Será que dá para formar um bom político? O RenovaBR responde
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Será que dá para formar um bom político? O RenovaBR responde

Morris Kachani

09 de janeiro de 2020 | 13h31

Entrevista com Eduardo Mufarej, do RenovaBR

“Se não ajudarmos a resolver o problema institucional brasileiro, com gente competente tomando decisões do que é público, nossa chance de mudar como nação é muito pequena”.

“O caminho do empreendedor cívico na política não é muito diferente do empreendedor regular. Talvez eu diria que o político tem até mais dificuldades”.

“Um político eleito custa caro, certo? Um político eleito que performa mal ou que não performa, custa mais caro ainda. E é nisso que a gente tenta atuar”.

“Os partidos são entidades privadas que ocupam esse espaço que é público e deveriam ser mais transparentes. Antes eram algumas companhias que tinham papéis não democráticos, e hoje trocamos pelo dono do partido”.

“O problema é que o Estado brasileiro está completamente amarrado. Esse é o maior problema. A máquina tomou conta do Estado”.

“As pessoas tendem a achar que os Rigonis e as Tabatas foram ungidos por eles, os donos dos partidos. E não é verdade. Esses caras têm personalidade, têm força e relevância independente dos partidos. Essa é uma quebra de paradigma”.

Com pouco mais de dois anos de vida, o RenovaBR, que oferece cursos para novas lideranças políticas, se tornou um fenômeno. No pleito de 2018, elegeu 17 alunos, entre os quais a deputada federal Tabata Amaral e o deputado federal Felipe Rigoni. Para as eleições deste ano, a instituição formou mais de 1170 alunos de 410 cidades, interessados em se candidatar a vereador ou prefeito. Eles foram selecionados dentro do universo de 31 mil pessoas que se inscreveram para participar do curso (a propósito, a instituição acaba de abrir novo processo seletivo, por conta da alta procura).

Apenas lembrando, em uma visão de contexto mais ampla – só na Câmara Federal, houve uma renovação de 50% nas últimas eleições.

No seu site, o RenovaBR explica qual seu propósito: “qualificamos cidadãos para fazer boa política, independentemente de suas origens, crenças e posicionamentos”. Ou seja, pelo menos de acordo com a direção da instituição, a diversidade de pensamento político, seja ele de esquerda, de direita, ou de como preferir chamar, é bem vinda. Da nova turma, por exemplo, há filiados em 30 dos 33 partidos brasileiros.

O RenovaBR vive de doações, tendo em sua lista de patrocinadores sobrenomes de famílias como Klabin, Lafer Piva, Villela, Jereissati, Moreira Salles, Horn, Setubal, Garfinkel e Botelho Bracher. O valor de cada contribuição não é público.

As questões estruturais que envolvem a política brasileira foram o tema desta entrevista. A quantidade de partidos, os modelos arcaicos de organização dos próprios, os valores abissais do fundo partidário, o sistema eleitoral.

Na outra margem, o descontentamento da população, o anseio pela renovação, as denúncias de corrupção, e o persistente cenário de polarização.

O RenovaBR tem em Luciano Huck um entusiasta e divulgador – o apresentador da Globo faz parte do conselho. Mas quem criou e toca a instituição, é o empresário Eduardo Mufarej. Eduardo foi sócio do fundo de investimento Tarpon e presidente da Abril Educação, rebatizada para Somos Educação. Foi ele quem nos recebeu, em seu escritório na Vila Olímpia, de onde coordena, além das atividades do RenovaBR, a GK Ventures (de Good Karma) – empresa com foco em transformação social na área de educação e produtividade.

Com Flavio Azm Rassekh

Para alguém que veio do mercado financeiro, como foi que caiu essa ficha de criar um movimento de renovação política?

Há muitos anos tenho a intenção, a vontade de colaborar com o Brasil. Venho de uma realidade da classe média paulistana – avô imigrante, mãe professora da rede pública -, então, sabia que pra conseguir me colocar nesse lugar da melhor forma possível, precisaria ter um mínimo de resguardo ou segurança financeira.

A partir do momento que comecei a ter um pouco mais de estabilidade isso começou a me catapultar para ter outras ideias: como podemos ajudar a transformar a educação no Brasil? Como ajudar a transformar a política no Brasil? Não há nenhuma sociedade admirável no mundo cuja classe política esteja completamente destruída. Então, muito veio daí. Se não ajudarmos a resolver o problema institucional brasileiro, com gente competente tomando decisões do que é público, nossa chance de mudar como nação é muito pequena.

Essa clareza eu tenho há muitos anos. E aí chegou um determinado momento onde pensei: agora consigo dedicar tempo e energia pra fazer isso acontecer.

Você tinha algum modelo de fora que te agradava?

Os modelos são os países onde, de uma certa forma, a população não virou as costas pra política, onde você ter uma participação cívica seja parte da cultura. Estados Unidos são um bom modelo de engajamento e participação da sociedade. Eu morei lá em duas ocasiões, e isso me ajudou a compreender essa necessidade.

Como vocês imaginam trabalhar os indivíduos? Temos um problema sério ético-moral de corrupção.

Tem pessoas que enxergam na política uma vocação. Já os herdeiros políticos estão lá por inércia, quase que pela manutenção de um legado. E tem outros que estão ali por oportunidade, porque o Estado brasileiro é grande, e a partir do momento que você tem acesso ao Estado, conceitualmente, você pode pensar que tem acesso a um quinhão do Estado. Tentamos identificar essencialmente esse primeiro grupo, que é um grupo intergeracional – não são somente jovens, são pessoas que entendem que a transformação do Brasil passa pelo engajamento da sociedade na política e pela clareza de que a solução dos nossos problemas passa por gente mais bem preparada e qualificada.

Dentro do que a gente tenta oferecer de conteúdo e repertório para essas lideranças – desde formação de equipe, liderança, autoconhecimento, resiliência -, uma outra que a gente leva em conta é que é muito difícil perseguir uma carreira política sozinho. O caminho do empreendedor cívico na política não é muito diferente do empreendedor regular. Talvez eu diria que o político tem até mais dificuldades.

O que a gente se propõe a fazer é quase um centro de apoio ao empreendedor. Como a gente faz para que tenha alguém junto a ele nessa caminhada, sem direcioná-lo para os lugares de crença ou orientações ideológicas.

Se o candidato é de extrema direita ou esquerda, o RenovaBR também forma? Se aparece um cara por exemplo, que é integralista…

Este é um bom exemplo. Claro que não. A priori pelo uso de filtros seletivos cada vez mais apurados e canais de denúncia, a gente faz a seleção. Mais  tarde, também com acompanhamento dos indivíduos eleitos.

Como lidar com o problema da corrupção? Outros cursos de formação de lideranças políticas já tentaram lidar com este problema sem muito sucesso, aparentemente.

Raiz de parte da corrupção está ligada ao financiamento das campanhas que naturalmente são muito caras. É preciso educação continuada para lidar com dilemas éticos. Trabalho em conjunto também ajuda. Os processos eleitorais precisam ser mais lícitos e transparentes, para que fique claro como funciona o fluxo do dinheiro.

A gente precisa trabalhar a dinâmica brasileira eleitoral para que seja mais justa. Cada vez mais gente com novos hábitos e comportamentos participando da política. Sem uma mudança de cultura passa a ser mais do mesmo.

O RenovaBR se propõe a trabalhar as questões éticas através de cursos e palestras.

O que é nova política?

Não sei se tem essa coisa de nova ou velha política. Não gosto disso. Acho que tem uma política que é boa.

Um político eleito custa caro, certo? Um político eleito que performa mal ou que não performa, custa mais caro ainda. E é nisso que a gente tenta atuar.

No site Poder360 saiu uma matéria dizendo que cada deputado vai gerenciar algo em torno de R$50 milhões durante seu mandato. À parte, comparado a um país europeu, o número de assessores, são 25…

É desproporcional. Mas, vocês já pararam pra compreender por que tem tanto assessor?

Sim, tem um número de assessores que é razoável. Mas o assessor é teu cabo eleitoral. Essa é a essência.

Garantir sua próxima eleição.

Isso. No nosso sistema, que é o sistema proporcional, como todos os candidatos concorrem entre si, o que monta o voto é o quociente. A soma de votos dos candidatos de uma chapa ajuda na eleição de quem entrou. Toda essa dinâmica de cargos vem muito do sistema eleitoral; parte desse volume grande de assessores é porque eles ajudaram essa pessoa a se eleger.

Uma das mudanças mais importantes seria…

A mudança para o distrital. Essencial.

Você poderia dar um exemplo de algum país de voto distrital que considera de boa prática?

Todos países que adotam o distrital ganham. Você tem redução de custo de campanha – porque você vai fazer campanha no distrito. Cada eleitor escolheria apenas um entre dez, vinte candidatos; isso forçaria para que os partidos tivessem um afinamento ideológico mais claro. Muda completamente. É o modelo inglês, americano.

Isso é uma decisão do Renova como um todo?

Isso foi uma definição de um combinado que o Renova estabeleceu com os seus. Mas, o Renova respeita todas as decisões individuais de cada liderança que fez parte do programa. Então, se ele quer sair candidato ou não, o problema é dele, assim como as pautas que ele vai defender.

O fundo eleitoral é um outro número que impressiona. São R$ 2 bilhões. E a maioria dos deputados queria aprovar R$ 3,8. Como você vê isso?

Tem uma questão importante que é a questão de financiamento de campanha. As campanhas custam dinheiro; as campanhas no voto distrital custam menos, mas ainda assim, custam. A questão é de quem financia as campanhas.

Quando o país eliminou o financiamento de pessoa jurídica, tinha que compor um contraponto a isso, que virou o financiamento público. E os critérios de alocação de recursos públicos são essencialmente derivados do número de votos. Quanto mais votos o partido tem, mais acesso a recurso ele tem no próximo ciclo.

Os partidos são entidades privadas que ocupam esse espaço que é público e deveriam ser mais transparentes.

Não acha um exagero, mais de R$ 194 milhões para o PT, e R$ 189 milhões para o PSL?

Acho um número altíssimo. Trocamos as entidades. Antes eram algumas companhias que tinham papéis não democráticos, e hoje trocamos pelo dono do partido.

E vocês conseguiram bater o martelo de como acham que deva ser o financiamento de campanha?

O Renova apoia a iniciativa do movimento de transparência partidária, que tem batido muito nessa tecla de compliance.

O que você achou dos acontecimentos no Chile, da população ter ido pra rua? Da pauta e das conquistas?

Acho que o Chile fez um trabalho incrível nos últimos vinte anos, do ponto de vista de redução de desigualdade, de acesso à saúde, redução de mortalidade infantil, aumento de expectativa de vida. É o país da América Latina que mais andou. O Chile teve transições entre centro-direita e centro-esquerda nos últimos quinze anos, é um regime democrático saudável.

Dito isso, acho que a expectativa do povo chileno é de que eles estivessem vivendo melhor. E não estão. Esse é o maior problema de todas as realidades, quando você tem expectativas que estão desalinhadas com o que o país consegue entregar.

O povo na rua acabou entrando no jogo político. O salário dos políticos foi reduzido pela metade e vai haver uma nova constituição. São mudanças de envergadura. O que você acha que aconteceria aqui se o povo fosse pra rua?

A população brasileira está nas ruas desde 2013 com pequenos hiatos. Pré-2013 isso praticamente inexistia, eram apenas grupos organizados representando alguma entidade de classe. Hoje estamos no início de um novo governo, e isso de certa forma faz com que a esperança ou expectativa de mudança ainda esteja no ar. A partir do momento que isso não se traduzir em realidade, pode ser que o sistema sinta uma fadiga muito rápida e aí seja muito difícil trazer iniciativas ou passos que dêem vazão a esse sentimento.

A realidade é que a população brasileira não está vivendo bem. Apesar de termos tido os últimos dois meses com resultado econômico um pouco melhor, a sensação é que a vida está dura, difícil, e as pessoas precisam recuperar um pouco dessa capacidade de voltar a sonhar. E o Brasil hoje, na minha opinião, está sem projeto, sem sonho. A população quer voltar a acreditar no Brasil, numa vida melhor.

E você está otimista em relação a essa melhora?

A gente vem de uma economia que está muito represada há muito tempo, e o movimento de taxas de juro está tão baixo que faz com que o capital, que historicamente estava alocado em investimentos de portfólio, de renda fixa, tenha que buscar outras fontes de rentabilização. Ou seja, acho que o fluxo de capital para investimentos mais produtivos é positivo.

Esse talvez seja o lado mais positivo dessa história. Redução de spreads bancários, redução de custos de capital, mais disponibilidade de financiamento.

E democraticamente?

O que eu vejo como maior preocupação hoje é que a gente tem grupos de radicais constituídos nos extremos e eles se auto alimentam. E, ao mesmo tempo, não temos um grupo que esteja conseguindo produzir uma visão de projeto de futuro.

Qual seria nosso potencial de transformação, em sua opinião?

Vamos pegar o exemplo do Renova. O Renova não surgiria na Dinamarca, porque as inovações precisam acontecer em lugares onde a dor é maior. E a nossa dor na política era muito grande, então surgiu essa iniciativa.

Do ponto de vista de prestação de serviços públicos, a sociedade brasileira tem várias dores. E eu imagino que a disrupção, a oferta de serviços mais digitais tende a ajudar muito a melhorar a vida das pessoas. Hoje, temos um Estado incapaz de se reorganizar para prover para a sociedade esse tipo de solução.

O problema é que o Estado brasileiro está completamente amarrado. Esse é o maior problema. A máquina tomou conta do Estado.

Vocês já pensaram em algum momento em levar as iniciativas de vocês pra dentro das escolas públicas, ou fazer algum tipo de parceria com escolas particulares?

Gostaríamos, sem dúvida. O time do Renova são quinze pessoas pra fazer muita coisa. Um programa de política cidadã está no nosso radar.

Rodrigo Maia foi ao evento do Renova, parece entusiasmado com o trabalho que vocês vên fazendo. Existe uma interface entre o espírito do Renova e essa construção de centro?

Não, nenhuma. Tem gente ligada a todos partidos do Brasil dentro do programa.

Evangélicos certamente tem bastante. Tem tudo. Preto, branco, pobre, rico, universitário, semianalfabeto. Tudo. O Renova é o espectro da sociedade brasileira.

O Luciano Huck é um entusiasta do Renova, um colaborador, inclusive. Como você enxerga toda essa movimentação em torno dele?

Sim, ele faz parte do conselho. A situação do Luciano não é diferente de qualquer pessoa que não participa da política, mas vê que o Brasil precisa de mais gente participando, e se questiona onde pode contribuir.

Esse imbroglio da Tabata Amaral com o PDT, com o Ciro. Qual a sua visão?

Eu aprendi que tem três formas de um representante votar: de acordo com sua consciência; de acordo com seu eleitorado ou de acordo com seu partido. Eu acho que a Tabata – assim como o Felipe Rigoni – tiveram o cuidado de comunicar antes que eles iam votar de acordo com sua consciência.

Só que isso não foi acatado e virou um movimento. Ficou muito em cima deles dois, mas outros vinte parlamentares também seguiram os próprios passos.

As pessoas tendem a achar que os Rigonis e as Tabatas foram ungidos por eles, os donos dos partidos. E não é verdade. Esses caras têm personalidade, têm força e relevância independente dos partidos. Essa é uma quebra de paradigma.

Vocês propõem uma formação e renovação política dos quadros. E dos partidos?

Os modelos partidários são hierárquicos e autocráticos, porque eles foram constituídos em outra realidade de mundo – tanto que o cara se diz militante partidário; militante vem de estrutura militar hierárquica.

Eu não estou dizendo que sou anti-hierarquia, só estou apontando, porque acho que os partidos precisam se atualizar, é fundamental.

Esse modelo partidário parece ser anacrônico. São 33 partidos… Um modelo antigo que não responde mais as necessidades e gera um tipo de embate. Como você, pessoalmente, imagina um modelo onde você não vira um militante que é fiel a qualquer custo ao seu grupo e tenha seu político de estimação? Como você imagina um futuro onde, não necessariamente, as pessoas se organizariam em partidos?

Em primeiro lugar, o Renova não foi criado com o objetivo de substituir qualquer partido. Os partidos fazem parte da democracia brasileira. Fomos criados com o objetivo de estimular novos quadros extraordinários a participarem da política, através dos partidos. É pra isso que a gente existe.

Mas temos o problema do partidarismo levado às últimas consequências. E o Renova está, teoricamente, espalhado por diversos partidos. Como você faz pra ter uma unidade de ação em uma situação que parece uma guerra campal?

Nossa visão não é de ter uma unidade de ação. O comportamento legislativo dos líderes Renova eleitos é completamente desequilibrado do ponto de vista de votação e apoio a pautas, e é assim que tem que ser.

E como vocês vêem a questão partidária? Eu sinto uma tendência a uma situação de polarização cada vez maior. O exemplo da Tabata é emblemático…

Quantos partidos não gostariam de ter a Tabata no seu quadro? Essa é a pergunta. Vários. Porque a Tabata representa uma identidade, um frescor. Uma coerência, uma visão construída de ponto de vista, que é o que a sociedade quer.

Mas aí você abandona o espaço do partido. O eleitor não quer saber de qual partido ela é, apenas quer votar nela, independentemente.

O partido onde a Tabata estiver, eu estarei. Esse é o processo.

Você propõe um protagonismo individual.

Nosso papel foi fazer com que a Tabata não desistisse. Fazer com o que o Rigoni voltasse da Inglaterra pra se candidatar. É pra isso que a gente existe. Todos os dias têm pessoas que ficam tentando dividir e jogar a gente para um lado ou para o outro, mas isso é não negociável, o nosso papel é esse.

(fim)

A contribuição do RenovaBR é ainda muito recente. E o próprio Mufarej parece continuamente preocupado em otimizar os processos. Só o tempo poderá responder ao título desta reportagem

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