SP-Arte: quanto vale ou é por quilo?

SP-Arte: quanto vale ou é por quilo?

Morris Kachani

06 de abril de 2019 | 16h50

Por R$ 50 mil, este Wei Wei é seu

Um evento que cobra 50 reais a entrada, estamos falando da inteira. Negros e pardos, sinceramente só vi entre os serviçais – manobristas e funcionárias de limpeza com aqueles trajes próprios.

Escrevo aqui da SP-Arte. Um evento de respeito, que ocupa o prédio inteiro da Bienal no Ibirapuera. É bonito de ver, o fôlego de um mercado que consegue bancar uma coisa dessas. Mais de 2 mil artistas e 164 expositores, público estimado de 37 mil pessoas (claro que nem todo mundo paga inteira, talvez nem metade, mas usando a calculadora aqui, 37 mil X R$ 50 = R$ 1.850.000).

Galerias gringas, nova-iorquinas, berlinenses, de nossos vizinhos latino-americanos, do país inteiro.

Antigamente se dizia, “São Paulo, locomotiva do Brasil”. Este evento, pela sua grandiosidade, remete a isso.

E então, temos o ‘pacote’ das artes plásticas. Estudantes, gente do mercado e um monte de pessoas assim de banho tomado e hiper bem vestidas, ventiladas, dizendo umas pras outras, “desse quadro eu gosto”.

São nossos artsies.

Pra dizer a verdade, todos se vestem bem neste evento. Há arroubos e extravagâncias, claro, com alguns looks mais inspirados e outros menos. Bastante linho branco ou cru. Mãos no bolso. Sandálias descoladas. Marchands com roupas justas e coloridas de gosto duvidoso. Pessoas estranhas (essas são as melhores). E estudantes com atitudes e posturas imaginativas.

Em termos de marketing o evento também parece um sucesso. Há carrinhos espalhados por todo lado, de cerveja, champagne (como não), sorvete, café, águas aromatizadas… sabonetes…

Uma garrafa de mineral normal estava custando 6 reais na entrada. Por sorte, descubro que o agrupamento do Shopping Iguatemi, no segundo andar, estava distribuindo água grátis. Será que há mais algo bacana de graça?, penso.

Tem. Além da água servem suco e pipoca caramelizada de cacau (e a pipoca é boa); e uma chips de batata doce embalada em um saquinho que diz, “Pic Me, 0% blá, blá, blá”. Fica a dica.

Você não precisa levantar. Um funcionário prestativo te oferece os mimos na bandeja. Também não precisa se levantar para jogar o lixo. As funcionárias uniformizadas fazem isso por você. Fica a dica.

Será que na Europa é assim também? Não quero forçar a barra, mas no mesmo dia li no jornal que tem 7,5 milhões de brasileiros vivendo com 20 reais por dia. É complicado juntar tudo isso na cabeça. É um pouco como chegar na Sala São Paulo para escutar um concerto dos deuses e dar de cara com gente morando na rua.

Aqui na Sp-Arte no caso, me ocorrem as palavras recalque e colonização.

Ouço dizer que todas as galerias cumprem uma cota, com seus artistas negros, e que talvez haja mais galerias do que artistas negros… A conta que nunca fecha direito. Ainda assim, brilham algumas obras, como as esculturas do baiano Agnaldo dos Santos…

Outro dia li um artigo que criticava algumas pinturas feitas naqueles tempos do Brasil colonial, por situarem humanos, bichos e paisagens exuberantes em um mesmo plano.

Divagações… há maravilhosas obras de arte expostas e à venda. Em um primeiro momento nem ouso perguntar os preços. Uma galeria uruguaia com preciosos quadros de Torres García. Uau! Uma gravura master de Richard Serra. A nata das artes plásticas brasileiras – Mira Schendel, Iberê… Belos exemplares de arte cinética.

Dá pra se divertir.

Claro que a miscelânea de estilos, pelo menos para mim, atrapalha a fruição. Prefiro obviamente uma exposição com curadoria mais focada. Mas não estamos em um museu, e muito menos no Sesc.

Estamos em uma feira, que se pretende festival com o papel de fomentar nossa cultura, o que de fato o faz, apesar do preço abusivo do ingresso que por fim motivou este artigo.

Não tenho nada verdadeiramente contra a mercantilização da arte. Os artistas precisam viver, no caso brasileiro sobreviver, então que se vendam suas obras e quanto mais caro melhor!

Só é um pouco mais difícil entender a arte neste contexto, mas tudo bem. Feita para existir? Para ser vendida? Objeto da expressão pessoal que se monetiza. Bem ou mal, vivo nessa corda bamba há décadas praticando este jornalismo de sarjeta, que não deixa de ser uma forma de expressão e mercantil… no caso bem mais barata.

Afinal de contas, fiquei curioso de saber sobre os preços e perfil dos compradores. A verdade é que sempre tive um fetiche em ter uma obra de arte na parede da sala. Sempre achei que visitar uma obra em uma exposição era uma experiência insuficiente, fugaz. Sou exigente demais – achava e ainda acho que é preciso conviver com uma obra de arte, não basta apreciá-la uma vez.

Se eu fosse publicitário, advogado da Lava Jato, banqueiro ou digamos, um funcionário público graduado, daria pra fazer a festa aqui na SP-Arte.

Fui perguntando os preços das obras como se estivesse em uma feira de rua. Vamos lá:

Este Zerbini maravilhoso está U$ 140 mil.

Dora Longo Bahia: R$ 100 mil

Beatriz Milhazes custa absurdos R$ 4,7 milhões. Realmente, não dá pra entender

Esta gravura do Richard Serra eu até achei barata: R$ 290 mil.

Lygia Clark: R$ 1,5 milhão!!

E que tal importar a energia maravilhosa da arte de um Rubem Valentim para a parede da sala? Por R$ 1 milhão, é seu.

Mas não arranque os cabelos. Há ótimas obras a preços bem mais acessíveis. Como esta Barbara Spanoudis, gemazinha de nosso modernismo tardio, a R$ 18 mil.

Sinto um pouco de falta do Nuno Ramos, que enfiou uns urubus vivos neste prédio. Transgressão nesta amostra artística não orna tanto. Arte contemporânea conceitual, tem alguma coisa, mas bem pouca. (Só se for no estande da Vivo rs)

Ainda assim, medito sobre o poder encantatório das belas telas, gravuras, esculturas, fotografias.

Acho que se o curador da Bienal focasse neste viés, preocupando-se em trazer, digamos, uma boa amostra de Francis Bacon, seria muito mais bem-sucedido em termos de aceitação do público, do que com aquelas videoinstalações 99% chatas. “A Bienal não é inclusiva”, ouvi de um artista conhecido.

Aliás, de acordo com ele, a SP-Arte é muito mais didática para o público geral, do que uma Bienal.

Também conversei com um conhecido marchand. Entendi que o perfil majoritário de quem compra, é colecionador particular, mesmo. Que os milionários não estão de bom humor. Mas que em tempos de crise, justamente, tiram dinheiro da Bolsa para investir em arte. Sobretudo arte modernista para trás. Um Portinari ou um Segall, só valorizam.

Não acho justo se culpar ou ironizar as elites. É a forma que encontraram de sobreviver no meio desse caos. Nesse sentido, a SP-Arte é como se fosse uma ilha. Por um momento, naquele ar condicionado, esquecemos quem é o ministro da educação, o ministro das relações exteriores. Espantamo-nos com a força da economia que faz girar a roda. É disso que precisamos.

Dá para entender que a receita da bilheteria talvez seja necessária para ajudar a bancar o evento. Certamente.

Ainda assim, talvez realmente fosse o caso de pensar de forma construtiva e agregadora sobre como tornar este evento, esta verdadeira festa das artes, mais diversa e acessível, como o próprio parque Ibirapuera o é.

Será que é pedir muito? Talvez.

Ps. Ah! Faltou comentar qual foi a obra que mais gostei. Esta o marchand se recusou a me passar o preço. Chega-se a um ponto em que parece que o preço transcende. É do Anish Kapoor. Um inacreditável disco de aço e laca. Tudo parece estar contido nele