivo.

Entrevista com Christian Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, e autor de diversas obras, como “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica” – vencedor do Prêmio Jabuti na categoria de melhor livro em Psicologia e Psicanálise de 2012 -, e “O Palhaço e o psicanalista”, ao lado de Cláudio Thebas, sobre como escutar os outros pode transformar vidas.

Possivelmente entraremos em confinamento total, como na Itália. Como o confinamento/isolamento afeta nosso psicológico?

O confinamento é uma experiência psíquica desafiante, pois aprendemos desde cedo que ele é uma forma de punição: “vá pensar no seu quarto” ou pior “vá para a prisão”. A ideia de não poder sair de casa é potencialmente ansiogênica, ela convoca a capacidade do indivíduo de “se acalmar”. Notícias, informações e cuidados podem nos acalmar desde fora, mas a angústia que a solidão causa, exige que nos pacifiquemos desde dentro.

Se você está exagerando na compulsão por notícias ou no estoque de álcool gel, verifique se não está tentando pular o trabalho de “se acalmar”. Ler, meditar, conversar livremente, escrever são práticas que ajudam para isso.

No geral, como esse cenário apocalíptico é sentido pela sociedade ?

Como um estado de exceção, um parênteses na vida, exatamente como quando estamos doentes. Só que desta vez estamos doentes coletivamente. Nesta situação nos tornamos mais egoístas ou mais sensíveis. É um momento que exige tolerância com os outros e principalmente consigo mesmo. Situações de perturbação da ordem e da rotina, com alta indeterminação ativam nossos complexos regressivos. Podemos simplesmente negar a situação, colocando a cabeça dentro da terra, podemos inventar conspirações delirantes de modo a nos garantirmos que no fundo há “um sentido maior nisso”. Podemos nos sentir desamparados, abandonados, como se nossos protetores tivessem tirado férias.

E por último, podemos aprender ou colher algo positivo da situação ?

Sim! É momento de criar soluções juntos. Aumentar nossa solidariedade, particularmente com os grupos mais vulneráveis. Penso que será uma dose cavalar de vitamina h que está faltando ao Brasil, ou seja menos potência de controle, arrogância e grandiosidade e mais humildade diante da vida e dos pequenos microorganismos que podem nos derrubar.