Teresa Cristina: Samba faz bem para a cabeça
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Teresa Cristina: Samba faz bem para a cabeça

Morris Kachani

15 de dezembro de 2021 | 09h45

“Conheci pessoas de 80, 90 anos com uma menta aguçada, uma predisposição à alegria, ao bem viver, ao tratar bem o outro. Acho que o samba presta esse serviço”

“Sem ancestralidade não tem história, não tem continuidade, seria o fim de tudo”

“O samba é o nosso conselheiro. Se você ouvir um samba todo dia, por um ano, é como se você ajoelhasse diante de um preto velho para pedir um conselho. Às vezes o samba tem uma função social, uma função política, uma função amorosa. Ele tem, inclusive, uma função que a gente não identifica, mas deixa a gente melhor. Porque se o samba não resolve o nosso problema, às vezes ele faz com que a gente pense nele [no problema] de uma outra maneira”

“A importância da voz da Dona Ivone Lara é tão importante quando Ella Fitzgerald para o jazz americano”.

 

Em 2020, incentivando o distanciamento social devido à pandemia, a cantora e compositora Teresa Cristina começou a fazer transmissões ao vivo online, cantando sambas e canções da música popular brasileira, na maioria à capela.

O repertório vasto e o conhecimento enciclopédico de Teresa trouxeram convidados estrelados como Caetano Veloso e Marisa Monte e uma multidão de seguidores – hoje são mais de 400 mil, no Instagram.

Assista à entrevista: https://youtu.be/w-NclPUbFYw

Nestas lives, Teresa também trazia, num clima intimista, discussões sobre política, família e relacionamentos.

E assim, com irreverência e galhardia, ajudou muita gente –e a si própria-, a enfrentar esse tempo difícil. Samba e saúde mental, tudo a ver!

QUILOMBO DO AMOR

“Eu estava em uma situação pré-depressiva – porque se eu realmente estivesse com depressão teria que tomar remédio – e a música, a conversa, tudo que aconteceu foram paliativos e coisas que ajudaram no tratamento. E eu fiquei preocupada com a minha mãe, porque ela estava muito triste, a gente todo dia acompanhava o noticiário com notícias horríveis”

“Nosso país virou um manguezal, quer dizer, eu nem vou falar manguezal porque o mangue é uma reconstrução da biodiversidade. O nosso país virou um lamaçal, uma coisa sem movimento, sem expressão, sem nada. As noites sem dormir foram me deixando muito amarga, até que pensei, o que eu gosto de cantar? Eu gosto de cantar samba de terreiro.

Eu fiz um vídeo de 1 hora e meia, meia hora cantando samba de terreiro da Portela, meia hora samba do Império e meia hora samba da Mangueira. (…) Quando me dei conta passou um mês, e comecei a fazer [vídeo/live] de segunda a segunda”

“Acho que a live foi isso, uma transmissão, algumas pessoas usaram a expressão “quilombo do amor”, acho maravilhoso isso”

ANCESTRALIDADE

Eu acho que o samba cuida da nossa saúde mental, porque quando ele se incorpora, quando ele assume corpos como Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Paulo da Portela, a obra que essas pessoas deixaram para a eternidade, elas são nossas amigas”

“O encontro do samba, quando mais antigo o praticante, mais completo é o encontro, porque em torno da roda tem os instrumentos, tem as canções, tem as lembranças daqueles que já foram, tem comida. Se tem comida tem alegria, tem liberdade. Acho que é um gesto tão bonito você alimentar as pessoas, e o samba sempre teve comida bem pertinho, na maioria dos encontros tem comida e nunca falta”

“O ancestral é o motor da continuidade. Então o samba veio do outro século, ele tem uma mensagem nele, e essa mensagem pode estar nos versos ou não, mas quando o samba acontece, você entende a mensagem e isso é um legado.

Através da tradição oral o samba vai se firmando, se modificando, mas quando a gente fala que a força do samba está na ancestralidade, é porque nós estamos multiplicando uma ação que não cessa, que não pára”

“Eu não reclamo de modificação no samba, porque são através dessas interferências que ele continua sempre vivo, ele vai estar sempre acontecendo e tem um invisível também, uma mágica. O toque da mão no couro, no tambor, você faz um “chamamento de invisíveis”, quando a gente fala de ancestrais são pessoas que já passaram por aqui, que estão aqui do nosso lado, que estão acompanhando a gente, que aconselham a gente, inclusive.

RACISMO

“Os negros foram libertos – abriram uma jaula e falaram “saí”. Foi assim que aconteceu a abolição da escravatura, mas sai sem água, sem comida, sem moradia, sem vestimenta, “sai com a roupa do seu corpo e dá seu jeito”. Como que um povo que passou pelo que passou encontra motivo para dançar, para cantar, para criar poesia?”

“Eu queria entender por que o samba foi proibido algum dia, é muito cruel. É como se fosse uma caneta desumanizadora, tudo que tem a mão preta “é desumano” e faz com que o outro lado não se compadeça do que está acontecendo. Foram muitos anos de escravidão”

“O preconceito, ele age tentando fazer com que a religião, com que a música, com que toda essa expressão que venha da arte da expressão negra, seja uma coisa diabólica, uma coisa perigosa, uma coisa que não tenha muita explicação”

“Algum branco já foi morto porque estava carregando uma marmita?”

UM VILÃO NA PRESIDÊNCIA

“A cultura brasileira se renova e ela é múltipla, para qualquer assunto que a gente queira debater tem uma canção para falar disso, qualquer assunto, você escolhe um assunto e tem uma música lá”

“A gente tem [na Presidência] um vilão de desenho animado, pior que um vilão de desenho animado, porque o violão de desenho animado ele só quer o mal. Esse cara, que é tão preocupado com a família, nem para a família dele ele faz bem, porque ele criou bandidos, ele criou pessoas que continuaram o “lamaçal” que ele cria, que ele tenta espalhar pelo Brasil. Então dá um certo desânimo”

“Mas, aquela sensação de tudo que poderia ruir passou, porque a vacina chegou. Com tudo que envolveu a vacina no Brasil, eu consegui tomar as duas doses, vou tomar a terceira dose, se tiver que me vacinar até morrer eu me vacino até morrer. Saber que o hospital que era exemplo no atendimento de Covid-19 zerou os pacientes, as mortes diminuíram – isso dá um certo alívio. Mas enquanto não estiver todo mundo vacinado, sempre vai ter um alerta”

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