Tabata Amaral: “Bolsonaro não está aguentando o tranco”
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Tabata Amaral: “Bolsonaro não está aguentando o tranco”

Morris Kachani

28 de maio de 2019 | 17h47

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

“Eu consigo me identificar com uma pessoa que não pense igual a mim. Para mim, pelo menos, o que mais me faz identificar com alguém não é tanto o posicionamento ideológico, mas a trajetória.”

“As pessoas entram com a corrupção e transformam em negociata quando não conseguem negociar, porque é difícil construir consenso. Se fosse fácil ser líder, a gente teria vários. Mas a política brasileira está sem liderança. Bolsonaro não está aguentando o tranco da dificuldade que é ser um líder.”

“Mais maduro é dizer que existe a boa e a má política, e não a velha e a nova política.”

“Não quero ser lembrada como presidente do Brasil. A gente teve bons e maus presidentes. Eu quero ser lembrada como alguém que mudou a educação. Quero que a educação no Brasil seja melhor porque eu existi. Como foi com o Anísio Teixeira, como foi com o Darcy Ribeiro.”

“Quando eu nasci tinha uma estante com vários livros: de Lolita a Christiane F. , que eu saí lendo. Li coisas que eu não deveria ter lido quando eu tinha sei lá, oito, nove anos. Mas era uma maneira de escapar daquilo tudo.”

“É muito frustrante como a polarização trava o Congresso por dias e dias. É muito frustrante você ver votações bizarramente pouco impactantes que levam dias para ser votadas, ou votações muito impactantes, porque a gente está nessa gridlock (congestionamento) de esquerda vs. direita. Ninguém quer que passe nada e enquanto isso as pessoas vão morrendo nas filas dos hospitais, ou engrossando a fila de desempregados.”

“A gente pode ser contra ações específicas, a gente pode dizer que pessoas específicas não deveriam estar ali, que não nos representam. Mas você não pode questionar instituições que são tão importantes para a democracia.”

Aos 25 anos, Tabata Amaral é um fenômeno. Eleita deputada federal pelo PDT com 264 mil votos, esta paulistana da Vila Missionária (extremo sul da cidade), filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus, formada em Ciência Política e Astrofísica por Harvard, inspira não apenas a renovação política como também a capacidade de transformar a própria realidade.

Já nos primeiros meses no Congresso, chamou a atenção inquirindo os dois ministros da Educação do governo atual. A Vélez Rodríguez, disse: “Espero que o senhor mude de atitude ou saia do cargo”. Com Abraham Weintraub, prometeu mover uma ação por danos morais.

O gabinete da deputada em São Paulo funciona na parte inferior de um simpático casario no bairro da Saúde, onde Inconsciente Coletivo foi recebido na última tarde de segunda-feira. A conversa foi longa e decidimos então apresentá-la em duas partes. Hoje, as impressões sobre o governo Bolsonaro, sobre inovação política, e também a passagem por Harvard. Amanhã, na segunda parte, o MEC.

Muita gente enxerga paralelos entre Trump e Bolsonaro, mas assistindo ao filme Virando a Mesa do Poder, da Netflix, enxerguei mais paralelismo ainda entre sua história e a da democrata Alexandria Ocasio-Cortez.

Eu tenho um amigo da faculdade que trabalhou na campanha dela, ele me mandava os pôsteres dela. E eu falava, ‘gente, eu quero uma campanha assim’. Eu gosto demais dela.

Respondo brincando, mas é verdade, que seria um pouco arrogante eu dizer, ‘concordo que sou muito parecida com ela’. É que para mim, pelo menos, o que mais me faz identificar com alguém não é tanto o posicionamento ideológico, mas a trajetória. Mesmo que as trajetórias sejam diferentes. Incomodou muitas pessoas, e foi algo muito diferente, que mulheres como nós duas tenhamos sido eleitas aqui e nos Estados Unidos. Ela tem uma posição muito mais à esquerda do que eu. Eu me considero de centro-esquerda. Mas para mim, isso não é o que fica mais forte. Só é mais forte hoje porque o Brasil está polarizado. Eu cresci com muitos amigos do espectro ideológico inteiro e consegui me identificar e ser melhor amiga deles. Então, eu acho que é uma coisa meio doida do Brasil, agora.

Do espectro ideológico inteiro? Até dos extremos?

Os extremos se manifestaram agora nas eleições. Quem era dos extremos, eu não sabia que era. Eu tenho 29 tios por parte de mãe. Então sim, muitos deles foram eleitores do Bolsonaro. Só que são meus tios, pessoas que vieram para São Paulo com muita dificuldade, com trabalhos muito indignos. Muitas vezes não estudaram, então eu olho para essas trajetórias e me identifico. É meu tio, são pessoas que tenho carinho e admiração gigantesca, mesmo que tenham posicionamentos extremistas.

Acho que, numa situação não tão polêmica como a desse ano, tão polarizada, a gente entenderia que a identificação vai além do posicionamento político. Eu consigo me identificar com uma pessoa que não pense igual a mim. Não deveria causar tanto estranhamento que eu me identifico com alguém que está um pouco mais à esquerda do que eu.

Mas aí vem o pessoal da direita e diz, ‘não, a Tabata é comunista’, e aí o pessoal da esquerda diz, ‘não, a Tabata é de direita’. E eu falo, ‘gente, desde quando a identificação vem só de posicionamento ideológico?’

Eu consigo me identificar com uma pessoa que não pense igual a mim.

Qual é a trajetória que você enxerga em comum?

Dois pontos: primeiro, o de alguém que viveu no que seria uma ‘periferia brasileira’, no bairro de migrantes, com trabalhos que não são o que a elite tem. Na faculdade eu trabalhei de babá, de recepcionista, fazendo um monte de coisas que meus colegas em Harvard não faziam. Ela também foi garçonete. Que se matou muito para conquistar pouco, sabe? Então eu acho que essa realidade da ‘periferia’, é minha identificação.

A outra é alguém que não era filho de político, que não era da política partidária em si, que simplesmente não era alguém que você esperava ver na política formal e chega no Congresso. Isso incomoda muitas pessoas, então para mim, são esses paralelos: de onde vem e quanta estranheza gerou chegar no Congresso.

Que achou das manifestações no domingo?

Não tive nenhuma surpresa. Nem negativa, nem positiva. Eu achava que elas seriam mornas. Mornas no sentido de que não trariam nenhuma novidade, não acrescentariam muito para o debate. Que haveria pessoas nas ruas, afinal Bolsonaro foi eleito por uma maioria, mas que não seriam tantas como a gente teve dia 15 de maio, que não seria nem perto do que a gente teve antes da eleição, ou que a gente teve em 2013. Para mim, foram manifestações mornas. Não alterou em nada o que vai acontecer no Congresso essa semana, não alterou em nada a política como um todo.

A gente pode ser contra ações específicas, mas não pode questionar instituições que são tão importantes para a democracia.

Obviamente eu fico triste com o que a gente viu de pessoas se manifestando pró ditadura, contra o Congresso, contra o STF. A gente pode ser contra ações específicas, a gente pode dizer que pessoas específicas não deveriam estar ali, que não nos representam. Mas você não pode questionar instituições que são tão importantes para a democracia.

Lembrando que o Congresso foi tão eleito quanto o Bolsonaro. De uma forma até mais direta do que o presidente, que foi eleito por maioria. Então acho que foi um pouco disso: me entristece, mas eu não acho que virou a balança em nenhum sentido. Só foi mais um resultado do que um causador da incapacidade do Bolsonaro de trabalhar com o Congresso. De entender que a negociação, ela dá muito trabalho. Dá para ser feita da forma certa, mas dá muito trabalho. As pessoas entram com a corrupção e transformam em negociata quando não conseguem negociar, porque é difícil construir consenso. Se fosse fácil ser líder, a gente teria vários. Mas a política brasileira está sem liderança. Então me entristece que ele seja incapaz de fazer, que diga que todo mundo está indo pelo caminho errado. Ele criminaliza a própria democracia.

Se fosse fácil ser líder, a gente teria vários. A política brasileira está sem liderança

Comente a frase, “o Brasil é ingovernável sem conchavos”, distribuída pelo presidente em grupos de WhatsApp.

Por um lado, eu acho muito perigosa a fala dele e vi com muito receio. Porque eu acho que era uma tentativa de você apresentar uma ameaça velada para a população de um golpe de Estado. De alguma coisa nesse sentido. Só que, faltou combinar com os militares. O resultado daquela carta, para mim, é que Bolsonaro tinha intenção de ameaçar a democracia. Para todo mundo ficou a mensagem, ‘vai ter uma renúncia ou vai ter um impeachment se as coisas não mudarem’. Porque a carta tinha muitos elementos que a gente já viu no Jânio (Quadros). Esse é o bom de gostar de ler biografias de ex-presidentes, de gostar de estudar política e entender o valor da história… A carta distribuída por ele tinha muitas coisas do Jânio, tinha muitas coisas do (Fernando) Collor também, quando as investigações avançaram.

Bolsonaro precisa entender que vai precisar melhorar como líder, que vai precisar conversar com as pessoas, compartilhar poder, sabe? Negociação é isso, Democracia é isso. Você não negocia na base do dinheiro, é na base das ideias. Isso é possível. Então, para mim, só mostra que é um presidente que, como ele mesmo disse, não nasceu para ser presidente. Que não está aguentando o tranco da dificuldade que é ser um líder.

(Bolsonaro) não está aguentando o tranco da dificuldade que é ser um líder.

Quando ele fala sobre nova e velha política, acho que você é uma pessoa boa para elucidar essa questão para a gente…

Vejo que esse discurso está sendo usado para criminalizar a democracia, para você dizer que negociação é negociata, ou que diálogo não é importante. Mais maduro é dizer que existe a boa e a má política, e não a velha e nova política.

Entre os deputados que estão há mais tempo no Congresso, tenho parceiros e pessoas que admiro, com atuação nas áreas que eu conheço, que são direitos das mulheres, educação, inovação política, sustentabilidade.

E vejo também que tem pessoas da renovação com as mesmas práticas antigas, que realmente não diferem em nada de quem está lá há 345 mandatos. Então eu prefiro falar que tem a boa e a má política, e que ela se manifesta em quem está há muitos mandatos e em quem está há poucos mandatos no Congresso. Tem políticos sérios e não sérios nas duas levas.

Mais maduro é dizer que existe a boa e a má política, e não a velha e nova política.

É possível governar sem corrupção?

Acredito que sim. É extremamente difícil, mas possível. Quando a gente tenta entender o que foi o Mensalão, pelo menos a parte teórica, para mim foi o resultado da dificuldade em construir consenso. Eram 513 deputados, 30 ou 35 partidos. Então naquele momento, ao não se conseguir construir um consenso, se construiu um consenso artificial por meios ilegais, por meio da corrupção.

Agora, não dá para falar que a democracia é impossível, que ela não se realiza, porque a gente tem exemplos no próprio Brasil de prefeituras e governos que foram inovadores. A gente tem exemplos lá fora de democracias que sobreviveram aos extremos, que estão conseguindo entregar tanto desenvolvimento econômico quanto inclusão social.

Agora você tem um homem ordinário que se tornou Presidente da República, que não está conseguindo construir consenso, uma pessoa ordinária no sentido mediano do termo, uma pessoa comum que passou 29 anos no Congresso e não fez absolutamente nada, porque é difícil mesmo montar e aprovar projeto, passando por todas as relatorias. É muito difícil, não é à toa que eu trabalho 16 horas por dia.

Como muita gente, fiquei chocado quando vi os discursos dos deputados por ocasião do impeachment da Dilma. Não deve ser fácil negociar com essa gente.

É muito difícil. A gente melhorou um pouco, mas não acho que a gente conseguiu melhorar muito. Eu assisti essa votação do impeachment e de fato dá desespero. Mas a democracia como um todo é desenhada com freios e feita de uma forma que uma pessoa extremista não consiga causar grandes danos.

Porque pessoas estúpidas, pessoas medianas, chegam ao poder todos os dias, na vida isso é aleatório. O que a gente tem que fazer é fortalecer as instituições para que as pessoas muito ruins não tenham um impacto muito negativo. Então acho que a estrutura do Congresso é boa para a democracia, meu receio em tudo isso é que se questione a instituição do Congresso, que pôs vários freios nos últimos anos. O Brasil poderia estar muito pior se não existissem todas essas barreiras.

Ao invés de criticar os congressistas, é melhor mudá-los nas eleições. A gente teve uma oportunidade agora. E eu acho que no Congresso de hoje temos uma diversidade muito maior, tem muitas pessoas desta renovação.

Quando a gente tiver a sociedade como um todo participando do processo político, aí eu acho que a gente vai conseguir ter as melhores pessoas lá. Hoje a gente tem uma pequena porcentagem da sociedade que participa da disputa. Tem uma concorrência gigantesca do dinheiro do setor privado, além dos clãs tradicionais e da cultura de corrupção. É muito difícil para quem vem de fora entrar.

Quais são suas impressões iniciais do Congresso?

É muito frustrante como a polarização trava o Congresso por dias e dias. É muito frustrante você ver votações bizarramente pouco impactantes que levam dias para ser votadas, ou votações muito impactantes, porque a gente está nessa gridlock (congestionamento) de esquerda vs direita.

Ninguém quer que passe nada e enquanto isso as pessoas vão morrendo nas filas dos hospitais, ou engrossando a fila de desempregados. Isso é desestimulante. Passar duas semanas e nada acontece. Não depende tanto de ti porque aí depende de um coletivo.

Mas quando você se especializa um pouco, consegue fazer bastante coisa. Por exemplo, tenho mais conhecimento em alguma área que não tem tanta gente trabalhando, então quando eu viro para um deputado do Novo ou do PSOL, do PSL ao PT, e peço para ele assinar uma emenda complexa como a do Fundeb, ele assina.

É muito frustrante como a polarização trava o Congresso por dias.

Eles sabem que eu sou uma liderança dessa área, e não sou só eu, consigo apontar umas dez pessoas pelo menos que realmente sabem de educação e se importam. Então já consegui avançar nisso, porque sou vista como uma especialista e assim consigo identificar parceiros. Não quer dizer que coloque minha mão no fogo por eles, que não sejam corruptos, que eu concorde com eles em outras áreas. O que eu sei é que naquela área eles estão comprometidos.

Seria essa a nova política?

Eu acho que sim. Muitos brigam comigo porque queriam que eu escolhesse uma bandeira partidária e seguisse toda cartilha que inventaram. Isso para mim que é a velha política. Para mim nova política, ou melhor, boa política, é você fazer suas escolhas certas, sem se preocupar com esquerda e direita. Se a evidência mostra uma coisa diferente do rótulo esquerdista ou direitista, eu vou apoiá-la. Estamos falando de posicionamento programático.

A gente fala muito de um campo democrático, de um esforço para dialogar com todo mundo, para construir projetos em conjunto. E isso é um pouco mais fácil de ser construído com pessoas da centro-esquerda até a centro-direita. Porque as extremistas acabam trazendo interpretações mais enviesadas.

O Centrão seria isso?

Não, é outra coisa, outro bicho. O Centrão na minha visão é um grupo de políticos que não se move muito por questões de programa nem por questões ideológicas. Ele se move muito de acordo com a balança do poder.

Não deve ser fácil negociar com o Centrão…

Eu discordo. Se eu consigo ir lá e conversar com essas pessoas, pedir apoio para minhas emendas, mesmo sabendo que discordo delas em várias coisas, acho que uma pessoa que ficou 29 anos no Congresso também deveria conseguir.

Não dá para passar muito a mão na cabeça do Bolsonaro. Ele virou Presidente da República. Ao me eleger tive que aceitar um monte de coisas. Que perderia a minha liberdade, que teria ameaças de segurança, que teria que me cuidar muito mais. Aceitei que teria uma exposição gigantesca, que seria atacada e criticada todos os dias.

Não posso virar e reclamar disso. Ele quis ser Presidente da República, e esse cargo vem junto com um job description: tem que conversar com o Congresso, tem que construir consenso. É inerente à função. Precisa encontrar uma maneira ética de dialogar com políticos que como ele foram eleitos.

E o Maia?

A gente tem um presidente da Câmara dos Deputados que é firme e que tem posicionamentos em um momento em que o Executivo não tem nenhuma proposta tirando a reforma da Previdência. Então nessa ausência do Executivo, eu acho que o Maia está sendo uma pessoa correta. Tanto que a reforma tributária começou a tramitar independente da proposta do governo, por exemplo.

Não votei nele para presidir a Câmara, mas eu acho que está desempenhando um excelente papel. A gente precisa de um Congresso propositivo.

Você falou de renúncia ou impeachment. Foi força de expressão ou é por aí que você está visualizando as coisas?

A história nos ensina muitas coisas. Traz o aprendizado de que presidentes que se posicionaram como Bolsonaro no passado, só tiveram estas duas saídas. Ele tem quase 4 anos para mudar de postura, sair do clima de campanha e começar a conversar com as pessoas.

Acha que nosso presidencialismo de coalizão é um problema? Simpatiza com o parlamentarismo.

Acho que nesse momento precisamos aceitar as regras do jogo e tentar jogar. E aí quando a gente conseguir jogar, se a gente ver que essas regras não funcionam no Brasil, a gente muda.

Acho que só querer mudar as regras do jogo não vai trazer nenhuma mudança. Não tenho nenhum amor a presidencialismo ou parlamentarismo. Só não acho que a solução é por aí, no momento.

O governo está sem gestão. O governo está sem projeto de país. As pessoas ficam condenando as outras por razões bizarras, mas imagina se o governo não só fizesse a gestão bem feita como só tivesse pessoas competentes em cada área. As coisas seriam melhores. Se a gente pede bom gestores nas empresas, trabalhos técnicos, por que não espera o mesmo para política no Brasil? Para mim não faz o menor sentido.

Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Como você tem equilibrado sua qualidade de vida trabalhando 16 horas por dia? Você trabalha de segunda a sábado?

Aos sábados trabalho um pouco menos. Não acho que devo ter vergonha de falar isso, mas para mim é uma dificuldade muito grande. É difícil ter que dormir 7 horas por noite, é difícil conseguir fazer exercício duas vezes por semana, é muito difícil me alimentar bem. Acho que o primeiro passo é ter consciência dessa dificuldade. Vou tentando dormir mais, eu não termino uma semana com as três refeições. Eu só almoço todos os dias, porque tem uma pessoa no time que é encarregada de comprar minha marmita e levar para que eu consiga comer no gabinete.

O que eu me forço é a fazer francês, e como eu tenho uma professora, eu faço mesmo. Não é bom eu estar com o sono que eu estou agora, cansada como eu estou, desgastada. Mas eu sei que vou melhorando aos poucos. Tenho muita consciência, não sou um exemplo. Mas vou tentando melhorar, então eu faço francês, tento fazer academia, faço terapia, faço fisioterapia.

Você tem alguma projeção ou vontade de ter filhos? Está casada?

Eu namoro. Tenho vontade de me casar um dia, quero ter filhos, mas eu me considero muito nova para essas coisas. Talvez daqui cinco, dez anos, eu comece a pensar sobre isso. Por enquanto está bom demais namorar e meu namorado é meu melhor amigo.

Ele é político também?

Mais ou menos. Ele é colombiano, vem da zona de maior conflito, da zona rural de Medellín. Vi a casa do Pablo Escobar quando fui visitá-lo. Ele perdeu um irmão, que desapareceu. Migrou com o pai para os Estados Unidos durante o Ensino Médio. Ele é muito guerreiro. Muito politizado. Me ensinou várias coisas. Cursou Ciências Sociais e Filosofia. Eu sou assim, mais prática, e ele é mais da construção ideológica das coisas. Ele terminou a faculdade um ano depois de mim, é um ano mais novo do que eu.

Ele veio para cá e me ajudou a fazer a campanha, disse que ficou traumatizado. Ele realmente fala que desistiu da política depois dessa experiência. Diz que sou muito paciente. Que tenho que me repetir muitas vezes, que eu durmo muito pouco, e não é isso que ele quer para vida. Então ele foi para a Amazônia. Já morou em Santarém, Belém e está em Manaus, agora. Ele trabalha com saúde e educação, está fazendo um documentário e escrevendo. Hoje ele quer ser escritor. Ele é muito politizado, mas não quer pensar mais em política partidária, desde a campanha.

Vocês se conheceram em Harvard?

Sim. A gente se conheceu faz seis anos e namora há três.

Harvard foi legal? Foi incrível?

Harvard foi horrível no primeiro ano. Eu tinha acabado de perder meu pai, minha mãe estava desempregada, e eu trabalhando feito uma condenada, de babá, recepcionista, aprendendo inglês, indo mal nas matérias.

Já no meu último ano, tinha aprendido inglês, recebi várias ofertas de emprego, estava entregando minha tese, que foi muito premiada e me formando em Ciência Política. Tive uma boa graduação, saí de lá com os meus melhores amigos da vida e hoje com, uma outra cabeça. Então Harvard foi muito ruim e muito boa em momentos diferentes.

O que diferencia você das outras pessoas do seu meio?

Para mim é uma combinação do que tem em mim e o que tinha nas pessoas que me ajudaram. Me considero uma pessoa muito resiliente. Já levei muitas porradas, inclusive no Congresso. Ao longo da minha vida eu sempre levanto e eu sei que sempre vou levantar. Posso levantar meio sangrando, meio tateando.

Para mim as pessoas se tornam resilientes. É uma coisa que a gente pode ensinar à medida que elas recebem desafios. Moro em um terreno de ocupação, com pais que não tinham onde estudar. O meu pai era dependente químico. Trabalho desde os sete anos. Fui muitas vezes para a escola sem ter o que comer, mas sempre, de alguma forma, encontrei alguém que estava ali e que me ajudava.

Um grande aconchego que eu tive foram os livros. É uma coisa completamente aleatória. Meus pais foram vendedores de uma livraria. Minha mãe era quem arrumava os livros, era muito habilidosa e os donos a presenteavam com livros. Mas ela odeia ler, então quando eu nasci tinha uma estante com vários livros: de Lolita a Christiane F. , que eu saí lendo.

Li coisas que eu não deveria ter lido quando eu tinha sei lá, oito, nove anos. Mas era uma maneira de escapar daquilo tudo. Quando meu pai tinha se drogado, tinha usado álcool. Aquilo foi meu aconchego por muito tempo. Quando eu fui para a escola estadual, uma professora de matemática me pôs no grupo de alunos para as Olimpíadas de Matemática. Com isso fui para um colégio particular, alguns professores me perguntaram se eu estava bem, por que eu não estava comendo… e começaram a pagar minha alimentação, meu transporte. Acho que estes foram alguns dos desafios…

Tinha uma estante com vários livros: de Lolita a Christiane F. Li coisas que eu não deveria ter lido quando eu tinha, oito, nove anos.

Mas ali você já era o fenômeno dos estudos…

Mais ou menos. Quando eu ganhei uma bolsa do Etapa, muitos alunos ganharam. Eu fui a única que ganhou sendo medalhista de prata. Mas agarrei aquela oportunidade com tudo que eu tinha. Eu não sou brilhante academicamente, eu fui muito mal no meu primeiro ano de Harvard, demorei para aprender inglês, fiquei um ano lá para entender. Mas, mesmo assim, eu me graduei Suma Cum Laude, que é uma das coisas mais difíceis que se tem. É para poucos alunos. Isso porque eu não desisto, vou tentando. Me tornei resiliente porque houve muitos desafios.

Você tem o sonho de ser presidente?

Não. Eu tenho um sonho maior, que para mim é mais legal do que isso. Não quero ser lembrada como presidente do Brasil. A gente teve bons e maus presidentes. Eu quero ser lembrada como alguém que mudou a educação. Quero que a educação no Brasil seja melhor porque eu existi. Como foi com o Anísio Teixeira, como foi com o Darcy Ribeiro, enfim, que me critiquem por eu ser arrogante. Eu quero estar bem velhinha e que as pessoas falem: ‘pôxa, a Tabata, de fato, lutou pela educação’.

Não quero ser lembrada como presidente do Brasil. Eu quero ser lembrada como alguém que mudou a educação. Como foi com o Anísio Teixeira, como foi com o Darcy Ribeiro

Estamos em um beco sem saída?

Não. O Brasil já enfrentou coisas piores. A gente venceu a inflação, a gente venceu a ditadura, a gente dá conta. Só é muito difícil.

Tem uma frase que eu gosto: ‘para toda situação complexa, há uma solução fácil e errada’. As coisas vão melhorar e eu aprendi com a minha vida. As coisas melhoram. Só que vai dar muito trabalho, não é que a gente vai acordar e a democracia vai estar mais forte e a economia vai estar crescendo. Vai dar muito trabalho. Mas isso se constrói.

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