“Se o número de óbitos não parar de crescer, setor funerário não pode garantir nada”
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“Se o número de óbitos não parar de crescer, setor funerário não pode garantir nada”

Morris Kachani

08 de abril de 2021 | 15h28

“Morte por covid-19 só não é mais triste do que a morte por suicídio”

O colapso funerário é iminente? Que cenas nos aguardam? Como lidar com a morte sem o ritual de partida? Lourival Panhozzi, presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), conversou com o canal Inconsciente Coletivo.

Assista à entrevista: https://youtu.be/ktueiZj8QU8

“A pessoa que morre por covid entra no hospital andando, ali ela evolui para um quadro mais grave e é sedada, entra em coma e morre sozinha. Dali ela sai sem poder ter uma cerimônia funerária, os filhos, os pais, os parentes não vão poder ir para dizer um “adeus, uma benção, um perdão”, quer dizer, a pessoa nem sabe que morreu”

“Como é que você vai deixar de ir ao enterro do seu pai? Não dá para ir depois, no dia seguinte. É uma coisa essencial nas nossas vidas, esse momento, esse ritual, essa religiosidade. A gente perdendo isso, a gente perde a nossa essência, é a “morte invertida”, nós estamos sepultando corpos e não mais pessoas, porque é um corpo que está indo para lá, mas quem está morrendo de fato somos nós, e vamos ter que viver com esse peso, esse trauma para o resto da vida. Nós estamos perdendo sensibilidade”

“Não vai haver um colapso funerário no Brasil todo. Mas por exemplo, em março já tivemos mais de 180 mil óbitos absolutos e nós não produzimos 180 mil urnas, então nós já usamos o nosso estoque regulador, se esse número de óbitos não parar de crescer nós [setor funerário] não podemos garantir nada. Agora, pode acontecer que alguma cidade, alguma região entre em uma situação crítica e que precisaria ser socorrida por outras empresas”

“Nós não estamos conseguindo repor tudo que vendemos, então estamos tendo que usar o estoque regulador. O estoque aguenta mais um tempo? Aguenta. Quanto tempo? Vai depender da progressão das mortes”

“Ao invés das autoridades irem liberando os corpos para as famílias à noite, para que as funerárias possam ir retirando aos poucos, eles liberam tudo lá pelas 9/10 horas da manhã e aí liberam muitos corpos e tem que levar tudo correndo para o cemitério. Eu já administrei cemitérios que faziam 35 sepultamentos por dia, eu tinha 8 funcionários em equipes de 2 e fazíamos [sepultamento] às 7, 7:15,7:30,7:45, 8:00, a cada 15 minutos fazíamos um sepultamento, no final do dia tínhamos feito 35/40. Se chegasse 40 sepultamentos para fazer tudo às 9 horas não ia dar para fazer nunca, cemitério nenhum do mundo consegue”

“Eu queria que ele [Presidente Jair Bolsonaro] sentisse a emoção que é sepultar alguém em uma urna lacrada, contra o sentimento represado daquelas famílias”

“Tem alguns bolsonaristas que até queriam me bater na rua, mas não adianta gente, a realidade mostra fatos que não dá para contestar. Nós estamos vivendo um clima de guerra, 180 mil pessoas mortas é 70 mil a mais do que deveria morrer em um mês, é uma cidade que desaparece”

“Aquele luto que não é concluído, que não é finalizado, é um luto eternizado. As pessoas não vão conseguir se despir desse luto dessas pessoas que estão indo embora dessa forma tão triste”

“Eu tenho medo de morrer de covid. É como se você levasse a sua filha para a escola e não voltasse para buscar, as pessoas estão levando seus familiares no hospital e não voltam mais para buscar, vão se encontrar com elas na porta do cemitério à noite. Isso é desumano”

“Eu gosto de estudar a morte. Eu gosto de sentir o que ela traz de lição para nós. Toda morte traz algo de novo, você renasce. Era para a morte estar nos mostrando algo bonito, mas só que dessa forma que nós estamos morrendo ela não está mostrando nada bonito para nós. A morte sempre vem em um processo natural de evolução da nossa alma, quando a nossa alma “não cabe mais”, ela se desprende e vira espírito, só que agora está sendo arrancada antes da hora”

“Isso está no livro Tibetano dos Mortos. Há 3 mil anos atrás eles já escreviam isso. Quando nascemos, chegamos a um mundo estranho onde não sabemos a língua, não conseguimos enxergar direito, não ouvimos, não falamos, até para começar a respirar precisamos levar um tapinha. A pessoa quando morre, quando o espírito se desprende do corpo, ele também está acostumado a ouvir com o ouvido, olhar com os olhos, respirar com o pulmão e ele precisa aprender a respirar sem pulmão, a olhar sem os olhos, a ter sentimentos sem ter o corpo. Então ele tem 40/45 dias de adaptação a esse “novo mundo””

“Muitas vezes aquela “pessoa que morre”, só vai ter consciência que morreu na cerimônia funerária. Essas pessoas que estão morrendo de covid não vão ter nem esse ensinamento”

“Eu já fiz de tudo em funerária eu só ainda não fui a pessoa morta”.

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