Terra estrangeira: a saúde mental dos imigrantes e refugiados
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Terra estrangeira: a saúde mental dos imigrantes e refugiados

Morris Kachani

28 de maio de 2021 | 09h55

“A gente tem uma autoimagem de que o brasileiro é acolhedor, mas os imigrantes, principalmente aqueles que são negros ou que têm traços indígenas ou marcados pela pobreza, eles encontram um país bastante hostil”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=7Mxa9eT40Mc

“O sujeito imigrante ou refugiado não tem um sintoma do qual ele se queixa; ele está em uma situação que não lhe permite viver com dignidade. Muitas vezes ele vê como fraqueza poder expor os sentimentos de desânimo, tristeza. As lembranças são vistas como formas de se enfraquecer. O sujeito vai reduzindo a sua vida psíquica e o nosso trabalho é justamente retomar a possibilidade de fazer um nexo de significância entre quem ele era e quem ele é”

A chamada crise dos refugiados tem uma história longa que envolve conflitos religiosos, geográficos e antropológicos. O desentendimento humano combinado com interesses econômicos, regimes ditatoriais, a fundamentação de religiões ao extremo e a falta de laicidade geraram uma bomba de problemas, que explodiu mais recentemente em 2014, e que ainda devasta países do Oriente Médio, Caribe e África.

Dos mais de 6.500 refugiados vulneráveis atendidos em São Paulo em 2018, mais da metade vieram de três países: Angola (20%), Venezuela (19,8%) e República Democrática do Congo (13,6%), de um total de 84 nações listadas.

Deixar para trás seu país, seu trabalho, sua casa, seus amigos e família, enfrentar uma viagem muitas vezes perigosa e ilegal, chegar ao país de origem e precisar passar por uma série de burocracias – para obter o Registro Nacional do Estrangeiro, revalidar o diploma, etc. -, em alguns casos sofrer xenofobia, não conseguir se adaptar a cultura e costumes locais e sentir um vazio no peito de saudades, entre outras dificuldades, são experiências de trauma e luto. Muitas vezes, um luto impedido ou negado, provocando cicatrizes profundas no subjetivo de cada um.

Através da prática psicanalítica clínico-política, que leva em conta um contexto de exclusão e violência, o Grupo Veredas trabalha com os imigrantes e refugiados para compreender e promover a saúde mental.

Miriam Debieux é psicanalista, professora titular do programa de pós-graduação de Psicologia Clínica da USP, onde coordena o Laboratório Psicanálise, Sociedade e Política e o Grupo Veredas: psicanálise e imigração.

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“As pessoas não chegam à clínica, é a clínica que chega a elas. Ou seja, nós [psicanalistas] vamos aos lugares onde elas [pacientes] estão.

A saúde mental possibilita ao imigrante e refugiado recuperar o seu lugar tanto de fala quanto de poder usufruir das poucas ofertas que as instituições daqui podem fornecer; até 2013 em São Paulo não havia nenhuma instituição pública de acolhimento aos refugiados a não ser a Polícia Federal, que é claro, os imigrantes tinham medo de acessar. Até seis anos atrás a única política referente aos imigrantes era a política de Segurança Nacional, da época da ditadura militar, em que o refugiado era visto como um inimigo. Esse lugar social que o imigrante e o refugiado ocupam também é impedimento para ele se “sentir em casa””

“Os imigrantes ficaram durante muitos anos invisibilizados. O refugiado quando chega ao Brasil, muitas vezes tem que provar o que fez ele deixar seu País. E essas pessoas não dominam o português, não têm documentação. Do ponto de vista da saúde mental, é complicado ter que falar de um sofrimento recente para provar o seu estatuto social. (…) Essas situações traumáticas, muitas vezes, fazem com que o sujeito não pare de rememorar a saída triste do país natal, e grande parte do trabalho [na clínica] é poder esquecer isso. Nesse sentido é quase que um trabalho oposto da clínica de psicanálise tradicional, em que você lembra do seu passado, em que você faz associações para chegar em um ponto.

Esse momento da saída tem um impacto psíquico extremamente importante e que vai ser trabalhado em muitas instâncias, durante a vida inteira. Não dá para esperar um luto dos refugiados imediato

Esse momento da saída tem um impacto psíquico extremamente importante e que vai ser trabalhado em muitas instâncias, durante a vida inteira. Não dá para esperar um luto dos refugiados imediato”

“A direção do tratamento é permitir que o sujeito recupere um lugar nessa cena. Ele não consegue se situar nesse acontecimento como uma vítima, e quando ele sai dessa cena de violência, muitas vezes sai acompanhado de vergonha. A própria palavra “refúgio”, traz a ideia de “fuga”. A direção do trabalho é retomar a dignidade do sujeito nas ações que ele fez em prol da vida. A gente tem trabalhado muito a questão do imigrante como testemunha do seu tempo, testemunha daquilo que ele presenciou.

Muitos que sobreviveram não conseguem suportar a ideia de ter sobrevivido enquanto tantos outros morreram. A psicanálise trabalha muito sobre a culpa e a gente tem trabalhado muito sobre a vergonha”

“O processo de imigrar é um processo que está presente no psiquismo de todos, ou seja, o deslocamento é uma das leis do inconsciente para você ter e condensar”

“É sempre um dilema o que você preserva da própria cultura e o que você assimila da cultura do país que você chegou. Você tem aqueles grupos que formam guetos, e esses guetos são para conservar a cultura tal como ela é, o que é uma tentativa complicada porque te isola do lugar em que você está vivendo e muitas vezes acaba preservando uma cultura que não é mais assim nem no seu próprio país de origem, porque a cultura é dinâmica. E o outro tipo de grupo é o que chamamos de uma “adesão à crítica”, idealizadora do lugar de acolhida, onde o sujeito abre mão e desvaloriza a sua pertença, o que leva a uma distância em perceber que o país de acolhida tem problemas”

“Tem alguns relatos de pacientes que ilustram um pouco o tipo de trabalho que a gente faz, por exemplo: uma situação de dois irmãos do Congo que foram à vila fazer compras. Quando voltam, veem a casa junto com seus pais e outros irmãos dentro pegando fogo. A partir disso eles fazem um trato em que cada um fugiria para um lado, para pelo menos um deles sobreviver. E um dos rapazes, de 18 anos, acaba chegando no Brasil. Quando ele chega na clínica, ele está com a memória da casa em chamas “faltando” – ele apagou da cabeça. Então assim, o trabalho nessas dimensões para ele sair daquela crise de que a vida perdeu o sentido é encontrar um ponto de referência a partir do qual tenha sentido ele sobreviver.

No caso, o ponto que ele se ancorou foi o desejo de reencontrar o irmão, saber o que tinha acontecido com o irmão. E para ele fazer isso, precisou entrar em contato com outras pessoas. Isso fez ele sair da condição de desânimo para ir buscar formas de ações”

“É interessante ver como São Paulo, apesar de ser uma cidade bastante hostil, onde há muitos abusos, ela tem uma diversidade de população onde um imigrante pode encontrar um lugar. (…) Mas também nos mostra a face que a gente não quer olhar, nos mostra o racismo. Na pandemia, na fila pedindo comida, muitos refugiados apanham [dos brasileiros] porque eles estariam tirando a cesta básica [dos brasileiros]”

“Eu acho que o estrangeiro nos permite renovar o olhar do que temos de bom e do que temos de ruim: violência policial, preconceito, abandono”.

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