Uma celebridade dos nossos tempos
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Uma celebridade dos nossos tempos

Morris Kachani

28 de março de 2019 | 17h27

Em maio do ano passado, a policial Katia Sastre ficou nacionalmente conhecida, em um vídeo que viralizou, mostrando sua reação a uma tentativa de assalto na porta da escola de sua filha, em pleno dia das mães. Katia agiu com destreza, imobilizando o bandido, Fabio Luiz Venturi, com três tiros, o que acabaria por matá-lo.

O feito chegou a ser homenageado pelo então governador Márcio França, que elogiou a coragem, a rapidez e a técnica da policial na ação. Ao mesmo tempo, foi criticado por entidades de direitos humanos, que viram nele a possibilidade de que outras pessoas que estavam por perto – mães e filhos – se ferissem ou morressem por acidente. Ainda houve quem questionasse se três tiros eram necessários.

O primeiro tiro de Katia tinha pouca chance de atingir outras pessoas (foi quase à queima roupa) mas o bandido estava com a arma apontada e poderia ter atirado nela, em outras mães e até nas crianças (de propósito ou como reação involuntária pelo impacto).

Katia, que é evangélica, acredita que Deus estava presente naquele momento. “Eu acredito que, se não fosse a mão de Deus naquele momento, teria acontecido coisa pior”.

A glorificação que se fez do caso, a exaltação de uma pessoa matando outra e a condecoração que Kátia recebeu, se tornaram objeto de debate.

Por fim, Katia, aos 42 anos, acabou se elegendo deputada federal pelo PR com mais de 250 mil votos, com direito a foto ao lado de Bolsonaro e a polêmica exibição do vídeo de sua reação na escola, em horário eleitoral.

Coincidência ou não, a reação de Katia aconteceu na mesma Suzano onde se deu o massacre da escola Raul Brasil. Kátia, a propósito, foi aluna da vida toda desta escola.

Decidi então procurá-la para falar um pouco sobre o encadeamento destes fatos, na eterna tentativa de perscrutar o inconsciente coletivo da Nação.

“Isso serviu de exemplo para muitas crianças. Quando vou a um lugar público, as mães me abordam dizendo que os filhos querem tirar foto comigo”.

*

Quando eu soube da tragédia de Suzano, em algum momento lembrei de sua reação ao assalto no ano passado, e fiquei meu perguntando – por mais que sejam situações completamente diferentes, se existe alguma conexão entre elas.

São duas situações críticas. Como você falou, são diferentes, mas as duas envolvem vidas do mesmo jeito. Graças a Deus, na situação que aconteceu comigo consegui evitar que outras pessoas de bem fossem atingidas, prejudicadas. Quanto à escola em Suzano, infelizmente não tinha uma pessoa preparada pra isso. Se tivesse, com certeza teria evitado muita coisa.

Porque as duas situações aconteceram em um contexto envolvendo escolas e crianças, na mesma cidade.

Crianças indefesas, não só pela idade, mas pela experiência de vida, até mesmo para conseguir tomar qualquer tipo de atitude, ter uma reação.

E você estudou na escola Raul Brasil, onde ocorreu a tragédia.

Quase a vida toda. Sai de lá para a faculdade. Muitos filhos e sobrinhos de amigas minhas estavam lá naquele dia.

O que você tem a dizer sobre a escola?

A escola é muito boa. Uma escola exemplo, das primeiras de Suzano. Minha passagem por lá foi ótima, os funcionários sempre foram ótimos, era uma escola muito acolhedora. Como o município não é muito grande, as pessoas se conhecem por lá da vida toda. A gente costuma se falar, se encontrar; mantenho as amizades da escola até hoje. É uma boa lembrança.

Você fez ronda por muito tempo em Suzano, não?

Quando me formei, em 1998, era policiamento feminino na época, havia os batalhões femininos, dos quais fazia parte.

Daí consegui minha transferência para um batalhão masculino, então fui trabalhar em Suzano. Fiquei lá até 2004; depois saí e fui para um batalhão de engenharia, onde fiscalizei obras da Polícia Militar por 12 anos.

O que você tem a dizer sobre o massacre?

É uma situação que chocou todos nós, de uma tristeza imensurável. Costumo falar daquela sensação de impotência, de querer estar lá pra conseguir evitar. Mas, infelizmente não podemos estar em todos lugares.

Agora estamos tentando tomar as medidas para que não venha a ocorrer novamente. Lógico que tem coisas que são inevitáveis. É impossível conseguir manter esse tipo de segurança em todos lugares ao mesmo tempo, mas estamos tentando.

Qual seria sua explicação para o que aconteceu?

Nossa segurança pública está muito precária. Acredito que a eleição de inúmeros policiais e militares para cargos de deputados e prefeitos, se deve ao clamor da população por segurança pública. A gente sabe que está precário, a gente sabe que é um ponto que precisamos de muita atenção, de muita reforma, de muita atuação, e foi pra isso que viemos. Infelizmente, não conseguimos mudar tudo da noite pra o dia.

Isso faz parte também da educação, da estrutura da família. Existem projetos que envolvem família; detectar a criança que está com problema, até mesmo com violência doméstica, com drogas. A gente precisa estruturar tudo isso, essa base da família, da educação, pra gente conseguir ter pessoas melhores no futuro.

Sobre o perfil dos alunos, são muitos com precedentes de violência doméstica ou drogas?

Eu não posso dizer pra você que aquela escola tinha precedentes, mas a gente sabe que isso está se alastrando. Passaram-se anos e anos com uma falta de controle muito grande, uma falta de projetos.

Existe o projeto PROERD (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), que é um curso ministrado por militares nas escolas. Fala sobre a prevenção de drogas, violência, e os alunos se interessam muito.

Só que a gente precisaria que esse projeto fosse para todas as escolas. Infelizmente, a direção tem que querer o projeto na escola, porque ele identifica muitas crianças com problemas. E muitas vezes tem diretoras que são de oposição, de esquerda, e não aceitam esse curso nas escolas.

Um projeto com a própria polícia ministrando aulas.

Esse projeto é da Polícia Militar, quem ministra as aulas são os militares. O militar vai até a escola e dá aula. Fazem formatura no fim do ano, as crianças amam usar a camiseta dos policiais.

Uma das minhas propostas é justamente estruturar melhor esse projeto para que não fique só em sala de aula, e que o policial que dê aula do PROERD, que ele consiga identificar aquele aluno com problema, e que ele consiga tratar da família também. Porque tratando da família, você consegue melhorar a educação e a estrutura deles.

O que você acha que levou os assassinos de Suzano a agir daquela maneira? Existe uma cultura de violência?

Em decorrência disso já conseguiram identificar alunos em outros estados que têm perfil parecido. Mas não podemos generalizar, não é uma onda de terroristas. Acontecem crimes em Suzano com acontecem em todos lugares.

No meu caso, foi um roubo. Claro que não sabemos qual seria a consequência disso. O bandido poderia ter entrado na escola se eu não tivesse já barrado ele ali. Mas é um fato isolado, não é comum isso por lá, e vamos lutar para que não seja.

A sua cena imobilizando a pessoa, você acha que é bom uma cena como essa ser divulgada?

Ali é um caso de legítima defesa. Segui todos os procedimentos de segurança.

Há pouco tempo vimos o caso de um policial vítima de roubo que atingiu o rapaz, mas não o imobilizou; ele acertou o bandido, sentou na calçada – porque também estava atingido – e foi ligar para pedir apoio. O bandido levantou, pegou a arma dele e matou o policial com um tiro na cabeça.

Ele não foi verificar se o bandido estava completamente imobilizado, se ele possuía outra arma. Esse procedimento foi para minha segurança e para as pessoas que estavam ali perto. Ele poderia ter atingido alguém, ele poderia ter matado alguma criança.

Foram 3 tiros.

Nosso procedimento diz que são dois tiros sequenciais. Mas ele não largou a arma, continuou com ela apontada pra mim, e com reações e falas. Então, eu tive que dar o terceiro, porque ele atirou, mas graças a Deus não acertou em mim. Um tiro dele saiu e outro falhou.

O que fiz foi tirar a arma que estava em sua mão, virá-lo de costas e ficar naquela posição até chegar apoio. Sozinha eu corria risco em revistá-lo, então permaneci naquela posição.

Não tenho como te falar quando ele atirou, porque a ação foi muito rápida, muita gritaria. Atirei nele quando ele estava em pé com a arma apontada para o meu peito. Foi muito rápido. Quando eu falei que era policial, ele virou a arma engatilhada pra mim, foi simultâneo, ele atirou e eu atirei. Dei o terceiro tiro foi pra ele largar a arma.

Você acha que a publicização do evento, o vídeo ficar aparecendo na televisão, você ter sido homenageada pelo governador, até ter sido eleita por conta disso, será que contribui com uma cultura de não-violência?

Acho que isso contribui com um maior número de pessoas preocupadas e comprometidas com segurança pública. O que nós que fomos candidatos sentimos é que a população pediu por isso. Não aguentamos mais sermos vítimas e não podermos fazer nada. Eles apostaram num maior número de policiais, para que a gente consiga mudar essa segurança precária.

Depois que você soube que o assaltante morreu… como é a sensação de saber que matou alguém?

Não é sensação de matar alguém. Naquele momento que eu consegui paralisá-lo, é a sensação de dever cumprido. Nenhuma atitude nossa é pra matar alguém, mas sim pra interromper aquela ação. Por isso falamos que é legítima defesa.

Sentimentalmente não fica nada?

Olha, acredito muito em Deus, acredito que Deus estava presente naquele momento. São ações e reações. Eu não saí da minha casa pra ir lá na casa dele matá-lo. A gente estava na porta de uma escola, dia das mães; eu acredito que, se não fosse a mão de Deus naquele momento, teria acontecido coisa pior.

Quando a pessoa sai pra cometer um crime, ela tem a consciência que ela vai matar ou morrer. Ela sabe disso. O que fiz foi preservar a vida das pessoas, das crianças e a minha.

Voltando à tragédia na escola, você consegue ter uma explicação para o ato dos caras?

Não. Estão estudando a forma como eles agiram, a razão. É uma situação muito difícil, porque, como explicar uma pessoa que programa uma atrocidade daquelas? Acho que é falta de cultura, de estrutura familiar, de educação. Por isso que eu volto a dizer, a gente precisa de um programa que seja estruturado, reforçado, para atingir essas crianças, detectar os problemas delas e tratá-los.

Quando cenas de violência em geral aparecem demais na TV e internet, isso não pode funcionar como influência para mais gente agir como agiram os matadores na semana passada? Um programa como o do Datena educa ou deseduca?

Nós temos que saber a realidade dos fatos. Mas aí é questão de cultura e educação. Eu tenho uma filha de 3 e uma de 8, eu monitoro o que elas estão assistindo. Elas sabem da realidade, sempre deixei elas a par, sempre as preparei: “olha filha, a gente pode estar parada no farol, pode vir um homem mau e tentar roubar a gente, você tem que seguir as instruções que a mamãe está falando; se a mamãe falar pra você deitar no chão, você deita”.

Elas têm que estar cientes do que pode acontecer porque é o mundo que a gente vive, mas ao mesmo tempo você precisa monitorar o seu filho. Eu olho o histórico do que ela está assistindo, eu programo o que elas vão assistir na televisão. Isso tudo faz parte da responsabilidade dos pais, do limite que eles têm que impor.

Sua filha testemunhou a cena. Ela estava com você.

No momento, quando eu entrei na escola pra falar com ela, ela estava chorando bastante. É normal, uma criança, tudo aquilo é traumático pra ela; então falei: “filha, você lembra das orientações da mamãe? Lembra que eu falei que quando viesse um homem mau, que era pra você tomar essa atitude, que a mamãe ia ter que reagir pra defender você?”. Ela falou que lembrava. “Foi exatamente isso que aconteceu. Então fica calma, está tudo certo”. E pronto. Se acalmou.

Claro que a gente precisa fazer uma avaliação psicológica, porque é uma criança, precisamos ter esse cuidado. Mas ela está bem, super tranquila.

Logo em seguida, quando íamos passear ou algo do tipo, ela comentava: “Mamãe, será que vai ter algum bandido aqui?”. Mas a gente seguiu conversando, lidando com a situação, demonstrando segurança.

É isso que eu falo, as crianças têm que saber o que acontece, mas de uma forma que você passe segurança, mostre o lado bom e o lado ruim, e que ela sempre tem que estar do lado bom.

Minha dúvida é se a exibição de uma imagem dessas é exemplar para uma criança.

A criança tem que saber quem está do lado do bem e do mal. Minha filha sabe que estamos do lado do bem.

Recebi muitas mensagens na época da eleição: “vou votar em você porque meus filhos pediram”. Muitas. “Minha filha quer te conhecer, ser igual a você”.

Esse movimento das crianças foi intenso. Elas viram que o lado bom deu certo, isso serviu de exemplo para muitas crianças. Quando vou a um lugar público, as mães me abordam dizendo que os filhos querem tirar foto comigo.

Claro, você não quer que seu filho fique vendo constantemente uma violência, mas se ele viu? Ótimo. Ele já conhece o lado bom e o lado mau. Já sabe que a violência partiu do ladrão e não da pessoa de bem. Eles têm que ter essa consciência.

Quando comentamos a tragédia de Suzano, você disse ter sentido impotência por não estar lá – ou alguém que pudesse deter os dois. O Major Olímpio falou algo na linha de que faltou um professor, servente, ou diretor de colégio armado. Achei a fala infeliz. Esta não seria uma responsabilidade do Estado?

Não foi bem assim. Ele não falou exatamente que professores têm que estar armados. O que ele quis dizer, e que é uma coisa que eu também defendo, é que o cidadão tem que ter o direito de se defender, porque todos os ladrões e criminosos estão muito bem armados, melhor do que a polícia, e eles não tiram porte de arma, compram no mercado negro. E o cidadão não tem o direito de se defender, não tem o direito de comprar arma. Nenhum cidadão de bem vai lá comprar arma no mercado negro, ele quer que seja legalizado, quer ter um treinamento.

Foi isso que ele quiser dizer, que as pessoas têm que ter o direito de se defender.

A fala dele é: “Se tivesse cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, um policial militar aposentado, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia”.

O que ele quis dizer é que, pra essa pessoa ter um armamento, ela precisa ter um porte legalizado, um preparo, treinamento. E isso não é só o professor, o servente, é qualquer pessoa de bem, qualquer profissional. Ele tem que ter esse direito.

São duas situações onde foi provado que se uma pessoa tivesse armada, como no meu caso eu estava, que nada daquilo teria acontecido.

E digo mais, antes de chegar na escola, eles passaram numa loja de carros e um deles matou o tio, certo? Se naquele ato dele, alguém ali naquela loja de carros, um comprador ou funcionário, se alguém estivesse armado, eles nem teriam chegado na escola.

Um contraponto. Eu entrevistei o Ivan Marques, do Instituto Sou da Paz, que evidentemente é contra a flexibilização do porte. E ele falou assim: “tem muita briga de boteco em que as pessoas vão se matar ao invés de discutirem”.

O cidadão de bem tem a consciência e o preparo para o porte de arma.

Agora, vamos usar a violência contra as mulheres com exemplo. Quantas mulheres dessas que morreram foram mortas por arma de fogo? Que eu me recordo, dessas mais recentes, nenhuma. Foram queimadas, espancadas, esfaqueadas, jogadas da janela. Nenhuma dela foi por arma de fogo. O cara que quer matar não precisa de uma arma de fogo, ele mata.

Sobre o atentando na Nova Zelândia. A primeira ministra rapidamente anunciou mais controle no porte de armas, e mais recursos de segurança à disposição das escolas. Me pareceu lógico.

Vamos colocar uma situação em que você está dentro da sua casa e não tem nada pra se defender. Entra um cara armado e fala: “eu vou fazer tudo que tiver que fazer com a sua filha na sua frente e vou te matar depois”. Você não tem como se defender, não consegue, porque fisicamente você não vai conseguir se defender de um cara armado. Você gostaria de ter uma arma pra defender sua filha, ou simplesmente falaria pra ele: “olha, não faça isso”.

É que cada um tem seu repertório. Eu sou do princípio da não-violência.

Mas a pessoa está na sua casa e fala que vai fazer. Você querendo violência ou não. Você vai fazer o que pra ele, entregar um vaso de flor? Ou vai ter que reagir pra defender sua filha?

Me responde de coração. Eu sei que você é contra, mas fala de verdade, você ia defender sua filha?

Eu acho que ia defender de outras formas. Minha arma são as palavras, cada um tem a sua. Provavelmente eu me jogaria na frente de minha filha e lhes diria para levarem o que quisessem, mas sem nos machucar.

Se você estivesse dentro da escola Raul Brasil. Ia conversar com eles como? 

O ladrão que eu matei na porta da escola torturou um taxista por 20 dias e o matou queimado só pra roubar o carro dele. Você sabia disso? É assim que eles entram nas casas. Eu sou policial militar há 21 anos. O meu pai foi policial militar. Eu sei exatamente o que eles são capazes de fazer dentro de uma casa.

Se entra um cara drogado na sua casa, você vai conversar com ele como? Como você ia falar para aqueles caras da escola não fazerem aquilo?

Se nós que somos profissionais da segurança pública estamos dando oportunidade para as pessoas se defenderem, é porque a gente sabe das barbaridades que eles fazem.

Mais gente armada não significa mais gente morrendo? Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais constatou que 7 em cada 10 pessoas que reagem armadas, tomam tiro. Pesquisa do Sou da Paz mostra que 7 em cada 10 policiais mortos violentamente foram vitimados durante a folga, ao reagirem a assaltos. Você concorda que a chance da pessoa se defender e ser bem sucedida, como foi seu caso, é pequena?

Boa parte dos casos de morte de policiais em folga acontece não porque o policial reagiu. O bandido foi lá só para matar o policial. Muitos dos policiais sequer estão armados durante essa ação dos criminosos e foram mortos porque foram identificados, mesmo estando à paisana.

Segundo o gráfico do Mapa da Violência, o número de mortes por arma de fogo crescia 8,1% ao ano e depois do Estatuto do Desarmamento teve a primeira queda e cresceu 2,2% ao ano. Você acha que o estatuto do desarmamento não foi uma coisa boa?

Qual fonte? Essa fonte não existe.  A violência só cresceu até agora. Só pessoas de bem que morrem. São 60 mil mortes por arma de fogo ao ano.

 

 

 

 

 

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