Temporão: Combate à pandemia passa pelo afastamento do Presidente e a constituição de um governo de salvação nacional
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Temporão: Combate à pandemia passa pelo afastamento do Presidente e a constituição de um governo de salvação nacional

Morris Kachani

24 de março de 2021 | 16h36

Marcelo Queiroga, nomeado ontem Ministro da Saúde, só conseguirá avançar se tiver autonomia e fizer radicalmente diferente do que fez Pazuello; “nós teríamos que fazer uma profunda reformulação na cúpula do Ministério da Saúde, que está ocupado por um monte de gente sem a menor qualificação. Quando o Pazuello entrou, ele militarizou o Ministério da Saúde”.

O que você faria agora, já neste momento agudo da crise pandêmica, se acaso fosse o Ministro da Saúde?

Assista à entrevista: https://youtu.be/Mi0VIHaRXXA

Esta foi a pergunta que ocorreu-me de fazer a José Gomes Temporão, médico sanitarista, pesquisador da Fiocruz, que participou da criação do SUS, pelos idos de 98, e ocupou a pasta da Saúde entre 2007 e 2011, no governo Lula, tendo durante sua gestão quebrado a patente de um importante medicamento contra o vírus HIV.

E a conversa não poderia ter sido mais oportuna. No preciso momento da entrevista, tomava posse o novo Ministro Marcelo Queiroga, em uma cerimônia discreta em Brasília.

 

Primeiramente, gostaria de te perguntar o que dá para ser feito a esta altura do campeonato.

Antes de mais nada é preciso lembrar que este é um momento crítico, infelizmente uma expressão dramática do que nós, sanitaristas, epidemiologistas, cientistas, estamos falando há um ano.

Um quarto Ministro foi empossado e ainda não falou quais são suas visões sobre o problema [pandemia]. Nós estamos em um momento em que toda e qualquer correção de rumo é muito mais complexa, mais delicada e mais difícil do que se tivéssemos corrigido o rumo há 6 meses, 8 meses atrás. Como nós estamos navegando em um mar revoltoso sem Ministério da Saúde, já vai fazer 1 ano ou menos de 1 ano, de abril até agora, o Brasil perdeu uma capacidade central no enfrentamento de uma doença como essa. Era preciso liderar o esforço nacional de enfrentamento no combate à doença. A gente se perdeu. Junto com isso você perde a credibilidade e a capacidade de inteligência epidemiológica – de cientistas e especialistas desenvolvendo estudos junto às universidades sobre o padrão da circulação do vírus, padrão de mortalidade, para a partir daí você antecipar medidas restritivas, educacionais, comunicacionais, de infraestrutura, de entrega de serviços. Isso tem que ser feito de mãos dadas com os munícipios, e nós perdemos tudo isso.

Nós passamos um ano delirando em Ivermectina, Hidroxocloroquina e as pessoas morrendo sem oxigênio; então criou-se uma guerra cultural permeada por fake news e a boa ciência e medicina foram colocadas de lado. Nós saímos de cena, ficamos criticando e chamando a atenção. Então nesse momento, onde você tem cepas mutantes circulando – com uma capacidade de transmissão em princípio maior do que as originais -, uma saturação do sistema hospitalar e em vários estados já no limite, gente morrendo sem ter condições de ser internado e intubado, de insuficiência respiratória, e você tem uma vacinação a conta-gotas.

Nós deveríamos estar vacinando 1 a 2 milhões de pessoas por dia e o PNI (Plano Nacional de Imunização) pode fazer isso, ele fez isso a vida inteira durante 50 anos. Eu só acreditaria neste Ministro se houvesse uma mudança radical, se tivesse uma mudança de postura completamente adversa ao que o governo federal vem assumindo.

Uma ONG australiana, em uma classificação em janeiro, nos colocou em último lugar no ranking combate à pandemia, no 95º lugar. O novo Ministro ainda não falou, temos que esperar ele falar alguma coisa, mas com toda franqueza estou vendo um cenário, não sou eu que estou projetando isso, o próprio Miguel Nicolelis projeta isso, de 500 mil mortes até o meio do ano.

Estudos da USP muito interessantes mostraram que se nós tivéssemos vacinados de 1 a 2 milhões de pessoas por dia desde janeiro, em um ritmo que o PNI pode vacinar, nós pouparíamos 175 mil vidas até o final de 2021.

 

Olhando para frente, o que dá para ser feito efetivamente?

Um Ministro para atuar em uma situação como esta, ele tem que ter ampla e total autonomia para montar a sua equipe. Então nós teríamos que fazer uma profunda reformulação na cúpula do Ministério da Saúde, que está ocupado por um monte de gente sem a menor qualificação. Quando o Pazuello entrou, ele militarizou o Ministério da Saúde; você tem que levar sanitaristas, planejadores para essas posições.

A primeira coisa que ele tem que fazer, se ele pretende manter a cabeça no lugar e o respeito da sociedade brasileira, é fazer tudo radicalmente diferente do que o Pazuello fez.

Em segundo lugar, o Ministro tem que ter autonomia para desenvolver uma política, ele não pode ficar com uma adaga sobre o pescoço, no caso o Presidente da República, dizendo o que pode e o que não pode, o que deve ou o que não deve.

Terceiro, ele teria que chamar imediatamente os estados e municípios e refazer o pacto federativo que foi rompido pelo governo federal. O que está acontecendo hoje são governadores e prefeitos agindo sem nenhuma lógica, coordenação.

O quarto ponto é: nós temos que começar uma campanha de comunicação de massa para a população brasileira, tem gente nesse momento morrendo porque está tomando kit covid – Ivermectina, Hidroxocloroquina – inclusive causando insuficiência hepática e precisando de transplante de fígado.

Hoje a Associação Médica Brasileira soltou um manifesto muito importante repudiando essas falsas drogas miraculosas. Sem essas mudanças, sem esses pontos, o Ministro não terá sucesso.

A desigualdade no acesso às vacinas é um problema global. 60% delas estão nas mãos de 16 países. A culpa talvez não seja só desse governo.

Há uma profunda inequidade no acesso às vacinas hoje, mas o Brasil tem uma posição completamente distinta dos demais países. Primeiro porque o Brasil construiu ao longo de quatro décadas uma base industrial e tecnológica de vacinas. Nós temos dois grandes produtores de vacinas no Brasil, o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz, mas hoje só vacinamos 12 milhões de pessoas com a primeira dose. Se não fosse pelo Butantan e a Fiocruz, teríamos vacinado zero pessoas. Então não podemos desprezar essa situação, só que a quantidades de vacinas que o Butantan e a Fiocruz têm capacidade de entregar neste momento – porque elas ainda dependem do princípio ativo produzido na China – é insuficiente para que tenhamos uma vacinação que impacte. E qual é a crítica ao governo federal? A crítica é a seguinte, em fevereiro do ano passado, nós já sabíamos que só sairíamos dessa situação com uma ou mais vacinas que funcionassem. Quando eu me refiro a “nós sabíamos” é nós, a ciência. O governo apostou todas as fichas que era uma gripezinha, que ia desaparecer em 4/5 meses e o próprio presidente da República declaradamente sabotou as vacinas, ele fez uma guerra contra o Butantan e ele teve que engolir o Butantan, a vacina que “transformaria as pessoas em jacaré”.

Ao invés do governo como um todo sentar com os produtores que estavam fazendo as novas vacinas naquele momento, Pfizer, Moderna, Johnson & Johnson, Sputnik e outras, e fazer acordos de pré-compra, que é o que qualquer país inteligente faria, simplesmente não fez, jogou fora e

agora estamos desesperadamente correndo atrás e acabamos de fechar contratos que só vão ser entregues no segundo semestre. Isso e nada neste momento são a mesma coisa, nada, porque vão morrer 500 mil brasileiros até julho se nós continuarmos vacinando nesse ritmo.

Não é criticar pela crítica, é criticar pelo conjunto da obra do governo federal, que é um governo criminoso, não é à toa que ele está sendo denunciado no Tribunal de Haia e que tem dezenas de pedidos de impedimentos na gaveta do Presidente da Câmara dos Deputados. Essa postura reiterada, anti-ciência, negacionista, arrogante de não usar máscara, isso não pode ser esquecido e não será esquecido.

Se nós conseguíssemos o afastamento do Presidente, que é o principal obstáculo nesse momento, e a constituição de um governo de salvação nacional nós poderíamos avançar, mas pelo que eu estou vendo as probabilidades de que isso aconteça são pequenas.

 

Voltando às vacinas…

Hoje a indústria de vacina é totalmente dominada pelas grandes empresas multinacionais que produzem medicamentos. O que está acontecendo hoje é mesma repetição do acesso a medicação pelo mundo em termos gerais. 80% do consumo de medicamentos no mundo se dá nos EUA, Canadá, Europa e Japão. Então tem um padrão de desigualdade brutal, de concentração de medicamentos. Enquanto os países da África, da América Latina e alguns da Ásia têm grandes dificuldades de acesso, há um hiperconsumo nos países desenvolvidos. E o que estamos vendo agora em vacinas repete exatamente esse mesmo padrão, tanto do ponto de vista de proteção das patentes quanto do ponto de vista de preços, quanto do ponto de vista de acesso. Não é à toa que a Índia e África do Sul estão liderando um movimento por mais acesso às vacinas, por exemplo através de licenciamentos compulsórios, mas o Brasil tem se mantido numa posição um pouco hostil e agora em cima do muro. Seria necessário um grande pacto global, liderado pelos países ricos.

Porque ninguém está seguro enquanto todos os cidadãos do mundo não estiverem vacinados, e para isso você teria que aumentar muito a capacidade produtiva das vacinas e oferecê-las a preço muito baixo ou realmente subsidiar pelos países mais ricos.

 

E quebrar a patente, que tal?

Quebrar patente de medicamento, como eu fiz na minha gestão, e quebrar patente de vacina é bem diferente, porque quando você quebra a patente do medicamento você pressupõe que terá acesso ao genérico enquanto você desenvolve sua própria capacidade interna. Foi o que nós fizemos, o Brasil quebrou a patente, importou o genérico da Índia, a Fiocruz desenvolveu o princípio ativo e um ano depois a gente já produzia totalmente no Brasil.

Qual o problema com a vacina? Nenhum produtor no mundo consegue produzir a AstraZeneca, não existe uma vacina genérica da AstraZeneca, ou da Pfizer, ou da Moderna, ou da Johnson & Johnson. Mas a vacina do Butantan que usa uma plataforma tecnológica de vírus atenuado, essa vacina poderia ser produzida em um número muito maior de países.

 

Então se o Brasil tivesse procurado negociar as vacinas com esta antecedência que você menciona, estaríamos em outra situação.

A vacina se tornou o bem mais escasso no mundo, todo mundo está desesperado atrás de vacina. Não fomos atrás, sabotamos, o próprio Ministério dizia que era muito perigoso, o próprio Presidente disse, “a vacina é um negócio experimental, muito cuidado com isso”, e não se vacinou até agora. Então, lamento, a realidade hoje é dramática e neste momento o governo está de mãos atadas. O que nós podemos fazer? Buscar desesperadamente apoio com outros produtores para que antecipem suas entregas e sentar com Biomanguinhos e Butantan e falar, “olha, vocês vão ter que trabalhar 24 horas por dia; o que vocês precisam para queimar etapas e antecipar entregas?”.

Além disso uma ação diplomática junto a países como os da Europa e dos EUA, que estão com vacinas sobrando, para que nos vendam uma parte, porque o Brasil hoje é uma ameaça global. O problema é que temos um Ministro das Relações Exteriores terraplanista e que é motivo de chacota nos corredores do Itamaraty. O Brasil perdeu completamente o diálogo como um ator no cenário global, nós somos hoje um pária internacional.

Então são essas três alternativas, buscar vacinas em países europeus e nos EUA. Dois, renegociar cronograma de entrega mesmo pagando mais caro aos atuais fornecedores, e três, mobilizando Biomanguinhos e Butantan e antecipando suas entregas”.

 

A vacina da AstraZeneca tem sido alvo de restrições nos países europeus. Que acha disso?

Essa vacina foi aplicada em 20 milhões de ingleses e não há relato de nenhum problema. É complicado também porque a gente vive além da pandemia uma “infodemia”, uma avalanche de informações e notícias. Então veja, suspenderam as restrições na Europa e aí a AstraZeneca divulgou ontem os resultados dos testes em fase 3 nos EUA, e hoje já tem uma notícia de que esses resultados têm que ser reapresentados porque tiveram problemas. As informações que temos até o momento é que é uma vacina tão boa quanto a do Butantan, quanto a da Pfizer, quanto da Moderna.

 

E quanto ao lockdown, o que recomenda que seja feito?

Com uma associação de fechamento das atividades, de maneira organizada onde a sociedade apoia e participa, com uma alta velocidade da campanha de vacinação como aconteceu em Israel, está acontecendo em Portugal, nos EUA e outros países, você começa a ter um resultado bastante perceptível de que é possível reduzir drasticamente internações e óbitos.

 

Fechar o país todo ao mesmo tempo, como algumas pessoas advogam?

Acho que chegamos em um momento do ponto de vista político de tanto esgarçamento institucional e de nível de tensão, que seria extremamente difícil, você tem um conflito entre governadores e aliados do Presidente, infelizmente 2022 acabou se tornando um ingrediente muito negativo nessa questão toda. Mas evidente que você tem que fazer [um lockdown].

 

Que tem achado da atuação da OMS

A OMS sofreu muito no ano passado, vamos lembrar que os EUA, que eram o principal financiador, saiu da OMS na gestão Trump. Então houve uma fragilização, mas ela vem cumprindo um papel insubstituível, nós temos que na verdade fortalecer a OMS. Que seria lhe dar mais capacidade, muitos cientistas acham que o que nós estamos vivendo agora pode ser repetido no futuro, de maneira até mais dramática, considerando tudo que nós estamos fazendo pelo planeta. Nós tivemos a mutação de um vírus que circulava em uma outra espécie que adquiriu uma característica que lhe permitiu infectar humanos, por questões ambientais, de padrão de consumo. Então como é que você prepara o mundo para uma situação como essa?

Essa foi uma das coisas que nós aprendemos, o mundo não estava preparado para enfrentar essa situação, nem do ponto de vista da organização do sistema de saúde, nem do ponto de vista da organização e harmonia entre os países para construírem de maneira conjunta uma saída. A única coisa que funcionou, e surpreendeu a todos, foi a ciência.

A ciência conseguiu colocar várias vacinas em menos de 1 ano, isso é mais importante do que ter ido à Lua.

A vacina que tinha sido desenvolvida mais rapidamente até então foi a da caxumba, que demorou quatro anos até chegar no mercado.

 

Que futuro a curto prazo você enxerga para o Brasil?

Nós estamos chegando em 3 mil óbitos diários [ontem (23/03) foram 3.251 óbitos], vamos ultrapassar essa semana 300 mil óbitos e essa época do ano é complicada porque nós sabemos que tem um potencial para circulação de outros vírus respiratórios sazonais, então você tem uma total pressão sob o sistema de saúde que não dá conta.

Ninguém enfrenta uma situação como essa abrindo leitos, você enfrenta reduzindo a velocidade de disseminação do vírus, e nós apostamos todas as fichas em abrir leitos, hospitais de campanha. Um estudo realizado agora pela Fiocruz, mostrou que 80% das pessoas que ano passado foram intubadas nas UTIs de covid-19 morreram. A média internacional é 50%. E talvez, nos hospitais de referência de São Paulo, como o Einstein ou o Sírio-Libanês, seja uma taxa mais baixa, de 30%, 40%.

Nós temos um risco do colapso da assistência, as pessoas vão morrer sem assistência na UPA. Vão morrer num centro de saúde, em casa, na porta do hospital, como resultado dessa tragédia.

O Brasil vive hoje uma crise humanitária, precisa de ajuda internacional.

E o presidente responde dizendo que nós estamos indo muito bem, inclusive o líder do governo na Câmara deu uma entrevista outro dia dizendo que tá tudo tranquilo, que as coisas estão ótimas. É inacreditável. É alienação, é perversão? Não sei, acho que você teria que chamar alguns psicanalistas para desvendar.

Nós sempre, durante o ano inteiro [2020], se você for fazer um levantamento das lives são várias pessoas, Gonçalo Vecina, Margareth Dalcomo, Natalia Pasternak, enfim, tem muita gente boa, você vai perceber o tempo todo que é um diário de uma crônica anunciada, o diário de uma catástrofe antecipada, nós soubemos o tempo todo do grande risco.

A gente sente uma grande impotência porque o Brasil teria todas as condições de ter feito diferente, nós temos um Sistema Universal de Saúde, muito mais avançado do que em países como os EUA, nós temos um sistema privado com uma boa capacidade, nós temos uma boa ciência, grandes especialistas, nós poderíamos ter conduzido o enfrentamento da pandemia de uma maneira radicalmente distinta.

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