Um apelo à esperança
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Um apelo à esperança

Morris Kachani

27 de outubro de 2018 | 11h41

Por Juliana Cunha Lima Neves

No próximo domingo, elegeremos o novo presidente da República, em um pleito que entra para a história. Euforia, paralisia e medo tomaram conta do país, mas há quem veja, a despeito do resultado do dia 28 de outubro, no turbilhão da crise, uma brecha de possibilidades, uma esperança.

A professora de antropologia da USP, global scholar em Princeton e autora de “Brasil: uma biografia”, “Lima Barreto, triste visionário”, entre outros livros sobre a história do Brasil, Lilia Moritz Schwarcz, liderou, nesse segundo turno, um movimento pela união de uma frente progressista comprometida em garantir os direitos democráticos conquistados e logrados, ao longo de 30 anos, no Brasil.

O manifesto suprapartidário “Por uma Frente Progressista do tamanho do Brasil”, escrito por Lilia, já conta com mais de 24 mil assinaturas, reunindo nomes como José Carlos Dias, Eduardo Giannetti, Boris Fausto, entre outros.

O texto considera que a omissão de lideranças progressistas e intelectuais pode levar o país a uma escalada autoritária, e pede aos indecisos que se posicionem. “Eleição não é self service ou menu à la carte. Eleição é prato fixo, você é obrigado a escolher entre um e outro. Não escolhendo, você está escolhendo. Ninguém me convence do contrário”, afirma Schwarcz.

“Empresários dizem coisas do tipo ‘eu não posso de maneira alguma eleger o PT novamente’. O próprio Ciro Gomes deu seu apoio crítico e foi para a Europa. A Marina declarou apoio crítico apenas seis dias antes das eleições. Fernando Henrique Cardoso dá respostas muito ambivalentes. E tem toda uma população de centro e centro-direita que não quer o PT de jeito nenhum. Que acha que o voto neutro significa lavar as mãos. A ideia de lavar as mãos é muito forte. É como se a pessoa fizesse uma política de avestruz. Se eu não olhar, não está acontecendo nada”.

“De outro lado, a culpa é do próprio PT que agiu com muita soberba achando que venceria as eleições com facilidade. O que os números não mostram. Nesse sentido, o PT falhou sim em construir uma frente progressista e democrática”.

No caso de derrota, também há esperança. Lilia não esmorece:

“A crise pode fazer com que nós, se perdermos essa eleição – e digo um nós categórico e grande que inclui aqueles que vão votar no Haddad e os que vão se abster e anular, porque não expressam também a vontade de votar no Bolsonaro –,  teremos que fazer uma avaliação. Não acho que é só o PT que tem que fazer uma autocrítica”.

“Essa avaliação pode produzir uma oposição positiva e progressista. Espero que essa frente consiga fazer uma oposição que garanta a manutenção dos direitos que logramos nesse período. A ideia é formar uma frente progressista do tamanho do Brasil, que possa ficar unida no day after. Essa é uma questão muito importante. Como é que vamos amanhecer depois do dia 28 de outubro”.

O que dizer sobre estas eleições?    

Houve novidades nessas eleições. Em primeiro lugar, a eleição foi conquistada nas redes, depois, foram para o segundo turno dois candidatos com grande rejeição. Além disso, não se mensurou o tamanho da resposta visceral ao PT, que ganhou forma pela ideia do antipetismo. Empresários dizem coisas do tipo “eu não posso de maneira alguma eleger o PT novamente”. O próprio Ciro Gomes deu seu apoio crítico e foi para a Europa. A Marina declarou apoio crítico apenas seis dias antes das eleições. Fernando Henrique Cardoso dá respostas muito ambivalentes. E tem toda uma população de centro e centro-direita que não quer o PT de jeito nenhum. Que acha que o voto neutro significa lavar as mãos.

Eleição não é self service ou menu à la carte. Eleição é prato fixo. Você é obrigado a escolher entre um ou outro. Não escolhendo, você está escolhendo. Ninguém me convence do contrário.

O que vai ficando claro é que o Brasil tem um eleitorado conservador, que joga muito pesado considerando PT e PSL farinhas do mesmo saco. Não são.

A presidente Dilma passou pelo impeachment, o presidente de honra do PT está na prisão, sofrendo uma série de processos, e em nenhum momento se falou em dar um golpe. O filho do Bolsonaro e o próprio Bolsonaro falam em alto golpe o tempo todo. Os generais que fazem parte do grupo da assistência a Jair Bolsonaro se referem à ideia de inflar o Judiciário para ter juízes favoráveis ao PSL.

Eu desci do Masp e cai na passeata na fala de Bolsonaro e as palavras de ordem eram terríveis. Eles mencionaram um a um os ministros do Judiciário e para todos diziam “vai tomar no cu”. Havia um carro em que estava escrito supremacismo branco. As pessoas tinham nas suas camisetas a palavra mito ou líder supremo. Quando me dei conta da situação, disse: já vi esse filme. E acho que esse voto de abstenção é tremendamente conservador. Não me refiro só aos líderes políticos, mas também à população brasileira que vira e mexe mostra sua feição conservadora.

Há uma geração que foi responsável e muito ativa na redemocratização do Brasil. Mas que, nesse processo, demonstrou pouco empenho no combate à ameaça da democracia que ajudaram a construir. É apenas o conservadorismo que explica esse posicionamento?

Não, é um antipetismo visceral também. Essa mania de colocar o problema nas costas de outro. Inclusive se o Bolsonaro ganhar a culpa será do PT. E não é que botaram pouco empenho – não mostraram empenho. A ideia de lavar as mãos é muito forte. É como se a pessoa fizesse uma política de avestruz. Se eu não olhar, não está acontecendo nada.

E tem a lógica das elites e do mercado financeiro. Sabemos que a lógica do mercado financeiro tem razões que a própria razão desconhece. O mercado financeiro apoia o candidato que garantir o dólar estabilizado e a bolsa minimamente controlada, sem se preocupar com o que esse candidato significa para esse processo democrático.

O Haddad também falhou na composição de uma frente democrática. Por que? O que significa esse apoio crítico que o PT recebeu?

O Ciro e a Marina devem explicar melhor o que é esse apoio crítico. Eu penso que eles inventaram essa ideia como uma forma de não fazer feio apoiando um candidato como Bolsonaro, mas também não dando efetivamente o apoio necessário ao PT. Nesse sentido, o PT falhou sim em construir uma frente progressista e democrática. De um lado, a culpa é do próprio PT que agiu com muita soberba achando que venceria as eleições com facilidade. O que os números não mostram. Vamos ver o que vai ocorrer no domingo. De outro lado, os demais políticos foram também contaminados por esse antipetismo visceral. Esse é o momento de partilharmos essa falha e, após o dia 28, quando o candidato será eleito democraticamente pelas urnas, teremos que cobrar dele os valores democráticos que são a liberdade, a igualdade e a conquista de direitos.

O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – CRUSP – foi pichado com suásticas, intelectuais têm sido alvo de ameaças, alunos têm intimidado professores, e ontem houve uma operação da PF nas universidades sem precedentes. Tudo isso antes mesmo da confirmação do resultado das eleições presidenciais. Na hipótese de Jair Bolsonaro ganhar a disputa, como fica o futuro da universidade no Brasil?

Vamos passar por momentos difíceis. Mas, acho muito difícil o governo do PSL fechar as universidades já abertas. Os tempos serão complicados e de recessão de nossos direitos. Não me parece que seja projeto do PSL incentivar a educação, o ensino universitário de ponta distribuído pelo país. Ao contrário, o PSL tem por objetivo criar escolas militares, acabar com o método Paulo Freire cujo projeto era a educação para adultos. Fazer do brasileiro um povo alfabetizado, letrado e leitor. E tem também a ladainha da escola sem partido. Toda escola é com partido. Não adianta, todos nós temos os nossos valores. O que o documento de educação do PSL expressa é a militarização do ensino e a defesa de um retrocesso na agenda da educação brasileira.

Direitos conquistados não são direitos ganhos. Porque direitos fazem sempre parte de processos de luta. Esses 30 anos de governos de centro e de esquerda produziram um sistema educacional espraiado por todo país. Então é muito difícil dizer vou fechar, acabar com esse sistema. Ele vai trazer mais dificuldades. Provavelmente, não vai dar verbas.

Então nossas instituições são fortes o suficiente para superar essas possíveis dificuldades?

Não. Significa que nós teremos que fazer de nossas instituições, instituições fortes. Vamos ter que clamar por cidadania. Ou seja, não poderemos contar com o Estado como contávamos. Esse Brasil vai pedir de nós muita cidadania.

E a cultura, como fica?

Não me parece que essa seja uma prioridade do governo Bolsonaro. Mas, vamos ter que aguardar. Minha esperança é que o Bolsonaro adotou uma estratégia de campanha que Le Bon, já no século XIX, chamava de política de multidões. Ele fala frases curtas e de efeito, grita muito, usa palavras de ordem, mas vai ser o primeiro candidato a ganhar uma eleição deitado. Ele não dialoga.

Como presidente não poderá se valer o tempo todo desse tipo de desculpa. O que chamo de pequena janela é a possibilidade de existir um espaço entre o Bolsonaro candidato a presidente, que fala frases de efeito, e o Bolsonaro que se vier a ocupar o posto mais importante do Executivo, será obrigado a negociar.

Passa pelo mundo uma onda conservadora. O fenômeno Jair Bolsonaro é o mesmo que elegeu Donald Trump?

Nunca é o mesmo. Essa onda conservadora que tem varrido o Brasil, criou estados autoritários na Hungria, na Polônia, na Rússia. Países como Holanda e Suécia tem agora partidos de extrema direita. Essa é uma tendência internacional e um de seus símbolos mais fortes é Donald Trump. A situação do Brasil e dos EUA é semelhante, no que se refere a guinada conservadora e de extrema direita. Mas, tem características distintas.

Em primeiro lugar, os EUA têm uma organização federal, cada estado tem autonomia, isso faz muita diferença no papel do Executivo. Aqui no Brasil, o presidente é o presidente dos estados unidos do Brasil. Em segundo lugar, Donald Trump ingressou em um partido constituído. O Partido Republicano é um partido sólido e que tem políticos sólidos. Eu não sou contra a direita. O jogo político é sempre um jogo com a diferença. Acho também que direitas e esquerdas esclarecidas são muito importantes para o jogo democrático. O problema é a direita ou a esquerda autoritárias e radicais. Se Trump é uma direita radical, não diria o mesmo do Partido Republicano. Já o PSL é um partido de empréstimo, que não existe, que vai se constituir agora com essa enxurrada de votos que recebeu. Em terceiro lugar, Trump não tinha uma carreira na política. Ele é novo na política e fala do lugar do empresário. Diferente do Jair Bolsonaro que se apresenta como novo e é absolutamente velho. É novo no executivo, o que é um problema. Além de tudo, ele é um militar e defende valores militares. Se existem semelhanças nessa guinada conservadora, a situação de Trump e Bolsonaro é muito distinta.

Estamos mais próximos da Turquia e Filipinas, ou nosso caso é particular?

Nosso caso é particular e não podemos achar nada. Vou usar uma frase do conselheiro Aires do Machado de Assis, que gosto muito: “as coisas só são previsíveis quando já aconteceram”. Então falamos das Filipinas porque já aconteceu. A gente vai conseguir ver o que é de fato Bolsonaro se ele for eleito e quando assumir o Executivo. Não gosto de projeções futuristas e, nesse momento que vivemos, quem diz que sabe está enganado. Eu prefiro aguardar. Ver para crer.

Seu artigo “Como e porque vou votar nesse segundo turno”, publicado no Nexo em 22 de outubro, termina com um apelo à esperança: “nosso maior inimigo é e sempre será a falta de esperança”.

Durante a ditadura militar coisas muito importantes aconteceram. Dentre elas, a luta constante pelos direitos. Não teríamos a Constituição de 1988 se não tivéssemos formado uma frente progressista, democrática, que demandou direitos mesmo de um governo que discordava.

O sentido original de democracia é governo do povo. Uma das formas de se exercer a democracia é pelo voto do povo. Se a gente seguir esse primeiro conceito, que vem da antiguidade, e “se” confirmar a situação que as pesquisas vêm indicando, vamos colocar um “se” bem grande, porque tudo pode acontecer até o último momento.  Mas, se confirmar as pesquisas, Bolsonaro terá vencido pelo voto dos brasileiros. Esse é um dado inegável e que vamos ter que conviver e inclusive partilhar, não exatamente da culpa, mas desse dolo.

Todos nós assistimos as palavras de Bolsonaro na ocasião do impeachment da presidente Dilma quando elogiou o general Ustra, que já era condenado pelo nosso poder jurídico. Todos nós vimos e não reagimos. Todos nós vimos as manifestações de 2013 e preferimos exaltar o ar de novidade que havia lá, e não analisar com cuidado como já se formava naquele momento várias frentes. Todos nós vimos a construção de um antipetismo muito forte cujo momento chave foi no pós impeachment. Todos nós vimos a importância do Judiciário com a Lava Jato, mas também a politização da Lava Jato que não teve a mesma agilidade e vontade política de agir democraticamente para com todos.

Trata-se de uma eleição lograda em um processo democrático. Parte significativa dos brasileiros votarão nesse contexto e o que teremos que fazer, nós que possivelmente vamos perder esse pleito, é partir para uma oposição democrática, é conseguir fazer, o que não conseguimos até agora, que é somar uma grande frente de pessoas que acreditam nos valores de fato democráticos e progressistas.

Pode ser uma contradição dizer que teremos um processo democrático e, ao mesmo tempo, falar que precisaremos fazer uma frente com valores democráticos. Mas o que estou querendo dizer é que o jogo da eleição, democraticamente, não está em questão. O que está em questão é a qualidade da democracia proposta pelo presidenciável do PSL. Isso a gente não pode negar. Qual é a qualidade da democracia expressa pelo PSL, que no seu documento oficial se mostra homofóbico, contra as reservas indígenas e quilombolas e as ONGS voltadas para os direitos humanos?

O que está em questão é que teremos que lutar pela manutenção dos direitos, que conseguimos lograr durante esses 30 anos de democracia plena.

Parte dos brasileiros está tomada de “angústia cívica” e se prepara para o “day after”. Além da esperança, você mencionou no artigo que podemos nos agarrar à brecha de possibilidades, que toda crise abre. Na prática, o que isso significa?

A crise pode fazer com que nós, se perdermos essa eleição – e digo um nós categórico e grande que inclui aqueles que vão votar no Haddad e os que vão se abster e anular, porque não expressam também a vontade de votar no Bolsonaro –,  teremos que fazer uma avaliação. Não acho que é só o PT que tem que fazer uma autocrítica.

A crise pode propiciar uma avaliação profunda sobre os caminhos da democracia no Brasil e do que ocorreu para elegermos um candidato de extrema direita como Jair Bolsonaro. Outra possibilidade é que essa avaliação leve aqueles que não acreditam em um candidato como Jair Bolsonaro a produzir uma oposição positiva e progressista. E que essa frente consiga fazer uma oposição que garanta a manutenção dos direitos que logramos nesse período. A ideia é formar uma frente progressista do tamanho do Brasil, que possa ficar unida no day after. Essa é uma questão muito importante. Como é que vamos amanhecer depois do dia 28 de outubro.

Como autora de “Brasil: uma biografia”, qual a sua compreensão, em perspectiva histórica, desse momento político e do fenômeno Bolsonaro? Isso era previsível?

Não. Tanto que fizemos uma conclusão nova. Em 2014, quando terminamos de escrever, dissemos que a democracia parecia consolidada e que a república continuava falha por conta justamente dos feminicídios, do tratamento à população LGBT, dos racismos.

Depois do impeachment escrevemos uma nova conclusão. Não só a república continua falha como a democracia não estava consolidada. As manifestações de 2013 traziam um grupo de ativistas que pedia inovações na política, que pedia um Brasil de direitos, mas não vimos que as avenidas já estavam divididas.

Tinha um ativismo patriótico, cívico, que guardava uma composição heterogênea. Porque não acho que o voto em Bolsonaro é homogêneo. Havia já uma composição de direita heterogênea e um ressentimento em relação ao PT, que foi se agigantando.

Fizemos essa nova conclusão falando, ‘nós erramos’, e não vimos esse fenômeno que aparecia na divisão da avenida, quem desfilava e o que é que as pessoas pediam. Acho que os setores progressistas, democráticos, não prestaram atenção para a onda conservadora que estava se voltado contra o Brasil e o papel de Bolsonaro como aquele que ia surfar nela.

Que título daria a um “próximo” capítulo dedicado a essa etapa da história política brasileira?       

Eu prefiro não dar, porque ainda não acabou essa etapa. Eu não quero ser prematura. Acho que a gente vai ter que falar disso dia 29, no “day after”. Antes não vou escrever e dar título para esse capítulo.

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