“Sionismo foi tomado de assalto pela extrema-direita”
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“Sionismo foi tomado de assalto pela extrema-direita”

Morris Kachani

20 de maio de 2021 | 11h56

Afinal, Israel pratica o apartheid? É uma democracia plena?

Perguntas complexas que não abarcam respostas simplórias.

Desta conversa com o historiador Michel Gherman, professor da UFRJ, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da universidade e pesquisador do Centro de Estudos de Israel e Sionismo da Universidade Ben Gurion, e diretor acadêmico do Instituto Brasil Israel, emergem algumas convicções.

Assista à entrevista: https://youtu.be/_w8hHHBNVL8

– Reconhecimento, reconciliação, reparação. Estas são as palavras-chave. O resgate da memória é necessário; é preciso reconhecer que 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas, com a independência de Israel em 48. Portanto é preciso falar em ressarcimento.

– Os judeus orientais seriam os interlocutores certos para este diálogo, pois a ideia de que o árabe é um inimigo mortal, é uma ideia estrangeira para eles”

– O sionismo, tão legítimo na raiz, foi tomado de assalto pela extrema-direita. Neste sentido, Brasil e Israel ocupam lugares eventualmente parecidos. Mas as semelhanças param por aí. Bibi Netanyahu é perigosamente preparado e astuto; o mesmo não se pode dizer sobre o mandatário brasileiro.

– Netanyahu e Hamas são aliados, sempre foram.

*

“É claro que o [Benjamin] “Bibi” Netanyahu sabia que ia dar problema. É claro que isso foi produzido na melhor das ideias criando condições para que ele pudesse se manter no governo, mas acabou mexendo com coisas muito profundas.

Tem uma valsa da morte sendo dançada entre os dois há muito tempo, entre Netanyahu e Hamas, e os dois se fortalecem quando é necessário e se atacam quando é importante para cada um deles”

“O Hamas é um grupo que estava no meio de uma crise econômica e política sem precedentes.

O compromisso do Hamas com vidas humanas é zero, tanto com a vida de árabes palestinos quanto com a vida de judeus. O jogo é acumular cadáveres, do lado de lá e do lado de cá. Isso fortalece o Hamas. Mas a pergunta é, como chegamos até aqui? Como é que [Benjamin] “Bibi” Netanyahu está há 12 anos no governo? Não criou alternativas ao Hamas? Entre os grupos pragmáticos e os lunáticos ele ficou com os lunáticos, ele estava dando dinheiro para o Hamas se manter, não tentou nenhum acordo de paz com outros grupos. Por que [Benjamin] “Bibi” Netanyahu resolveu congelar a ideia de administrar o conflito?”

“Eu não gosto do uso político da palavra “apartheid” para descrever ocupação. Porque ela produz uma reação politicamente construída com a África do Sul dos anos 1980. E eu acho que tem uma intenção política que é vincular o apartheid da África do Sul ao apartheid de Israel, o que produz em última instância uma política de combate dos dois apartheids com boicote econômico, social e acadêmico”

“Eu acho que a ideia de que sionismo é uma política de apartheid desconhece as práticas e as perspectivas do sionismo, empobrece a luta do sionismo. Dito isso, eu acho que o que acontece nos territórios ocupados com as populações palestinas é terrível e pode ser a motivação do enfraquecimento moral e ético de Israel perante o mundo”

“A minha humanidade está com os civis palestinos, e eu sou judeu sionista”

“As manifestações dos árabes por igualdade é a vitória do sionismo, porque eles querem ter igualdade em Israel. (…) O sionismo foi sequestrado pela extrema direita e essa perspectiva é fortalecida pelos antissionistas não judeus e pelos antissionistas de extrema direita. Sionistas somos nós que queremos a normalização do Estado, que queremos dar cidadania plena para os palestinos que vivem dentro de Israel, que acreditamos que eles têm direito nacional e cultural; isso é sionismo”

“Acho que o momento agora é de resgatar o humanismo dentro do sionismo e dizer, “sionistas somos nós, vocês são outras coisas [extrema direita]”. Essa é a gramática que pode tirar a gente dessa lama”

“56% da população de Israel, de crianças até adultos, já foi vacinada. É a segunda maior operação do mundo contra o Covid-19. Mas essa vacinação não ocorreu na Cisjordânia nem na Faixa de Gaza em um discurso por parte de Israel que é ‘essa terra é minha, mas esse povo não é’”

“Eu não sei se eu já posso dizer que estamos em guerra civil em Israel, mas há condições concretas para isso.

O que está acontecendo agora, pela primeira vez, são manifestações contra a população judia. Você tem meninos árabes espancando judeus religiosos, e vice-versa”

“Os últimos dois reinos de Israel não viveram mais do que 73 anos e estamos chegando agora ao 73 anos; é muito simbólico. Quem produziu a derrota dos reinos anteriores em Israel não foram os grupos externos, foram a corrupção e o ódio gratuito”.

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