Temporão: “Ministério da Saúde abdicou de sua função e só atrapalha”
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Temporão: “Ministério da Saúde abdicou de sua função e só atrapalha”

Morris Kachani

17 de junho de 2020 | 13h17

Por Isabella Marzolla

Assista à entrevista: https://youtu.be/MXDHD23OrpA

Mais de 44 mil mortes por covid-19. O Brasil já é o segundo país com maior número de óbitos – número que continua avançando exponencialmente – e só perde, por enquanto, para os Estados Unidos. Como chegamos a esse ponto?

Entrevista com José Gomes Temporão, médico sanitarista, pesquisador da Fiocruz e ex-ministro da Saúde nos governos Lula (2007 a 2011); em 2009 enfrentou a H1N1.

Jogamos fora uma oportunidade. Nossa saúde pública é respeitada mundialmente. Se não fosse o SUS estaríamos na barbárie. O número de mortos seria o dobro. E temos um exército de 300 mil agentes de saúde, que poderiam ter sido utilizados no mapeamento.

A PEC do teto de gastos foi o primeiro disparo de todo este desmantelamento.

Nova Zelândia, Japão, Alemanha, França, Portugal. O fator em comum entre esses países é uma liderança técnica e política, ou seja, uma liderança onde o Ministério da Saúde desses países assumiu o controle e a condução do enfrentamento à pandemia e uma liderança política onde o primeiro-ministro ou o presidente, dependendo do tipo de regime, lideraram um esforço nacional de enfrentamento a essa situação. Onde houve dubiedade ou fragilidade aconteceu uma situação ruim.  

Hoje em dia o grande aliado do vírus é o governo federal.

Tão importante quanto ter tecnologia, recursos humanos, profissionais motivados, leitos, medicamentos, é ter liderança, visão estratégica, coordenação nacional e comunicação transparente, e nós não temos isso. Estamos há mais de um mês sem Ministro e Ministério da Saúde.

Nós não temos um Ministério da Saúde. Nós temos um general, que por mais capaz que seja e que sua história na carreira militar seja brilhante, ele não entende nada de saúde. E o Ministério está todo ocupado por militares que não entendem nada de saúde.

Se tivéssemos tido dois meses de quarentena organizados, de isolamento mais rígido, provavelmente estaríamos neste momento com um retorno às atividades mais consistente.

Na verdade, o que tem acontecido no Brasil é uma coisa muito curiosa, os prefeitos e os governadores apoiados por pesquisadores, cientistas e a entidades da área de saúde pública construíram uma governança paralela e trabalham sem o Ministério, ou apesar, do Ministério da Saúde.

Com relação ao futuro próximo, diz o ex-ministro:

É mais difícil sair da quarentena do que entrar. Os repiques serão frequentes.

Eu não diria que São Paulo passou pelo pico.

O único lugar que já passou pelo pico foi o Norte. Já o Sul é motivo de preocupação. 

A maioria da população ainda não entrou em contato com o vírus. Só Boa Vista. Lá, 25% da população já entrou em contato. Rio só 7%, São Paulo menos que 3%.

Um dado positivo é de que o Brasil conta com dois institutos que podem produzir a vacina, o Instituto Butantã em São Paulo e a Fiocruz no Rio.

 

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