Somos um país conservador, mas não de extrema-direita
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Somos um país conservador, mas não de extrema-direita

Morris Kachani

14 de setembro de 2020 | 14h41

Quem entender o bolsonarismo moderado das classes C e D, que já foi lulista, menospreza João Doria e louva Luciano Huck, leva em 2022

Assista à entrevista: https://youtu.be/xpv1BEqj8Nw

“Bolsonaro está nadando muito mais de braçada do que deveria. Há uma porta de entrada grande para um candidato da direita que souber dialogar com valores conservadores – família, nação, ordem, religião – mas com um estilo mais polido, educado e muito menos agressivo”

Em primeiro lugar, uma constatação, óbvia para alguns, mas que não o era para o autor deste blog. A de que somos, feliz ou infelizmente, uma nação conservadora. Os por quês, e como nem o Carnaval escapa a esse viés, aparecem nesta entrevista com Esther Solano, cientista social e professora de relações internacionais da Unifesp.

Ela vem estudando e pesquisando o bolsonarismo moderado e popular, que compõe a base conservadora majoritária, capaz de definir qualquer pleito.

Dividida entre os fiéis, os críticos e os arrependidos pelo voto, esta base sofre com muito mais intensidade a crise sanitária e seu impacto econômico.

Entender seus anseios e suas narrativas, foi o objeto desta entrevista.

“Quando perguntávamos se as pessoas estavam frustradas e em quem elas votariam em 2022, muitas respondiam que estavam frustradas mas que não viam outra alternativa política, então voltariam provavelmente a votar no Bolsonaro em 2022”

“Família, moral, segurança pública, militarização da vida; a esquerda muitas vezes no campo democrático se furta de fazer debates sobre valores conservadores, e esse é o problema, porque às vezes tem essa comunicação entre o campo conservador – que não é disputado – com a extrema
direita, e isso acaba caindo no colo da extrema direita. Existe uma criminalização da esquerda, como se ela fosse contra a família. É preciso restabelecer um diálogo com a base popular evangélica, porque são pessoas do povo.

Entrevistamos pessoas que tinham muito medo de que se o PT ganhasse as eleições, ele ia ser contra a “família”, contra a religião, essa coisa de “mamadeira de piroca”, “kitgay”, acreditavam nessas coisas”

“Luciano Huck é bem visto por vários motivos. Primeiro porque ele é bonitinho, pai de família, o “protótipo legalzinho”, segundo porque ele dialoga muito bem com os pobres, com a religião e depois porque tem uma plataforma audiovisual comunicativa invejável, que é o programa dele na Globo. A única coisa que as pessoas falaram como negativo é que ele não tem nenhuma trajetória política, por
isso gera uma certa desconfiança”

“Eu aposto, não é questão científica, que se a candidatura dele fosse fortemente construída, seria muito potente, sobretudo porque ele tem essa penetração nos mais pobres. Ele poderia, inclusive, arranhar votos do PT nas camadas mais populares”

“O grande perdedor em 2018 não foi o PT, que continua com a maior bancada, mas o PSDB, que representa essa direita moderada”

“Fizemos uma pesquisa em São Paulo perguntando sobre o Doria. Ele foi totalmente esculachado, todo mundo odiava o João Doria, eu me surpreendi com a visão negativa sobre o Doria, por duas questões, falavam que o Bolsonaro é muito agressivo, mas é autêntico e não se deixa levar pelo marketing. O Doria é o contrário, ele fala bonitinho e muito bem, mas é o típico produto de marketing político”

“O João Doria com esse fechamento “meia boca” de São Paulo não conseguiu poupar a cidade de contágios e de mortos, mas conseguiu levar a cidade para um caos econômico, então está sendo muito culpabilizado”

“O impacto psicológico da pandemia foi muito forte. Para a população, com o trabalho precarizado, não dá pra não sair. É forte isso, a gente pensar que no Brasil, ficar em casa é um privilégio, não um direito. O conceito de irresponsabilidade do governo federal na condução da pandemia apareceu, mas o fato de Bolsonaro defender que as pessoas saíssem para trabalhar jogou a favor. E aí veio o auxílio, um reconhecimento grande, é inegável que foi e é absolutamente imprescindível”

“O que me parece é que a estrutura social brasileira foi construída sobre alguns protótipos que propiciam uma sociedade conservadora. Por exemplo, é uma estrutura social extremamente desigual e racista. Um país que historicamente ainda carrega esses fardos e tem uma preferência de base conservadora majoritária”

“Eu sempre digo que essa herança brasileira, esse racismo estrutural e essa violência cotidiana, propicia muito alguns comportamentos mais extremos que já não podemos mais qualificar como conservadorismo; a gente categoriza de uma maneira muito mais violenta, chamando de microfascismos. Por exemplo, muitas mulheres que eu entrevistei nessa pesquisa que fizemos sobre
conservadorismo popular, da classe C e D, me confessaram que tinham muito medo de que os maridos se transformariam em pessoas muito violentas com a eleição do Bolsonaro, elas tinham medo de apanhar dentro de casa justamente por essa transfiguração dos maridos, de como microfascismos se alinham com macrofascismos, de como a hipermasculinidade representada por figuras como Trump
e Bolsonaro poderia se projetar dentro das quatro paredes de casa”

“(…) O carnaval tem essa coisa de subversão do cotidiano, do dia a dia, um momento de catarse onde as hierarquias sociais, as relações se subvertem. Você segue essa subversão, digamos permitida e legitimada, e ainda mais hoje em dia “gourmetizada”- porque o carnaval também é um produto mercadológico muito lucrativo – e depois dessa temporalidade curta onde tudo é permitido você volta de novo para as estruturas brutais, heranças malditas em que a transgressão não é permitida”

“Até o carnaval não acaba nunca de subverter as velhas estruturas. Você tem a ideia da “camarotização” dos brancos, olhando de dentro do camarote de uma forma muito elitizada para os blocos. Essa ideia dos grandes blocos, com as cordas, quem está dentro da corda, quem está fora. Ou seja, até no momento da subversão, digamos do “folclore máximo”, você acaba tendo que se ajoelhar
diante das velhas estruturas”

“Eu utilizo o termo fascismo na sua definição psicopolítica, que seria aquela mobilização do ódio com o fazer político. Então seria aquela pessoa para a qual a existência do outro e diferente é insuportável. Ela precisa do aniquilamento do outro. O aniquilamento que pode ser simbólico, silenciado, ou físico, literalmente. No final é um sujeito que pensa que o mundo não tem espaço para ele e para o outro.

Eu acho que esses, definitivamente são uma parcela minoritária socialmente. A maioria do povo brasileiro não responde a esse perfil psicológico do fascista, responde ao perfil conservador”

“Eu sou completamente contra a gente estabelecer uma simetria, uma equalização entre o Lula e o Bolsonaro. Mas o que eu vejo muito na pesquisa é que há uma questão que passa muito pela figura do “líder”, uma coisa muito psicanalítica, que passa muito pela figura do “grande pai” e autoridade. Nas entrevistas as pessoas falavam muito assim: “Professora, eu já votei no Lula porque ele era um cara muito carismático, falava a “língua do povo”, um cara muito próximo e compreensível, que parecia “gente como a gente”. E quando eles falavam de Bolsonaro havia também essa ideia da proximidade, o “mito” do homem ordinário, um cara “como a gente” mas que chegou lá no topo. Agora é verdade que quando falavam dos projetos havia uma diferenciação muito grande”

“Todos os entrevistados reconhecem que o período do governo do Lula foi o melhor momento do Brasil, tanto em termos nacionais como em termos biográficos. Aí aparece um pouco da desconfiança do que aconteceu depois, com o governo da Dilma, com a crise econômica e a corrupção.
Mas tem um reconhecimento grande do Lula como estadista e governante”

“Quando falamos com esse público conservador, entre as mulheres e os jovens, há sempre uma possibilidade maior de penetração de ideais mais progressistas. O público feminino é um pouco mais simpático, mais aberto”

“Quando você vai a fundo nesses grupos, do que eles querem falar realmente é da importância da educação em valores, educação familiar, religiosa e etc. A narrativa é: “a democracia tem seus limites e com tantos anos de governo de esquerda nos levou a uma crise, que não é só uma crise econômica/política, é uma crise de valores”. Então você reinterpreta a crise em termos de valores
morais e éticos e para sair dessa crise você apela para a retomada dos valores militares – hierarquia, disciplina, ordem, autoridade – e aos valores morais religiosos cristãos, a família tradicional com o papel da mulher, dos filhos e etc.”

“As pessoas estão cansadas dos filhos de Bolsonaro. Há uma avaliação muito negativa, de que são moleques irresponsáveis, violentos e corruptos. Eles, não o pai. Os filhos não são o pai. O que o contamina é protegê-los. E daí surge o lado b, as pessoas dizem, ‘mas a gente também é pai, pelos filhos se fazem muitas coisas’”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: