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“Sou um cara pilhado, agitado. Esperançoso, mas não otimista”

Morris Kachani

11 de fevereiro de 2019 | 16h29

Ricardo Boechat sempre encantou pela clareza de raciocínio, pelo bom senso jornalístico e pelo despudor nas opiniões. Em junho do ano passado, recebeu o blog na redação da Band, para esta inspirada conversa.

Você curte mais fazer televisão ou rádio?

Muitas vezes eu já me vi pensando sobre essa história de “amar o que se faz”. Do ponto de vista da afetividade, o rádio é o que me capturou e o que me captura até hoje. Ali eu me solto, falo mais, improviso, brinco, faço a própria dinâmica do meu tempo.

Agora, o que há para se amar na apresentação de um telejornal? É um trabalho mais mecânico, ainda que a tradição da Bandeirantes de não interferir na opinião de seus âncoras me permita a liberdade.

Essa liberdade existe, de fato?

Na Band, sim, porque o ambiente interno tolera. Aqui não tem coro gregoriano, em que todo mundo canta no mesmo tom. O Reinaldo Azevedo fala de um jeito, o Luiz Megale fala de outro, o Fábio Pannunzio fala de outro e eu falo de outro. É publicamente notório que em algumas ocasiões eu expresso opiniões divergentes das do editorial da casa. Não é sempre que as ideias são conflitantes, há os momentos em que as opiniões convergem, é claro. Mas essa é uma margem que não existe fora daqui.

Na Globo, por exemplo, não existe?

Me mostre vozes dissonantes lá dentro. Talvez eles tenham o dom de concordar entre si com muito mais facilidade do que os outros seres humanos. A partir do momento em que a Globo sinaliza editorialmente que o mundo é quadrado, todos concordam que o mundo é quadrado. Não tem um desalinhado ali dentro. Eu não estou desqualificando, nem julgando. Estou dizendo que é como se você montasse um time de futebol que jogasse com uma determinada harmonia nos passes, na estratégia.

Voltando à questão do telejornal, você estava dizendo que…

No meu ver, os telejornais estão envelhecidos pela fórmula. Sempre um cara posicionado, maquiado, com uma boa gravata, de terno, um fundo atrás dele. Agora imagine esse cara nu. E sem cenário algum. O que se faz? A mesma coisa: a leitura de uma cabeça e o “play” em um VT. E assim termina o telejornal. Até hoje é essencialmente isso. Certo dia introduziram a troca de olhares entre os âncoras – o que é um avanço na história da humanidade. E agora trocamos olhares até quando não faz sentido. Quando começaram com essa interação entre o William Bonner e a Fátima Bernardes, vieram me perguntar o que eu estava achando. E eu dizia que me impressionava que eles não o fizessem sendo casados.

O nível do jornalismo está igual ao que era no seu tempo de colunismo? A impressão é que, às vezes, existe mais notícia do que jornalismo.

Eu acho que tem mais notícia e tem mais jornalismo. As escalas são muito maiores e as comparações ficam difíceis em função disso. No meu tempo, você precisava estar dentro de uma redação convencional, com uma oficina gigantesca, com um parque gráfico gigantesco para transformar em produto aquilo que era elaborado. Outra opção era você estar em uma rádio, que precisava de uma rede de antenas, transmissores, silêncio e microfones para transformar em produto aquilo que era elaborado. Ou, então, você estava em uma televisão e precisava dos estúdios, cenários, torres e antenas para transformar em produto o que era elaborado. Hoje, um celular de R$500 faz tudo isso. Não produz o impresso, mas edita, formata, põe cor, faz sonoplastia, tira foto, faz vídeo. E com o seguinte detalhe: você aperta um botão e manda o que produziu para o mundo inteiro. Hoje, você é a Globo, você é a CNN.

Onde está o problema, então?

Hoje, todos temos arenas. A mística do jornalista foi criada a partir da ideia de que nós somos testemunhas oculares da história. Quantas vezes você viu a batida do trem? E o assalto ao banco? Eu nunca vi. Nunca fui testemunha de coisa alguma. Essa testemunha ocular da história, hoje, tem um celular que filma, grava, edita e difunde. É o maravilhoso mundo novo da comunicação. Nesse contexto, o jornalista precisa redimensionar o seu papel, o seu protagonismo.

O conteúdo sempre foi uma commodity escassa.  Então, se você amplia a plataforma de captura dessa commodity que é escassa, isso tende a produzir outras formas de conteúdo: o comentário, a análise, a conversa fiada, a mentira, a distorção. Mas isso não quer dizer que o jornalismo perdeu em qualidade. Na soma, a qualidade de hoje é maior.

É diferente.

Eu digo que não haveria como responder ao mundo de hoje com o jornalismo de ontem.

Jornalismo é uma profissão em extinção?

Você está discutindo plataformas ou a atividade? A atividade certamente, não. As plataformas, certamente sim. É claro que algumas plataformas morrerão, assim como a comunicação já se fez na era paleolítica batendo com pedra sobre pedra. Isso não traz nada de trágico, nem de glorioso. É a roda da história.

Você começa a apresentar o jornal no rádio às 7h30, vai direto até às 9h30 e à noite você está na bancada do Jornal da Band. O seu fôlego é invejável.

Medido com que bafômetro? (Risos) Pode acrescentar, além disso, a coluna semanal que mantenho na IstoÉ. Também gosto muito de participar de debates, palestras, eventos, mediar painéis. Adoro o contato direto. Eu não tenho a sensação de que eu trabalhe mais do que já trabalhei.

Você passou por uma crise depressiva. Como foi essa história?

Foi em 2015. Alguns meses antes de acontecer, eu já andava mais irritado e briguento do que o normal. Também passei a ter insônia e a perder o interesse e a vontade em tudo de fora do ambiente de trabalho. Além disso, eu estava bebendo mais do que seria o razoável. Mas só depois eu relacionei esses fatos com o desencadeamento do evento depressivo, porque eu não tinha retrospecto.

Outra coisa é que eu passei a ter dificuldade em improvisar a fala de abertura do jornal do rádio e comecei a escrever esse texto. Só que eu comecei a ter problemas para colocar as minhas ideias no papel, não me achava nos pensamentos. A gota d’água foi quando eu percebi que não conseguia mais ler os jornais, compreender o que estava lendo, jogar um olhar minimamente lógico e aceitável sobre o panorama à minha volta.

Até o dia em que você não conseguiu entrar no ar.

Eu estava a poucos minutos de começar o jornal e me deu uma pane. Abriu um buraco dentro da minha cabeça, do meu peito. Foi o clímax da minha angústia. Eu já estava sentado na bancada, o comercial já estava no ar… A fala de abertura é o momento de maior exigência sobre mim, porque eu abro o programa falando de improviso, às vezes durante vinte minutos. Não diria que é uma coisa complexa, mas, também, não é banal.

Eu sei que eu já vinha perdendo o controle sobre aquela pressão natural de quando já se tem familiaridade com a coisa. Mas, nesse dia eu entrei em pânico e só tive a reação instintiva de dizer que não ia mais fazer o programa naquele dia. Foi então que eu levantei da bancada, saí do estúdio, desci para o meu camarim, bati a porta e comecei a chorar. E chorei convulsivamente por sei lá quanto tempo. Eu chorava de soluçar.

Como você conseguiu sair dessa crise?

A minha mulher ligou na rádio para saber o motivo de eu não ter entrado no ar e disseram que eu não estava passando bem. Ela veio até aqui. Eu ainda estava no camarim completamente destroçado. Sei que minha mulher ligou para o meu médico e ele disse que aquilo estava com cara de ser um surto depressivo e que era para me levar em um psiquiatra. Ela passou em casa comigo, eu tomei um banho, mas não queria ir a lugar algum, queria era me enfiar na cama. No fim ela conseguiu me levar e eu comecei a fazer o tratamento. Descobri que existem diversos tipos diferentes de depressão e que se você tiver a sorte de o médico identificar o seu tipo e acertar na dose da medicação, em torno de 15 dias você já está recuperando as condições de voltar para o mundo.

Você escreveu um texto sobre a sua experiência com a depressão que viralizou nas redes sociais.

Eu lembro que quando voltei a trabalhar, sem nenhuma pretensão de produzir referência, apenas para dar uma satisfação para os ouvintes da rádio – porque, afinal, eu tinha ficado ausente por quase três semanas –, eu fiz um relato do que tinha sido aquela experiência, esse texto foi publicado no Facebook e deu 17 milhões de visualizações.

Em função dessa repercussão, eu passei a receber centenas de mensagens de pessoas desabafando, pedindo ajuda, indicação médica. Detalhe: eu respondia todo mundo, ninguém ficou sem resposta. Todos os e-mails que eu recebi, sem exceção, foram respondidos um por um. E mesmo dentro do ambiente de trabalho muita gente passou a me abordar para dizer que também sofria com a depressão ou tinha um parente ou um conhecido que também estava passando pela mesma situação.

As doenças que afetam o Sistema Nervoso Central estão crescendo enormemente e é o grande nicho da pesquisa médica, hoje em dia. Não é brincadeira. Não tem classe social, não tem raça, não tem faixa etária. Atinge famoso e atinge anônimo.

Você está otimista com o país?

Eu sou um cara agitado, pilhado. E esperançoso. Mas não sou otimista. Qual é a diferença? Muito simples: o otimista é um imbecil que você coloca em uma jaula junto com uma onça e ele acha que vai conseguir dar conta do bicho. O esperançoso é o cara que, dentro da jaula com a onça, vai procurar uma saída. Eu estou nesse segundo grupo. Acho que o país está com a onça na jaula. Mas, também, acho que tem uma porta em que esqueceram de botar a tranca.

 

 

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