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Somos todos Neymar

Morris Kachani

08 de maio de 2019 | 12h22

Ele é nosso embaixador, exportando nosso modo de ser e de agir

Assistindo os dois jogos entre Liverpool X Barcelona, fiquei pensando no que foram as finais dos estaduais brasileiros, como Corinthians X São Paulo. Ou tipo, para ficarmos em um exemplo mais recente, CSA X Palmeiras, aquele jogo realizado na semana passada, que valia R$ 2 milhões e não foi televisionado… Sério que valia R$ 2 milhões?! Pelo nível técnico apresentado, melhor que não tivesse sido televisionado, mesmo…

Quem é da velha guarda lembra, do então célebre Desafio ao Galo que a Record transmitia, em um tempo em que a rede ainda não pertencia ao bispo. O Desafio ao Galo nada mais era do que o clássico campeonato de várzea. Divertido, pelo menos. Ali conhecíamos os escretes da periferia, jogadores que foram lendas locais e esquecidas, técnicos exóticos, uniformes exuberantes, gramados carecas em que o quique da bola decidia as jogadas.

Pois bem, o campeonato brasileiro atual está muito mais para um Desafio ao Galo profissionalizado e sem graça, do que para Uefa. Se o Brasil tivesse prosperado, a NBA do futebol seria aqui, e europeus e o mundo assistiriam embasbacados a nossos jogos, como nos tempos do Santos de Pelé ou um pouco mais para frente, com Falcão, Sócrates, Zico, Junior e cia…

Até aí, nenhuma novidade. Todo mundo sabe disso. O Brasil nunca mais será a potência que foi, no futebol.

O que espanta é ver esse monte de mesas redondas e programas esportivos discutindo nossos jogos medíocres pela semana inteira, homens vestindo sapatênis, esporte fino como se diria antigamente, em um meio super machista em que pouquíssimas mulheres (talvez nenhuma?) têm protagonismo.

Se for para falar sobre representação feminina na mídia esportiva televisiva, o máximo que dá para se admitir é uma voz solitária e quase estranha, tão exótica quanto uma bandeirinha, em um meio em que prevalecem homens barbudos ou de barba feita, dependendo do canal, e alguns vociferando como se fossem talebans – o Neto, no caso. Ou se você preferir tem o programa do Milton Neves, em que a representante feminina aparece para dividir a apresentação com ele, mas não opina, suas intervenções são tímidas, alguém falaria nesse caso sobre a objetificação da mulher, bonita para os padrões da arquibancada e toda decotada e de salto alto.

Você já assistiu a um jogo narrado por mulher? Que eu me lembre, apenas a Fox fez esse experimento na última Copa, em alguma tentativa de chamar a atenção.

É estranho como a “guerra cultural” do feminismo não tenha se batido sobre nosso pobre futebol.

Mas voltando ao ponto, pra que tanto tempo precioso de televisão ou rádio, quando o futebol apresentado nos nossos gramados está cada vez pior e sem graça?

Um amigo meu, que hoje mora no exterior, me comenta inclusive que as análises feitas por especialistas do futebol na Argentina ou na Espanha são muito mais técnicas e fundamentadas do que as brasileiras, de um modo geral. Então talvez, além de mostrar Liverpool X Barcelona, fosse o caso de importarmos as mesas redondas de lá.

O país pode estar caindo aos pedaços, os jogos podem ser os piores possíveis, mas dá para entender porque o futebol ainda nos cativa. É que, apesar do VAR, sobrou o imponderável. São pouquíssimos os esportes em que mesmo quem é pior, pode sair vitorioso, em um golpe de sorte ou talento isolado. O futebol é assim.

Também é democrático. Ainda é uma ótima forma de se puxar conversa – entre homens, claro, muito mais do que entre mulheres.

E o Neymar? Cada país tem o ídolo que merece. Neymar é o nosso. A esta altura, já está mais do que comprovado que nosso artista carece de ética e fair play. O soco no torcedor, há duas semanas, foi apenas o último lance.

Neymar é o jogador mais caro da história, e poderia, mas nunca ganhou o título de melhor do mundo. Mais que isso, para um craque de sua magnitude, foi poucas vezes efetivo nos jogos decisivos que disputou, ou na seleção brasileira – no 7 X 1 esteve machucado, e em 2018, bem, consta que levou dois cabelereiros.

Nada contra seus cortes ou visual de gosto duvidoso, cada um que apareça como achar melhor. Mais constrangedor é o Tite, que perdeu voz de comando mas continua ganhando os tubos. E mais constrangedor ainda é o Neymar postando no insta declarações de amor a Bolsonaro, alguns dias antes de seu pai ter se reunido com Paulo Guedes e equipe, para discutir o que exatamente? Impostos devidos.

Neymar é um ótimo retrato do Brasil de hoje e é sim, nosso embaixador, exportando nosso modo de ser e de agir.

 

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