Sexo saiu de moda
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Sexo saiu de moda

Morris Kachani

14 de junho de 2021 | 09h57

Entre os jovens da geração Z, não estar bem é o “novo normal”

O retrato que o antropólogo e cientista social Michel Alcoforado desenha sobre os jovens da geração z, nascidos entre 1995 e 2010, não é nada alvissareiro:

“Esse é um público que cresce em um mundo onde a digitalização é uma verdade, um mundo onde as benesses econômicas brasileiras já não são mais uma realidade. É um público que cresce em um mundo que todo dia é novo, que todo dia muda, que todo dia vira uma nova coisa e fica difícil ter saúde mental”

“No mundo todo sexo saiu de moda. No Brasil, uma pesquisa do Datafolha de 2019 mostrou que 24% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos não tem uma relação sexual a mais de 12 meses. Os hormônios estão sendo controlados pela cultura e esse cenário se reflete no mundo. Na Austrália, 40% dos jovens entre 18 e 24 anos nunca tiveram uma relação sexual na vida e nos EUA o cenário é parecido. Há uma queda na atividade sexual desses jovens porque o sexo mudou de tom. Eu brinco que para os baby boomers era autonomia, liberdade e a possibilidade de marcar sua individualidade, para os Millennials era a chance de encontrar bem-estar, era vida, e os Zs estão construindo uma vida sem sexo. Mas por quê?

Assista à entrevista: https://youtu.be/5_Cg1XuFKIc

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Colunista da CBN, Alcoforado é especializado em antropologia do consumo, criou uma empresa própria de pesquisas, o Grupo Consumoteca, e visualiza o impacto da pandemia no mercado e nas nossas vidas da seguinte forma:

“Como antropólogo eu olho para o corona não como agente biológico só, mas como agente social e quase “como se fosse uma pessoa”. Essa intenção é a mensagem que está no código do RNA dele, que impõe um novo modo de viver baseado na sua intenção.

E essa intenção é o que eu chamo de efeito DAD [Desmaterializado, Asséptico, Descontextualizado], que é o que o vírus cobra desde que ele chegou aqui. Primeiro é um mundo mais desmaterializado, tudo aquilo que puder ser transformado em bit, melhor. Eu brinco que a gente saiu da coisa do “it” para o bit, para a desmaterialização completa; então o seu negócio precisa ser desmaterializado, a sua noção de futuro precisa ser desmaterializada e a gente precisa, inclusive, desmaterializar o nosso próprio corpo.

Segundo, nos países por onde o corona passou, em geral, na hora que ele chegava no país, aumentava em torno de 70% o consumo de dados. Setores que a gente jamais pensou que passariam pela digitalização foram digitalizados, sobretudo de comida. O marketing nas compras digitais de supermercados sai de 1% e vai para 8%.

O “A” [na sigla DAD] é de assepsia. Na pandemia da SARS de 2002 na China, a venda de sabonete e a venda de perfume aumentou em torno de 42% e nunca mais baixou. Depois de uma pandemia a gente sai preocupado com limpeza sempre. Mas quando eu falo desse “A” de assepsia eu também estou falando de medidores de segurança que vão ser fundamentais nas nossas vidas; as telas ganham uma preponderância muito grande nos encontros, os algoritmos ganham uma preponderância muito grande nos encontros, os “coaches” ganham uma preponderância muito grande nos encontros para permitir que a gente encontre com o outro através de uma forma segura.

Mas para mim a grande mudança está no “D” de descontextualização. De uma vez por toda a gente separou espaço e tempo e isso gerou uma descompensação do principal pilar da vida contemporânea, que era o calendário. (…) Desde a pandemia todos os dias são iguais, e no digital todos os dias são iguais e o vírus ensina a gente que todos os dias precisam ser iguais”.

Primeiro motivo é a entrada do discurso da produtividade na vida deles, invadindo e colonizando a sexualidade. Nos EUA e no Brasil vem crescendo o movimento do “Nofapseptember”, que é gente que abre mão da relação sexual e da masturbação, como forma de aumentar a testosterona no sangue e aumentar a absorção de dopamina para trabalhar mais, produzir mais. Um outro movimento importante é que os homens estão transando menos com as mulheres porque o crescimento dos movimentos feministas, sobretudo entre os mais jovens, e os movimentos dessas pautas minoritárias dão uma dimensão de que o outro não é só ponte para a obtenção do seu prazer, ele também tem “um pedágio”, ele também precisa melhorar a parte dele. Esse é um reflexo de uma juventude marcada por um individualismo. As pessoas acabam optando por gozar sozinhas. Então o número de sex toys aumenta a venda”

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) já aponta que o Brasil é o país que mais tem casos de ansiedade e depressão. O que chama a atenção também é que há um crescimento muito grande do número de suicídios dessa geração em contraposição aos outros grupos, o que é uma novidade para o cenário brasileiro; nós não tínhamos tradição nesse tipo de evento dentro da nossa história, mas agora vem crescendo com muita força e isso está relacionado diretamente com a maneira que esses jovens se relacionam com o mundo”

“O niilismo é a regra, porque para você construir uma ideia de sentido para a vida você tem que ter uma perspectiva de projeto futuro, você tem que ter uma perspectiva de longa duração. Demora tempo para a gente assentar os significados da vida, e esses jovens, como nascem em um mundo onde tudo que “presta hoje amanhã já não presta mais” – você entra na faculdade e depois de quatro anos o mundo mudou tanto que aquilo que você aprendeu não vai ser mais aplicado, você entra no mercado de trabalho sem saber se a sua profissão vai existir e qual a nova que você vai ter -, eles acabam desenvolvendo uma relação com a vida que é de total perda de sentido. Fica difícil se relacionar com o presente. As sociedades humanas de certa forma construíram o significado do “hoje” apoiado em uma lógica futura”

“A economia digital ou esse capitalismo tecnológico que surge e a partir dos anos 80, se consolida nos anos 90 e nos anos 2000, é o berço dessa geração. Ele se apropria de dois afetos fundamentais que marcam essa geração: a ansiedade de uma lógica de vida onde quem se antecipa à invenção, quem se antecipa a uma novidade, quem propõe a novidade, assume o lugar de destaque. Então são jovens sempre querendo estar à “frente do tempo”, uma ansiedade que surge a partir da própria lógica do digital, na qual eu compro um celular hoje mas eu sei que o de amanhã é melhor, eu compro um computador mas sei que o próximo vai ser melhor, eu baixo um aplicativo mas sei que o próximo é que é bom”

A pessoa entra em relação com os outros onde o principal medo é a “bolinha do loading“, que é o grande desespero. Então, é um modelo de vida que se pauta na produção de ansiosos e os ansiosos interessam ao sistema. Quanto mais gente preocupada em antecipar o futuro, melhor”

“O outro aspecto é como essa geração ansiosa foi criada em um mundo onde tem o jogo e tem o youtuber falando do jogo, e o youtuber não ensina a jogar, ele ensina a pular fases. Esses jovens [da geração Z] entram no jogo sempre buscando um atalho e é com esse vocabulário que eles entram na vida. Que atalho a Anitta se valeu para poder deixar de ser uma jovem pobre da periferia e se transformar em uma das mulheres mais ricas do showbusiness brasileiro com 26 anos? Que atalho o Neymar se valeu para poder deixar de ser um jovem pobre da periferia e se transformar no jogador mais bem pago do mundo?”

“É também uma geração marcada pela depressão porque quando você não está se antecipando ao futuro e está ansioso, você pode se agarrar ao passado porque é a possibilidade que você tem para poder dar sentido ao que tem hoje. E as pessoas que estão cansados da mudança, desse jogo de toda hora uma coisa nova, se apegam ao passado. São nostálgicos no ponto fundamental da construção da própria subjetividade, é gente que quando acorda de manhã tem saudades de quando a grande preocupação era ir para a escola”

“Essas pessoas que estão com muitas saudades de voltar à vida normal de antes da pandemia, elas não estão com saudades da vida, elas estão com saudades dos contextos. Em uma pesquisa que fizemos, os Zs são a geração que mais sente saudades de roupa de trabalho. Porque no ambiente profissional, longe de casa e dos pais, é onde conseguem projetar sua individualidade”

“Os Millennials, aqueles de 80 a 95, cresceram em um Brasil onde as benesses econômicas estavam postas, havia pujança, o pessoal podia decidir ser feliz, decidir prezar pelo bem-estar, pelo propósito. E o que aconteceu? Envelheceram, não têm carreira, não quiseram comprar apartamento, estão na casa do pai e estão vivendo dilemas profissionais muito grandes. Essa juventude [geração Z] não, ela olha para o pai, para o irmão e fala, “vocês deram errado, a gente que vai dar certo. É uma juventude que não perde tempo com “mimimi”, é pragmática, direta. São pequenos CEOs”

“Há uma invasão pesada desses gurus astrológicos nas redes sociais e há uma junção desses gurus com qualquer tipo de campo da sua vida; ou você segue os astros ou segue o bolsonarismo”

“Todo mundo antes era simpático a uma causa, e automaticamente isso fazia de você um ser engajado. Agora não mais. Eles [geração Z] são simpáticos a uma série de causas, mas isso não quer dizer que eles são engajados com essas causas. Que causas mais dominam eles? Feminismo, racismo e a diversidade”

“O que a gente observa é que um aspecto importante nas construções das marcas na lógica do passado, era a lógica do propósito, que não tem mais apelo para essa geração, porque eles são muito pragmáticos. Eles usam as marcas como uma forma de ostentação dos seus símbolos de sucesso e de que chegaram lá. O fato do Gil do Vigor virar esse sucesso com o slogan “vigorei, tem que vigorar” não é à toa, porque vivemos em uma sociedade onde todo mundo quer vigorar. Marcas que conseguem fazer esses jovens vigorarem têm um aspecto importantíssimo na vida deles”.

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