Tudo mudou

Tudo mudou

Morris Kachani

20 Março 2018 | 16h21

Como reinventar a fotografia autoral nos tempos de hoje, com instagram, youtube e tudo mais?

Como interpretar a época áurea da Playboy, nos dias atuais?

E sobre as acusações de assédio sexual a grandes ícones da profissão, como Mario Testino, Patrick Demarchelier, Bruce Weber?

Para onde enfim, desponta o horizonte de um dos maiores fotógrafos brasileiros vivos, se não o maior?

Tudo mudou. Ou melhor, nem tudo… Aqui, a segunda parte da conversa com o Bob Wolfenson.

*

Por onde anda seu inconsciente, Bob?

Eu tenho pensado muito nesse momento atual. Eu, pessoalmente, estou no centro de três grandes crises.

Uma é a crise do país em si, a crise econômica que nos atinge. Para o meu negócio funcionar, o sistema precisar estar super… eu sou a última ponta, o cara vai gastar com fotografia quando ele estiver com todo o resto já funcionando.

Tem também a crise no negócio em si, da mídia, da utilização da fotografia, como vai ser feita. As revistas não têm mais o poder que tinham, não têm a necessidade que tinham. Hoje você concorre com muitas outras mídias que não precisam tanto de fotografia, que são mídias mais em movimento, de fotografias mais elementares, mais banais. Essa é uma questão que está se colocando fortemente de uns anos pra cá.

Porém, todo mundo fotografa, mas poucos são fotógrafos. Ser fotógrafo pressupõe outras questões. Conceituais, filosóficas, artísticas. E técnicas também, sem dúvida nenhuma. Então, nesse sentido eu acho que a profissão ainda está a salvo. Essa crise bate de um outro jeito.

E tem ainda a crise da idade. De eu estar há tantos anos nessa lida. Pra onde eu vou? Até onde eu vou? Como vai ser? Cada vez o horizonte é menor.

Você está com quantos anos?

63. Está tudo bem, não tenho problema com a minha idade; talvez tenha problema com o tempo em que esteja fazendo tudo isso, este mesmo trabalho.

A gente tá falando de publicidade?

Estou falando de todas as inserções possíveis. Porque eu trafego, advogo a ideia de estar em trânsito. Eu transito por diversas disciplinas da fotografia. Eu tenho meu trabalho autoral, eu sou fotógrafo de retratos, eu sou fotógrafo publicitário, eu sou fotógrafo de moda. São coisas muito distintas. Durante muitos anos fui fotógrafo de nus. Eu ando por essas vertentes todas da fotografia, e não seria um desses se não fosse todos os outros. Eu necessito de todos esses pra ser aquele que estou sendo naquele momento.

A sua fotografia está em evolução?

Isso é difícil de dizer. Eu dizer. Quem tem que dizer são os outros. Mas, eu me sinto muito livre pra exercer esse trânsito aí. E, obviamente, as coisas se sucedem; a vida se sucede na minha frente. A minha fotografia é expressão disso, do que está acontecendo. É o retrato desse momento da minha vida, da vida desse país, desse mundo. A questão de evolução ou não é meio capciosa. Eu acho que continuo sendo um retrato fiel de mim mesmo inserido nesse momento, nesse país, nessa sociedade.

Em termos de mercado o que aconteceu? Aumentou alguma coisa? Diminuiu outra? O que significa o Instagram pra você?

O Instagram é uma mídia na qual eu me comunico com uma certa audiência, recém descoberta pra mim. Quatro, cinco anos atrás. São 130 mil seguidores. É bastante. E eu tenho bastante ressonância no que eu faço, no que eu ponho. Tenho uma série que são Os Retratos que um dia fiz, que provavelmente vai virar um livro e uma exposição.

O Instagram é bom pra mostrar que você está aí, que existe, está vivo. Hoje em dia, quem não está na mídia social – tudo bem, não acho que seja uma obrigação; e eu faço, não por obrigação, mas por prazer – mas, é um sinal de existência.

Você acha que a fotografia é uma profissão em reinvenção?

Acho que sim. Acho que os fotógrafos formados hoje são mais multimídia, precisam filmar. Isso se tornou muito fácil, e por isso se tornou necessário. Com o advento desses telefones, dessa facilidade de filmar, as pessoas querem. Antes disso ninguém queria, porque era difícil, era caro. Agora um cara só faz tudo.

Existe uma escola da fotografia que busca se afirmar sobre o cinema, acima do movimento. Mas, eu acho que a grande demanda de hoje em dia é o movimento acima da fotografia. O movimento como produto final.

O que você andou vendo de maravilhoso em fotografia ou de imagem em movimento?

As coisas mais documentais acho que são as coisas que me tocam mais hoje em dia.

Pra te falar a verdade, não tem nada que eu preste muito atenção ultimamente. Eu olho, gosto, acho legal, mas nada me arrebata mais nesse sentido.

Sobre essa coisa de fotografar nus, e todas essas denúncias que estão rolando com tantos caras que fizeram fotografias de nu e moda, como Mario Testino, Patrick Demarchelier, Bruce Weber, o que você tem a falar sobre?

Graças a Deus, isso eu tenho certeza absoluta, nunca vai ter pra mim nenhum tipo de denúncia dessas, porque sempre fui muito respeitoso.

Há um sentido em que eu até entendo esses caras. Porque fazia um pouco sentido o fotógrafo ser o cara que tinha esse poder de sensualização. O problema é a utilização do poder pra se conseguir coisas. Agora, com relação ao fato em si de haver uma sexualização dentro do trabalho, digamos que o próprio set fotográfico é sexy. Se você pegar simbolicamente, tem uma coisa fálica ali na câmera; tem toda uma relação da modelo com o fotógrafo. Então, há esse clima. O problema é como você desenvolve isso.

A Playboy, por exemplo, era uma revista que você tinha que cumprir um script de sensualização. Hoje em dia, uma revista como a Playboy não poderia existir. Essa coisa da objetificação da mulher era clara, só que naquela época não se pensava dessa forma. A própria mulher que ia ser fotografada, aquilo era atividade consentida, sem nenhum tipo de forçação; muitas vezes atendendo uma necessidade dela. Fazer por dinheiro era uma justificativa super natural; as inteligentes, as intelectuais que eram atrizes e eram bonitas, falavam que estavam fazendo por dinheiro. E era tranquilo, era aceito. Obviamente, com novos conceitos, isso ficou impensável.

Agora, eu acho que há um pouco de exagero nisso. Não estou por dentro exatamente do que aconteceu nesses casos específicos, mas eu entendo que há uma sensualização no set. Se você não tocar na mulher, não falar nenhuma barbaridade e manter uma coisa sedutora, está tudo certo.

A impressão que eu tenho é que é um outro tempo.

Exato.

Eu venho publicando minhas fotos da Playboy no Instagram e as pessoas raramente se manifestam chocadas, ou contra. Principalmente a partir do ensaio que eu fiz com a Maitê Proença na Sicília – foi a partir dele que eu virei um fotógrafo completamente autoral pra Playboy. Até então eu fazia a cartilha de revista: duas fotos de frente, três de costas, tinha uma cartilha mesmo, a editora vinha e desenhava nas páginas como queria.

E quando eu fiz esse trabalho com a Maitê, eu e ela bancamos uma coisa super autoral. E, a partir daí eu pude fazer tudo de meu jeito durante cinco, seis anos. Você reconhecia que era um trabalho meu.

E, essas questões ideológicas não entravam em consideração. Não passavam pela cabeça de ninguém.

Hoje em dia dá pra exercer o ofício numa boa?

Sim. Eu continuo igual. É que eu não faço mais foto de mulher nua, porque não tem mais veículo pra ser feito, e nem há essa demanda mais. Mas eu continuo trabalhando do mesmo jeito, falando as mesmas coisas pras pessoas, porque eu nunca fui abusivo.

Li uma reportagem com o André Passos, que está sendo acusado de assédio, em que ele falou que tinha que rever essa história de meninas de 15 anos já entrarem nos estúdios. Uma menina de 15 anos fica muito vulnerável na moda?

Não. Eu fotografei uma menina de 15 anos domingo agora. Entrou, fez caras e bocas. Perfeito. Obrigado. Tchau.

Depende muito do fotógrafo, né. Se você tivesse uma filha, você não ia liberá-la de sair por aí fotografando com 13, 14 anos, sabendo que existe um jogo de sensualidade no estúdio. Ou ia?

É que essas meninas de 15 anos que estão fotografando, são meninas do Sul, de famílias – em geral – humildes, cuja profissão de modelo é um pouco a salvação da família. Então, todo mundo investe nisso.

E você acha que esse jogo de sedução é das duas partes?

Acho que sim. A pessoa pode estar interessada em você. Ou ter uma vaidade, porque você é um cara que tem poder, e ela quer o seu poder.

Tenho um amigo que é feio pra chuchu e ele diz assim: “se eu não tiver com crachá, ninguém me quer”. É um sinal do quanto o poder é sedutor.

Eu não defendo, acho que as pessoas têm livre arbítrio. O que não pode é haver abuso.

Agora, esse limite do que é ou não abuso é que está muito xiita. Esse grupo que está no MASP (Guerrila Girls, que ficaram em cartaz até fevereiro) e que diz que mulher só aparece no museu se estiver nua, é uma meia verdade, não é uma verdade absoluta.

Existe machismo no meio dos fotógrafos? Tenho a impressão de que a maioria dos ensaios de nus femininos são assinados por homens.

Existe machismo como em qualquer meio. Existiam mulheres que fotografavam para a Playboy também. E o fato de haver mais homens do que mulheres é porque há mais homens que mulheres fazendo tudo, até há pouco tempo. Principalmente revistas masculinas porque tinha um pressuposto, uma premissa de que você tinha que extrair uma sensualidade hetero da mulher, enfim, tinha que haver um jogo de sedução entre o fotógrafo e a fotografada.

Você está com alguma fé política?

Diante dessa onda conservadora, eu vou me posicionar do centro pra esquerda. Em um primeiro momento eu vou votar no Ciro Gomes, independente do resto. Se ficar o Bolsonaro e o Lula, eu vou votar no Lula. Se ficar o Alckmin e o Bolsonaro, eu vou votar no Alckmin.

O seu trabalho artístico está indo pra onde agora?

Eu tenho a Galeria Millan que, de uma certa forma me dá o respaldo para as questões artísticas. Na verdade, tudo é artístico, meu trabalho comercial também é artístico, e meu trabalho artístico também é comercial. Eu considero uma coisa única. Vários fotógrafos me habitam, mas todos eles são interconectados e precisam um do outro.

Eu tenho duas coisas no centro da minha produção pessoal: um trabalho que estou fazendo, muito delicado, sobre um drama que vivi há dois anos, uma doença mental na minha família, em casa, e que eu fotografei tudo. Eu estou indo pra lá e pra cá com isso, não sei se boto o pé no acelerador, se exponho isso. Esse é um trabalho que, de uma certa forma me impulsiona, de outra me faz recuar. Eu vivo esse dilema, porque é uma coisa que não só expõe a mim.

E o outro é esse Retratos que um dia fiz. Tenho pela frente uma perspectiva de montagem de uma grande retrospectiva minha.

E em termos de desafio, tem algum no teu horizonte?

Um grande desafio pra mim é dar uma internacionalizada no meu trabalho. Aqui eu já fiz tudo. Pergunta uma coisa que eu já não tenha feito dentro desse mercado. Os trabalhos autorais vão se sucedendo, eles aparecem. Eu vi o Chico Buarque dizendo isso, que ele precisa se esvaziar de um trabalho para que o outro entre. Eu convivo com muitos; muitas ideias, mas, pra se estabelecer uma, eu preciso estar mais vazio.

Eu penso que esse é um medo que eu não tenho. O medo do poeta, do escritor em frente a folha em branco. Essa angústia eu não tenho, porque sei que vai rolar alguma ideia, eu vou fazer e realizar. Outras angústias me afligem, mas essa especificamente, não.

Do que você tem medo?

De acontecer alguma coisa com alguém muito próximo. Minhas filhas, minha mulher, meus amigos. Eu só perdi meu pai e minha mãe de gente próxima. Nunca perdi um amigo. Esse é um medo.

E profissionalmente?

Eu tenho medo de que ninguém mais me queira. De que eu não tenha mais o espaço que eu tenho. Tenho um espaço muito grande, sou muito privilegiado.

Você acabou resistindo. Porque muitos dos seus colegas…

Eu acho chato falar isso de mim, mas acho que sou um… um resistente mesmo, um caso quase único no Brasil. Fora do Brasil eu acho que os fotógrafos são mais longevos. Nós não chegamos nessa geração ainda – talvez eu esteja encabeçando ela – que possa durar até os 80 anos trabalhando como (Richard) Avedon durou. Se eu estiver vivo eu acho que vou estar trabalhando.

Curiosamente, ano passado foi um ano muito prolífico pra mim, em todos os aspectos. Tanto comercialmente, como de possibilidades. Foi um ano que eu trabalhei muito, e eu estou com 62 anos.

A mídia mudou? Mudou. Mas alguém ainda está precisando de fotografia pra fazer alguma coisa. Mesmo que seja para o Instagram. Porque o cara quer associar meu nome ao trabalho dele.

Um fotógrafo amador é capaz de fazer uma puta foto?

Eu acho que a diferença de um bom fotógrafo pra um que não é, é a constância. Todo mundo é capaz de fazer uma grande foto. O negócio é você ter uma constância, você ter um trabalho, você ter um bloco; aí diferencia um fotógrafo do outro.

Eu gosto muito dessas analogias com futebol, porque eu gosto muito de futebol. Tem jogadores que fazem jogadas brilhantes, e acabou; jogou aquela ali, não vai jogar nunca mais. Então, assim, não tem fórmula, mas eu acho que você precisa ter uma consistência. A durabilidade é um sinônimo de consistência.

O que é o judaísmo pra você?

Pra mim o judaísmo é uma identidade. Eu sou muito identificado com uma vertente do judaísmo, que seria essa vertente mais integracionista, mais progressista, mais cultural, mais dessa linha do pensamento.

É uma tradição ter fotógrafos judeus. O (Richard) Avedon era judeu, o (Irving) Penn era judeu, o Milton (Greene) era judeu. Essa tríade. A Annie Leibovitz é judia. Steven Meisel é judeu. O Robert Capa era judeu.

Isso não é ser superior, não estou falando da superioridade em ser judeu, nem acredito nisso. Mas eu, curiosamente fui criado num gueto judaico no Bom Retiro, e até os dez anos de idade, o mundo era judeu pra mim, todo mundo era judeu. Porque eu vivia no Bom Retiro, estudava na escola israelita. Os meus iguais todos eram judeus. Obviamente tinha pessoas que trabalhavam na minha casa que não eram judias, e eu sabia. Mas, as pessoas do nosso convívio eram todos judeus. Quando eu fiz 10 anos, eu saí do Bom Retiro e fui estudar num colégio estadual. Eu achava as pessoas estranhas, era a etnia diferente.

Talvez por ter vivido em um gueto, eu nunca pertenci a gueto nenhum. Inclusive, em fotografia há muitos guetos: o gueto dos fotojornalistas, dos fotógrafos de moda; esses sindicatos, essas associações. Eu sempre fui muito independente. Talvez por isso eu possa circular como eu circulo por essas áreas todas. Porque eu nunca me ative a ser de clube nenhum.

Meu pai era da diretoria da Casa do Povo (associação cultural fundada pela comunidade judaica no Bom Retiro, em 1946), minhas tias, minha família toda. E todo mundo tinha um pensamento antissionista.

Antissionista? Anti Israel?

De uma certa forma, sim. Em algum momento, sim. Até a Guerra dos Seis Dias, a posição desse grupo era a favor dos árabes. Hoje não é assim.

Hoje em dia, ser de esquerda é ser contra o Netanyahu.

Acho que agora nem dá pra ser contra Israel. Israel é uma realidade. Agora precisamos lidar com isso.