Todos os algoritmos levam a Felipe Neto
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Todos os algoritmos levam a Felipe Neto

Morris Kachani

04 de outubro de 2019 | 09h14

Foto: Divulgação Play9

Uma entrevista com o youtuber Felipe Neto

“A privacidade caminha, cada ano mais, para o fim. Ninguém estará mais a salvo de ser mapeado e inserido em qualquer contexto, falando qualquer coisa. A privacidade, para os nossos netos, será um conceito confuso de ser entendido”.

Enquanto a manipulação de algoritmo, coleta de dados dos usuários e exibição de conteúdo personalizado não forem investigados e pessoas não forem presas, o mundo continuará nas mãos de sujeitos como o Steve Bannon”.

 “No mundo da comunicação, eu sempre digo: as pautas progressistas são antipáticas. E o motivo é muito simples: você precisa estudar para ser progressista. O reacionarismo é infinitamente mais compartilhado porque ele é superficial, feito de frases de impacto e movido pelo ódio”.

Em 2020 e 2022 eu não sei se terá dado tempo do povo brasileiro acordar para o tamanho da besteira que fez ao se aliar a esses religiosos fanáticos e reacionários. Espero que sim, mas temo que a manipulação da informação no período eleitoral em 2020 e 2022 ainda estará a todo vapor e irá de novo decidir o resultado para a extrema-direita”. 

“Amigo bolsonarista eu não tenho nenhum, até porque costumo me cercar por pessoas racionais. Bolsonaristas são profundamente ignorantes, com o intelecto formado na base da raiva contra aquilo que não entendem”. 

“Quando a religião decide se envolver com política, o resultado é sempre desastroso, porque busca o reacionarismo, a imposição e a opressão. O sonho desses reacionários da extrema-direita é a implementação de uma teocracia no Brasil, onde a igreja tenha o poder de controle sobre as liberdades individuais. E isso, sim, é uma ameaça não só à diversidade, mas ao progresso e ao mundo”.

 “Witzel hoje, pra mim, é o homem mais perigoso do Brasil e a maior ameaça para 2022. O Doria sintetiza bem a velha expressão ‘colocar uma raposa pra cuidar do galinheiro’. Ainda não tive a oportunidade de conversar com o Luciano Huck pessoalmente, apenas por mensagens. Não posso tratá-lo como candidato porque ele nunca foi”. 

“Trato o Lula como uma decepção. Sem dúvida foi o Presidente que mais criou projetos voltados para as classes mais pobres do país, mas também foi o que mais fez pelos bancos, o que mais fortaleceu a velha política, aparelhou o Estado e manteve o establishment. Além disso, o desastre econômico que o PT trouxe ao Brasil durante o governo Dilma é algo que beira o inacreditável”.

 “Não tenho a pretensão de educar, pois não sou qualificado pra isso. Entretenimento de qualidade é aquele que o jovem gosta e que não prejudica sua educação. Só isso”.

 “Não tenho grandes planos. Já conquistei mais do que preciso”.

Com 34,5 milhões de inscritos no seu canal no YouTube, ombreando com Whindersson Nunes na liderança absoluta de audiência na plataforma, e 9,6 milhões de seguidores no Twitter, Felipe Neto é hoje sem sombra de dúvida, aos 31 anos, um dos maiores fenômenos da comunicação brasileira.

Diferente da versão youtuber, que dispara vídeos de entretenimento e diversão para crianças e adolescentes, a faceta de Felipe no Twitter é engajada politicamente. Ele, que em outros tempos escreveu furiosas críticas contra o PT, vem desde o primeiro turno da eleição presidencial batendo firme em Jair Bolsonaro e no status quo ultra conservador.

Ganhou as manchetes quando anunciou a compra de 14 mil livros de temática LGBT para serem distribuídos na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, em resposta à determinação do prefeito carioca Marcelo Crivella, de recolhimento de um livro dos Vingadores com personagens homossexuais por suposto “conteúdo sexual para menores”.

Uma reportagem publicada na revista Época desta semana relatou que o número de seguidores de Felipe no Twitter aumentou algo como 20% desde sua adesão ao antibolsonarismo.

Recentemente, apareceu novamente no noticiário, informando que precisou retirar sua mãe do país por conta de ameaças recebidas.

Não há dados precisos, mas pesquisando na rede, em reportagens da Veja e da piaui, se descobre que Felipe fatura algo como 180 mil dólares mensalmente em seu canal, no qual posta nada menos que dois vídeos por dia, que emprega 200 pessoas, que vive junto com o irmão e também estrela Luccas em uma casa avaliada em R$ 6,5 milhões na Barra. Esta casa também é conhecida como NetoLand, em livre alusão à NeverLand de Michael Jackson.

Conheça mais detalhes sobre a trajetória do youtuber neste ótimo perfil a seu respeito já publicado.

Como a cultura digital e o marketing político se entrelaçam?

A cultura digital não é mais digital. Hoje, o digital já é o mainstream, já é o assunto do bar, do churrasco, da escola, do trabalho. Quem demorou a entender isso ficou pra trás nas últimas eleições, enquanto aqueles que investiram todas as fichas no mundo digital, saíram vencedores. O que acontece no “digital”, hoje, influencia muito mais pessoas do que qualquer outro veículo ou mídia no país.

O que vê de positivo nesse processo? A Vaza Jato, por exemplo?

O positivo é o quanto isso poderia tornar o processo mais democrático e verdadeiro, fácil de ser checado, às claras. A Vaza Jato é um bom exemplo de como o ambiente digital possui uma tendência para o combate à corrupção e jogatinas, porque ninguém sabe mais o que está 100% seguro ou não. Logo, aqueles que forem mais transparentes e honestos talvez possam começar a ter mais destaque nesse novo mundo. Se isso vai se tornar realidade, aí eu não posso cravar com certeza.

E de negativo?

O negativo é simples: o ambiente digital funciona através de algoritmos matemáticos para mapear o interesse do público e o que ele receberá de conteúdo. Com isso, as grandes titãs: Google, Facebook, Youtube, Instagram, Twitter e outras mais segmentadas, são capazes de definir eleições e direcionar o mundo para o caminho que acharem mais pertinente. O problema é que quem entendeu isso primeiro foi a ultra-direita reacionária que, através de indivíduos como Steve Bannon e empresas como a Cambridge Analytica, começaram a injetar bilhões de dólares para compreender os algoritmos e manipulá-los para influenciar sociedades inteiras em determinadas direções. Assim o Trump foi eleito, assim o Bolsonaro foi eleito, assim o Brexit passou inicialmente na Inglaterra e assim o próprio Bannon já afirmou que pretende derrubar até mesmo o governo da China. Enquanto a manipulação de algoritmo, coleta de dados dos usuários e exibição de conteúdo personalizado não forem investigados e pessoas não forem presas, o mundo continuará nas mãos de sujeitos como o Bannon.

Como erradicar as fake news?

Isso precisa ser amplamente debatido no Legislativo. Precisamos estudar mais, entender mais e tentar criar maneiras de coibir a disseminação de notícias falsas. Inicialmente, o maior problema é a milícia digital criada por partidos políticos para fazer isso propositalmente. Por isso a CPI das fakenews é uma das coisas mais importantes em Brasília nesse momento. Essas milícias digitais precisam cair. E precisam levar junto aqueles que foram eleitos por elas.

Como proteger os direitos digitais à privacidade?

Esse é um debate muito profundo e que não vejo muita saída. A privacidade caminha, cada ano mais, para o fim. Tudo está na nuvem, tudo está sendo mapeado, cada passo que você dá, cada email que envia, cada produto que visualiza. Robôs, câmeras, sistemas de monitoramento, inteligência artificial, tudo que pode ser criado para que você possa ser alvo de melhores propagandas para consumo já está sendo feito. O próximo passo é a utilização disso para monitorar todos os seres humanos 24 horas por dia em razão de “segurança”, até chegarmos no grande governo Big Brother. Eu não acho que esse seja um processo reversível a essa altura. Assim como as técnicas de “deepfake” estão ficando cada vez mais perfeitas e, dentro dos próximos anos, qualquer ser humano poderá ser recriado digitalmente e inserido em qualquer cena, seja um filme de ação ou um vídeo pornô. Ninguém estará mais a salvo de ser mapeado e inserido em qualquer contexto, falando qualquer coisa. A privacidade, para os nossos netos, será um conceito confuso de ser entendido.

Você leu esta matéria do New York Times, sobre inteligência artificial e You Tube no Brasil? https://www.nytimes.com/2019/08/11/world/americas/youtube-brazil.html

Gostaria que comentasse a respeito. Será que os gigantes da tecnologia deveriam ser mais bem regulamentados ou isso significa cerceamento à liberdade de expressão?

Esse debate precisa ser aprofundado, precisamos dialogar muito mais sobre o tema. Uma das coisas importantes que precisa ficar clara é: o YouTube não promoveu esses vídeos de extrema-direita de propósito, não foi a ferramenta que fez isso, foi o algoritmo e a inteligência artificial que promoveram aquilo que o público estava ávido por consumir. O sistema é matemático, é frio: ele é moldado pelo consumo. Se o público brasileiro tivesse se encantado por vídeos de esquerda, a radicalização poderia ter ido por outro rumo, porque o YouTube iria promover na mesma medida. No mundo da comunicação, eu sempre digo: as pautas progressistas são antipáticas. E o motivo é muito simples: você precisa estudar para ser progressista. O que é mais fácil de ser compartilhado na internet? Um vídeo sobre criminologia analisado sob o aspecto sócio-cultural e as medidas que podem ser implementadas na base de formação para moldar o caráter de um indivíduo, ou um vídeo de um bandido tomando um tiro da polícia com o influenciador falando “tem que matar esses vagabundos!”? O reacionarismo é infinitamente mais compartilhado porque ele é superficial, feito de frases de impacto e movido pelo ódio, enquanto o progressismo só pode ser entendido com leitura, debate e troca de conhecimento. No espectro do que é “popular”, o reacionarismo sempre vai ter ampla vantagem enquanto tivermos uma população com baixíssimo nível de educação. O debate agora tem que ser: o que fazer num país onde o povo é tão pouco educado que se seduz facilmente pelo discurso de ódio? Como contornar isso? Como evoluir? É isso que precisamos debater, não só possíveis regulamentações em cima de veículos de comunicação.

Quais são suas referências em termos de repertório político e cultural – o que curte ler, e uma visão sua sobre lideranças e fatos políticos que o inspiram. Curte o GregNews por exemplo? Quem você segue?

Eu tento ler o máximo de veículos possível, tanto os que possuem mais viés de esquerda quanto os de direita. Evito aqueles que são famosos por propagarem fakenews propositadamente, como o INFOWARS, que por sinal é o site favorito do Olavo de Carvalho. Em termos de entretenimento, sou mais fã dos programas americanos, assisto muito o Daily Show, Late Show e o Last Week Tonight.

Poderia falar com quem tem dialogado nos grupos de WhatsApp sobre política e comportamento, e como visualiza as eleições de 2020 e 2022?

Gosto de dialogar com pessoas de diferentes visões políticas, desde que não sejam visões que oprimem ou censuram um povo. Em 2020 e 2022 eu não sei se terá dado tempo do povo brasileiro acordar para o tamanho da besteira que fez ao se aliar a esses religiosos fanáticos e reacionários. Espero que sim, mas temo que a manipulação da informação no período eleitoral em 2020 e 2022 ainda estará a todo vapor e irá de novo decidir o resultado para a extrema-direita.

Jair Bolsonaro é uma ameaça para a democracia?

Movimentos reacionários são sempre uma ameaça para a democracia, assim como movimentos radicais de esquerda também são. O problema não é o Jair Bolsonaro, esse sujeito é uma marionete de algo muito maior que ele. O Jair não sabe falar, não sabe escrever, não sabe o que é economia, o que são relações exteriores, como funciona o PIB, ele não entende nada de absolutamente nada, é uma pessoa de frases prontas que foi eleito por um movimento de ultra-direita reacionário voltado para implementação de uma teocracia. É isso que preocupa, não o ignorante do Jair Bolsonaro apenas.

Como avalia seus vídeos no YouTube e sua maneira de se comunicar pelo twitter?

Meu canal no Youtube é um canal de entretenimento e diversão. Eu sou, antes de qualquer coisa, um criador de conteúdo. Dentro desse conteúdo, eu atinjo todas as idades e todo tipo de público, sem distinção. Não sou o apresentador de esquerda, não sou o youtuber político, eu sou um criador de conteúdo de humor e variedades. Contudo, eu não enxergo meu Twitter como ferramenta de trabalho, mas sim como extensão da minha voz pessoal. Lá, eu não sou “Felipe Neto – criador de conteúdo”, eu sou apenas “Felipe – brasileiro”, então falo dos assuntos que mais consumo no meu dia a dia, que são basicamente política e futebol.

Você acha afinal que o Brasil é um país conservador? Bolsonaro recebeu quase 58 milhões de votos. Entendo que teve muito volto anti-PT, mas ainda assim, hoje ele parece contar com uma base fixa de 30% de apoio.

Sem dúvida o Brasil é um país conservador, o problema não é o conservadorismo, há muita coisa positiva no conservadorismo. O problema é que o Brasil se tornou um país reacionário durante as últimas eleições. As pessoas caíram para o lado do ódio, da violência, da imposição de costumes, da opressão. Contudo, as pesquisas mostram que isso está despencando. A aprovação do Bolsonaro já despencou monstruosamente em apenas 9 meses e tende a cair muito mais. As pessoas estão acordando e percebendo que aquela raiva foi canalizada de maneira completamente equivocada.

Você tem algum amigo bolsonarista? Ou perdeu alguma amizade por conta da polarização?

Amigo bolsonarista eu não tenho nenhum, até porque costumo me cercar por pessoas racionais. Contudo, tenho amigos que votaram sim no Bolsonaro no segundo turno, por pânico do PT. E eu entendo o que as levou a fazer isso. Agora, bolsonarista mesmo, de ser fã desse indivíduo, eu não tenho qualquer pessoa ao meu redor.

Em um esforço de consciência, consegue entender como funciona a cabeça de um bolsonarista, de alguém que aplaude por exemplo seu discurso na ONU? Por mais de uma vez já escutei o comentário, sobre “gente que saiu do armário”.


São pessoas profundamente ignorantes, com o intelecto formado na base da raiva contra aquilo que não entendem. Mentes sem educação, cultura e literatura são facilmente manipuláveis para o reacionarismo, é só ver os alunos dos cursos do Olavo de Carvalho. A falta de educação no Brasil está mostrando seus resultados. 58 milhões votaram no Bolsonaro, 31% ainda considera o seu governo “ótimo/bom” e 8% da população brasileira já acredita que a Terra é plana. Tudo isso é sintoma de falta de educação e de uma mente intelectual tão mal formada que se torna presa fácil para o reacionarismo e as teorias da conspiração.

E a religião evangélica, é uma ameaça à diversidade?

Se a religião se mantiver dentro do templo, da igreja, da mesquita, da sinagoga, do terreiro, seja do que for, ela pode até representar problemas, mas ao menos estará limitada ao seu ambiente de livre manifestação religiosa. Agora, quando a religião decide se envolver com política, o resultado é sempre desastroso, porque busca o reacionarismo, a imposição e a opressão.  Na última votação no órgão de Direitos Humanos da ONU, os representantes brasileiros escolhidos no governo Bolsonaro votaram acompanhando a ditadura militar do Egito, o Iraque, o Paquistão e a Arábia Saudita. O sonho desses reacionários da extrema-direita é a implementação de uma teocracia no Brasil, onde a igreja tenha o poder de controle sobre as liberdades individuais. E isso, sim, é uma ameaça não só à diversidade, mas ao progresso e ao mundo.

O que pensa do Marcelo Crivella?

Mais um que sonha com uma teocracia onde a igreja tem poder sobre o estado. É um sujeito inútil, que nada fez pelo Rio de Janeiro durante todo o seu mandato. A cidade está o caos, a situação é deplorável e nenhum avanço aconteceu. Agora, às vésperas das eleições, ele ressurge com discurso anti-homossexuais para tentar usar a pauta identitária para se reeleger.

Do Witzel?

Hoje, pra mim, é o homem mais perigoso do Brasil e a maior ameaça para 2022. Se esse sujeito crescer na política, eu recomendo a todos que reforcem suas portas com barras de ferro ou saiam do país o mais rápido possível.

E do João Doria?

Como sou do RJ, acabo acompanhando menos as ações do Doria. Pra mim, ele é mais um representante da velha política, dos acordos, do lobismo, da busca pelo favorecimento daqueles que detém o poder econômico. O Doria sintetiza bem a velha expressão “colocar uma raposa pra cuidar do galinheiro”.

E do Luciano Huck? Apoiaria ele em uma eventual candidatura?

Ainda não tive a oportunidade de conversar com o Luciano pessoalmente, apenas por mensagens. Não posso tratá-lo como candidato porque ele nunca foi, então nunca ouvi proposta alguma. Eu não pretendo apoiar ninguém nas eleições, eu sou e sempre serei oposição, mesmo que venha a anunciar um voto em determinado político. Minha função, assim como de qualquer cidadão, é criticar e exigir melhorias, cobrar resultados e fiscalizar as ações dos eleitos.

E do Lula?

Trato o Lula como uma decepção. Sem dúvida foi o Presidente que mais criou projetos voltados para as classes mais pobres do país, mas também foi o que mais fez pelos bancos, o que mais fortaleceu a velha política, aparelhou o Estado e manteve o establishment. Minha maior crítica ao PT e ao Lula não é em relação à corrupção, porque essa sempre existiu. Minha maior crítica foi porque ele prometeu quebras de paradigmas, mas não entregou, apenas fortaleceu os banqueiros e os verdadeiros donos desse país. O Lula fez muita coisa positiva no Brasil, negar isso é um atestado de insanidade ou falta de estudo, mas ele falhou nos aspectos mais importantes e que o Brasil mais precisava para poder manter o rumo econômico de crescimento e luta contra a desigualdade social: ele não enfrentou quem deveria ter enfrentado. Além disso, o desastre econômico que o PT trouxe ao Brasil durante o governo Dilma é algo que beira o inacreditável, mas aí o Lula já não era mais Presidente.

Como foi cair nas graças do petismo, transitando de um lado ao outro da polarização?

 Isso tudo é momento. Eu não luto por pautas que me façam ficar bem na fita com determinados grupos, eu luto por igualdade, amor e diversidade. Se hoje os petistas gostam de mim, ótimo. Se amanhã não gostarem, ótimo. Eu não sou e não quero ser político, eu não quero agradar ninguém, só quero lutar pelas bandeiras que citei.

Como se define politicamente?

Não me defino, não há como se definir politicamente no Brasil hoje, porque tudo virou “Fla-Flu”. Se sou de direita, sou ultra-conservador ou tucano defensor da concentração de renda. Se sou de esquerda, sou comunista ou petista e maconheiro. Eu luto pelo bom senso, eu luto pela diminuição da desigualdade social, pela diversidade, pelas liberdades individuais, pela democracia. As pessoas que me encaixem no espectro que preferirem.

Como conciliar o politicamente correto com o humor livre? Não dá mais pra fazer humor sobre as minorias?

Dá pra fazer humor sobre qualquer coisa, desde que seja humor e não opinião preconceituosa travestida de piada que ninguém ri. George Carlin, o maior humorista que já viveu, fazia piada com aborto, estupro, Deus, religião, AIDS, câncer, tudo. A questão é que ele sabia onde mirar a piada e arrancava risadas ao invés de sofrimento e inferiorização do outro.

Qual seria um olhar seu sobre essa moçada jovem que vem aí, e que hoje curte seus vídeos no YouTube?

Curtir meus vídeos no Youtube hoje não tem nada demais, são vídeos de humor e variedades, diversão e entretenimento básico. Vez ou outra eu trago um vídeo mais sério alertando sobre algo que considero pertinente, mas isso é raro. Meu canal hoje causa zero influência negativa nas pessoas e quase nenhuma influência política. Agora, sobre as próximas gerações de eleitores, eu acho que caminhamos para um repúdio ao reacionarismo e um retorno ao bom senso. Jovens são questionadores por natureza e eles já perceberam que esse governo religioso e opressor não apresenta resultados positivos pro país, muito pelo contrário. Não sei se já veremos resultados em 2022, mas acredito muito em 2026.

Você é um influenciador infanto-juvenil; o que aprendeu a respeito e como hoje lida com a questão do consumismo, da propaganda e de certos preconceitos brincalhões?

Eu acabei sendo inserido no mundo infantil graças ao sucesso do meu irmão, Luccas Neto, com as crianças. Ele virou a maior febre infantil da história do Brasil desde a Xuxa. Embora meu público majoritário continue sendo sempre adolescentes e adultos, crianças começaram a me assistir sem eu ter me preparado pra isso, então precisei aprender enquanto fazia. No início, erros foram cometidos, campanhas publicitárias que poderiam ter sido evitadas ou feitas de outra forma, mas eu fui aprendendo e evoluindo. Não existe uma faculdade de criação de conteúdo para crianças, eu tive que aprender na prática. Hoje, possuo conselheiros, pedagogos, psicólogos, qualquer inserção publicitária é pensada e muito bem avisada, há mensagem para os jovens, há preocupação. Por isso sempre faço o desafio: se você acha que meu canal é uma má influência em qualquer nível, eu o desafio a assistir por uma semana e manter a mesma opinião.

Seus vídeos educam ou apenas divertem?

Divertem. Não tenho a pretensão de educar, pois não sou qualificado pra isso. Faço muitos vídeos de variedades e passo muita informação bacana sobre ciência, história, geografia, sobre o mundo animal, vegetal, até mineral. Contudo, sempre digo que meu canal não é de educação e as informações estão ali para divertir, caso surja alguma dúvida, tem que ser tirada com o professor.

O que seria entretenimento de qualidade para esse público infanto-juvenil?

O entretenimento que o jovem gosta e que não prejudica sua educação. Só isso.

Poderia explicar seus modelos de negócios, mesmo que seja em linhas gerais?

Atualmente tenho algumas empresas voltadas para o mercado digital, desde produção de conteúdo até desenvolvimento de tecnologia. A Netolab é responsável por tudo referente a mim como ator, apresentador e influenciador. A Play9 está deslanchando com curadoria e produção de conteúdo digital para marcas e canais de terceiros, como o do Vinícius Junior, que já estreou quebrando recordes, e o da Marta, que deve seguir o mesmo caminho. Tenho participações em outras empresas e negócios, normalmente voltados para o mundo digital.

O que pensa da TV aberta e do modelo adotado pela TV Globo especificamente?

Essa é a resposta que cabe num livro. Digamos apenas que a TV aberta já percebeu que precisa mudar radicalmente sua forma de criar conteúdo e monetizá-lo. Quanto mais tempo demorarem para adaptar e migrar para um mundo digital, maior será a perda. É necessário reestruturar sua maneira de fazer negócios, de entender o que precisa ser ao vivo e o que não precisa, de compreender que o jovem já está desconectado da grade e lutar para encontrá-lo onde ele se encontra.

Seus números atualizados no YouTube e no Twitter.

 Média de 350 milhões de visualizações mensais no meu canal, com 34,5 milhões de inscritos. No Twitter, são 9,6 milhões de seguidores.

Como visualiza seu próprio futuro? Onde quer chegar?

Quero continuar criando o que me faz feliz, abrir novos projetos e ampliar consideravelmente minhas ações sociais. Não tenho grandes planos, já conquistei muito mais do que preciso.

 

 

 

 

 

 

 

 

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