‘Será que eu enlouqueci’? A saúde mental da mulher negra pobre periférica, segundo uma psicanalista que as atende
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‘Será que eu enlouqueci’? A saúde mental da mulher negra pobre periférica, segundo uma psicanalista que as atende

Morris Kachani

26 de fevereiro de 2021 | 10h00

“A gente vive no Brasil um projeto politicamente deliberado de adoecimento da população negra. Enquanto essa engrenagem racista, capitalista, patriarcal não parar de girar dessa maneira a gente não vai parar de produzir pessoas adoecidas mentalmente, pessoas com sofrimentos psíquicos graves”

Assista à entrevista: https://youtu.be/slHVGDsONDA

“Então a gente vai lidar com questões de autoestima, com questões de sentimento de inferioridade, de depressão, de ansiedade. Tem casos que isso vai se agravando e muitas vezes esses sofrimentos não são ouvidos até se tornarem transtornos alimentares, transtornos de sono, transtornos que vão para quadros de dissociações, de delírio, de surtos”

“Sempre me choca o sentimento de enlouquecimento. Eu não quero nunca me acostumar com o fato de alguém se sentir verdadeiramente enlouquecida por um certo sistema que faz com que ela se sinta assim. É uma pessoa que está sob tal nível de violência, de opressão, de agressão, de isolamento, de exclusão, que ela fica na fronteira do enlouquecimento, a ponto de ela se perceber enlouquecida. A pergunta “será que eu tô louca?” é muito comum na clínica. Isso é muito comum vindo de mulheres negras periféricas, esse sentimento de perseguição: ‘estavam me olhando dentro da loja, estavam me seguindo na loja’. Isso é tão perverso, tão cruel, que a mulher chega a duvidar de si mesma”

“A criança já nasce nesse lugar, por uma via muito violenta. E a violência vira o tom da vida desse bebê que vai crescer”

“A psicologia, ainda em 2021, negligencia muito as questões raciais. A gente tem uma psicologia para a burguesia, uma psicologia embranquecida, uma psicologia segregacionista, que muitas vezes opera dentro do consultório essas violências que a gente vive socialmente, que é absolutamente cruel, mas às vezes acontece”

“A maioria das faculdades de psicologia no Brasil são de curso integral. Quem pode fazer curso integral? Quem pode abdicar de trabalhar só para fazer o curso? A estrutura do curso já é um filtro”.

É muito comum a gente escutar de recém-formados que não tiverem nenhuma discussão racial ao longo da faculdade. Então o que acontece é que a pessoa pode se formar, ir para um consultório e estar habilitada para atender, mas até a página 2, por que como é ser um psicólogo habilitado no Brasil e nunca ter discutido minimamente o que é racismo e os seus impactos na nossa subjetividade?”

“O inconsciente coletivo brasileiro está muito enraizado no racismo, na nossa experiência colonial, na nossa experiência escravocrata que estabelece relações de hierarquia. É isso que se criou quando os portugueses invadiram o nosso território, é isso que se criou imediatamente, uma política do extermínio, do silenciamento, do genocídio, do aniquilamento do corpo do outro, da cultura do outro. De estabelecer o que é melhor e o que não é, o que é correto e o que não é. Estamos falando de marcas históricas que infelizmente não conseguimos superar ainda”

– Mulheres ganham em média 45% menos que os homens; E mulheres brancas recebem 70% a mais que mulheres negras.

– 23% delas, estão no emprego doméstico. Já na população branca este percentual é de 6,1%.

– As mulheres negras chefes de famílias com até um salário mínimo de rendimento são 60%.

– Embora representem quase 28% da população brasileira, o número de mulheres negras que se tornaram prefeitas ou vereadoras não chega a 5%

– Negras também são a maior parcela entre as mulheres encarceradas e lideram o ranking de violência sexual e doméstica; 75% das mulheres assassinadas no primeiro semestre do ano passado no Brasil são negras.

O tema desta entrevista é a escuta clínica. Quais são os conflitos e os sintomas que psicólogas e psicanalistas que atendem mulheres negras pobres periféricas relatam?   Quatro tipos de preconceito as rondam – de gênero, classe, raça e territorialidade.

Tema duro e necessário para tratarmos com a psicanalista Ana Carolina Barros Silva, mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo e pela Université Paris VIII-Vincennes-Saint-Denis (França). E membro-fundadora da Roda Terapêutica das Pretas e da Casa de Marias, duas interessantíssimas iniciativas que promovem atendimentos grupais e oficinas para mulheres negras nas diferentes zonas da cidade de São Paulo.

“A prática no consultório mostra o quanto que as nossas vivências e as nossas experiências territoriais produzem subjetividade, de maneira que podem produzir tanto experiências positivas quanto experiências de adoecimento, de sofrimento psíquico. Então quando estamos falando de vivências periféricas e em especial de uma mulher negra, pobre, que habita a periferia, estamos falando de uma sequência de opressões, agressões, violações e desigualdades; certamente a gente está falando de uma situação muito frágil em termos de saúde mental. Claro que a gente não vai pensar isso como uma relação determinista, de causa e consequência, de que “obrigatoriamente uma pessoa que nasceu nessas condições vai adoecer, vai ter alguma questão mental” – não é necessariamente esse o raciocínio. Ao mesmo tempo, é muito difícil que alguém submetido a constantes opressões, a constantes agressões e violências das mais variadas formas, em algum momento da vida, não tenha alguma questão de ordem subjetiva”

“Onde essa pessoa “existe”? Onde ela vive? De que maneira ela se constituiu? Isso tudo importa muito. É diferente quando a gente fala de uma pessoa que cresceu em uma classe média, média alta, em uma região central da cidade, podendo usufruir de uma série de privilégios, de quando falamos de uma pessoa que vivenciou a vida inteira a precarização material, a falta muitas vezes de moradia, de renda básica, de saúde pública de qualidade. É claro que esses cenários tão dispares produzem existências de vida muito diferentes e com isso também as possibilidades maiores ou menores do aparecimento de doenças mentais”

“Se a gente for pensar em termos históricos a gente não está falando de uma coisa que necessariamente começou aqui agora. A gente está falando de um processo histórico, de uma estrutura, um certo modo de funcionar no Brasil. A gente está falando de uma lógica que vem do nosso processo colonial, escravocrata, desde o estabelecimento de uma lógica social, econômica, política, que determina alguns lugares sociais para alguns grupos, que beneficia esses grupos em detrimento de outros. É um pouco sobre esse sistema, esse contexto, essas engrenagens produzirem esse tipo de sofrimento e adoecimento para essas pessoas [população negra]”

“Essa vida [de sofrimento] muitas vezes leva você a querer ser o oposto do que você é. Junto com tudo isso às vezes aparece um sentimento de culpa, de responsabilidade, quando, por exemplo, eu quero me embranquecer; “eu quero alisar o meu cabelo, quero afinar o meu nariz, quero parecer menos negra”. Importante a gente dizer que esses sentimentos se produzem, eles não nascem conosco”

“A gente vive em um país estruturalmente racista, isso quer dizer que o racismo é um dos pilares que sustentam as engrenagens, essa dinâmica, ao lado do nosso modelo econômico, que também tem papel fundamental nisso. São engrenagens que estão girando há séculos, produzindo pessoas negras adoecidas. Quando a gente fala da saúde mental da população negra, é muito difícil não fazer essas associações com a própria história do Brasil, com o nosso modelo econômico, com o fato de sermos um país racista. Enquanto essa engrenagem racista, capitalista, patriarcal não parar de girar dessa maneira a gente não vai parar de produzir pessoas adoecidas mentalmente, pessoas com sofrimentos psíquicos graves”

“Se a gente for pensar, por exemplo, na oportunidade de ingresso em uma universidade, é um percurso muito cheio de espinhos. A gente ainda vivencia essa realidade de maneira muito desigual, em termos de ensino superior, carreira acadêmica. Se a gente for pegar um corpo docente universitário sabemos que tem uma “certa cara” para esse corpo docente – geralmente são homens, brancos, privilegiados, que são pessoas que tiveram mais oportunidades. E o que essa diferença produz? É uma diferença que vai reiterar o nosso quadro mais desigual, reproduzir a pobreza, então os pobres continuam pobres. Quando pessoas negras começam a ocupar lugares dentro de universidades, seja pelas políticas afirmativas ou cotas, a gente tem um verdadeiro “destroçamento”. Não é porque entrou na universidade, que a questão está resolvida. A gente vai ver dentro das universidades muitas vezes uma estrutura racista, de segregação”

“Existem grupos mais vulneráveis a esse tipo de violação [a sexual]. Se eu sou uma mulher que mora na região central da cidade, bem iluminada, com policiamento, segura e que eu posso voltar a pé de noite ou se a minha realidade é de completa ausência do Estado, da falta de segurança pública, isso me deixa muito mais vulnerável a qualquer violência, inclusive a sexual. Para além disso, quando a gente fala das mulheres negras, precisamos também falar desse corpo que é muitas vezes visto como território público. Esse corpo que é objetificado, colocado em um lugar de hipersexualização, como se fosse de uso do outro. A gente tem uma cultura que vai se produzindo em torno disso. Quando falamos dos efeitos, das consequências disso [da violência sexual] em ordem subjetiva, eles são os mais devastadores. Porque você perde a autoridade sobre seu próprio corpo. Você vê seu corpo sendo tomado por outra pessoa sem que você autorize isso”

“O que é a maternidade de uma mulher branca de classe média? E o que a maternidade de uma mulher negra, pobre, periférica? O quanto que a gente está falando dessa mulher negra enquanto possibilidade e perspectiva em relação a essa maternidade? A mulher negra pobre vai contar com o sistema único de saúde que oferece essas possibilidades. Quando não oferece, a gente tem desassistência porque é uma pessoa que não vai conseguir pagar um atendimento particular.

Vivemos em um país em que o índice de cesárea é muito alto. A cesárea era para ser uma cirurgia escolhida pelo profissional responsável quando fosse o caso. No Brasil não é assim, a gente tem quase uma fábrica de partos via cirurgia cesariana. Mulheres que frequentemente vão se submeter a isso, a essa fábrica de cirurgias – não raro também – muito violentas. Mas quando falamos de mulheres negras em especial a gente está lidando com um imaginário de que essa mulher é muito forte, que dá conta de tudo, uma mulher que tem corpo robusto e suporta melhor as dores… então a gente vai ter em grupo de mulheres negras gestantes um índice altíssimo de violência obstétrica.

Por exemplo, em uma situação de parto, um momento em que a mulher está fragilizada e mais sensibilizada, precisando de acolhimento, acontecem as mais diversas violências com essas mulheres no sentido até de negligência de anestésico, “porque elas aguentam dor”. Já existe esse imaginário de que a mulher preta não sente dor, ela já está acostumada a coisas muito difíceis. Então a criança já nasce nesse lugar, por uma via muito violenta. E a violência vira o tom da vida desse bebê que vai crescer”

“Hoje a gente está em um lugar muito difícil em termos de saúde mental. A pandemia agravou essas questões estruturais – estamos falando de pessoas que foram renegadas a um lugar completamente desassistido pelo Estado. Sabemos das poucas ferramentas que o Estado vem nos dando, como por exemplo, essa discussão recente sobre o auxílio emergencial; chega a ser desumano pensar em um auxílio de 200 reais para uma pessoa, mas é nesse nível de desestruturação que a gente está falando. São pessoas que lá no começo estavam tentando sobreviver e agora nem o mínimo podem contar. O agravamento da saúde mental foi tão grande quanto a desigualdade social, da precarização da vida dessas pessoas”

“A gente, profissional de saúde mental, quase se vê em uma situação de “enxugar gelo”. A gente tenta escutar, acolher, acompanhar. É a minha profissão e é isso que eu faço, mas as coisas estão em um nível tão difícil, tão complicado, que a gente se sente “enxugando gelo”, principalmente porque o que é muito nítido e está causando esses agravamentos e todos esses desdobramentos são pontos estruturais que não estão sendo mexidos. Essa dinâmica social que produz esses adoecimentos está intacta. Estamos aqui só lidando com a ponto do Iceberg, nesse “enxugar gelo infinito” e é muito desesperador para as pessoas e para nós, profissionais de saúde, que estamos lidando com isso no dia a dia”

“A gente ainda tem uma lei áurea falsamente assinada. Os trâmites passaram, o tempo se passou e a gente teve uma abolição de fachada porque a gente não pode dizer que temos oportunidades iguais. Então quando que a gente vai poder falar que o processo de escravizar pessoas chegou ao fim? Quando que a gente vai poder dizer que não existe racismo no Brasil? Quando que a gente vai poder dizer que independente da nossa cor de pele a gente parte do mesmo lugar? Hoje em dia no Brasil a gente não parte do mesmo lugar, partimos de lugares absurdamente diferentes”

“Não dá para dizer que acabou o racismo quando a gente tem posições quase que “pré-estabelecidas” para pessoas brancas, de maneira que quando a gente vê trocado/inverso, a gente se assusta, fica surpresa ou acha bonito; quando você vê uma mulher negra presidente de uma empresa importante, “nossa!”. Quando a gente vai parar de dizer esse “nossa”?”

“Eu penso que o “lugar de fala” é importante desde o lugar de quem escuta, enquanto psicanalista. Eu acho que todo mundo vai falar de algum lugar, acho importante a gente pensar isso. É importante a cada vez que alguém fale você considerar que isso vem de um determinado lugar. Porque todos nós temos um certo lugar discursivo, narrativo, de existência e que é diferente”

“Então quer dizer que só quem é negro pode falar sobre o racismo?” Primeiro, isso é uma leitura bastante rasa e superficial do que significa lugar de fala, mas é a leitura mais feita. O importante é a gente frisar o perigo que acontece aí, nesse território, para justificar omissões, de ausência de responsabilização de alguma coisa; do tipo “não tenho nada a ver com isso porque não é o meu lugar de fala/não preciso me posicionar”. Além disso ser uma leitura de “lugar de fala” rasa, é um desserviço. Aliás o que precisa acontecer é que as pessoas brancas se responsabilizem um pouco mais sobre isso”.

“Afirmar que vivemos em um país que há democracia racial onde somos todos iguais, não temos racismo, é uma estratégia política que pode surtir efeitos muito positivos para o que um grupo de pessoas se propõe enquanto sociedade, enquanto dinâmica social, política, econômica. Então quando partimos do pressuposto que somos todos iguais e que, portanto, não precisamos lutar por direitos iguais, porque já somos iguais, então a gente falseia o nosso ponto de partida. Fica parecendo que está tudo certinho para que todos fiquem quietinhos no seu lugar”

“Historicamente raça e classe estão ali irmanadas no Brasil”

“Tenho uma esperança militante. Sonhar é uma tarefa quase que revolucionária nesse momento. A gente não pode abdicar das nossas utopias, sonhos, das nossas possibilidades imaginativas de horizonte. A gente não pode perder mais isso”

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