Uma prosa com Jorge Kajuru

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Uma prosa com Jorge Kajuru

Morris Kachani

14 de fevereiro de 2019 | 19h09

Senhor presidente, merdas, cagadas, não voltam ao c…”

A biografia do senador Jorge Kajuru (PSB-GO) é extensa, e certamente daria um documentário divertido.

Assistindo este vídeo por exemplo https://www.youtube.com/watch?v=se6krmhPUQI, aprendemos que o ex-jornalista esportivo, chapa de Datena, Galisteu e Claudia Leitte, hoje no seu décimo primeiro casamento, chegou a viver recluso, nervoso, deprimido, sem sair do quarto, cinco dias sem dormir, tendo chegado a tomar 50 comprimidos de Dormonid e quase morrido; que perdeu uma parte considerável da visão, e que por conta do diabetes ficou impotente, o que o levou a implantar prótese de silicone no pênis. Que pagava ‘taxis de R$ 15 mil’ para ter relações com panicats e atrizes…

Personalidade folclórica, de Kajuru pode se falar tudo – menos que seja um sujeito com papas na língua. Ele já foi demitido ao vivo duas ou três vezes na TV. E a lista de desafetos e processos que enfileirou ao longo dos 58 anos de vida é vasta e diversa. Vai de Luciana Gimenez, Milton Neves, Boris Casoy, a Aécio Neves e o ex-governador Marconi Perillo.

Até outro dia, eu nem sabia que Kajuru tinha sido eleito senador. Ele ganhou as manchetes logo nos primeiros dias, quando decidiu consultar as redes sociais para definir seu voto à presidência do Senado. Quando fui pesquisar na internet e dei de cara com essa bela reportagem da Época, https://epoca.globo.com/recem-empossado-jorge-kajuru-chega-para-animar-festa-do-senado-23436162, ilustrada com um retrato seu, em que sobressaía uma armação de óculos metade redonda e metade quadrada, as lentes suavemente escurecidas, não tive mais dúvidas – precisava entrevistá-lo e quem sabe dar umas boas risadas.

Mas não só. Causou impressão saber de Kajuru que os ex-senadores Christovam Buarque, Pedro Simon e Heloísa Helena estão dando suporte para sua gestão, no trabalho de gabinete.

*

Fala mestraço!

E aí meu velho tudo bem? Gosto de entrevistar gente que fala o que pensa.

Hoje em dia no país isso é difícil.

Você tem um bom histórico nisso.

Convivi com gente como o Juca Kfouri, o Antero Greco, o Fernando Mitre no Jornal da Tarde. Convivi com o João Saldanha, histórico. Foi uma universidade pra mim. Ele morou comigo, acredita? Preferiu ficar no meu apartamento de dois quartos do que em um hotel chique. Por dois anos.

 Eu adorava o mau humor dele (risos).

O humor dele era impagável. Ele fazia o café da manhã pra mim. Rigorosamente, mamão com mel, ovo cozido e café. Ele dizia, “Kajuru, trejuru”. Não entendia o que era aquilo… Um dia me explicou. Eram os três minutos que levavam para o ovo ficar cozido (risos).

 Que time você torce?

 Palmeiras.

 Ah, você é palmeirense como eu?

Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca. Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. Edu, Cesar e Ney. Essa era a Academia. Treinador Oswaldo Brandão, preparador físico Hélio Mafia.

Time do Bolsonaro, também.

É… essa é a parte ruim né? (risos). Eu gosto dele. Bolsonaro pra mim é um brincalhão, eu conversei com ele pelo telefone, ri dele pra caramba e ele riu de mim ‘até’. Especialmente quando eu falei pra ele, “presidente, merdas, cagadas, não voltam ao cu” (risos).

Nossa, que diálogo mais ‘bonito’ entre um senador e um presidente. 

Ele me falou, “Kajuru, pára de me bater, você tá batendo em mim demais”. Era por conta desse negócio do Onyx. Você não lembra? O chefe da casa civil pediu perdão porque confessou que recebeu propina. Aí eu tava batendo no Bolsonaro por causa disso. E então o presidente por telefone falou comigo.

Vocês se falam com frequência?

Conversamos quando o Davi Alcolumbre falou comigo, ele foi pedir meu voto. Porque o presidente foi o maior cabo eleitoral do Davi, ele ligava quando o Davi estava com algum senador, tipo assim, pra fazer graça. Coisa armada, não sou bobo. Ele não ligou pra mim. Ele ligou porque sabia que eu estava com seu candidato.

Aí o Davi falou assim, “Presidente, adivinha com quem que eu tô aqui em Goiânia”. E ele respondeu, “Vai me dizer que é com aquele doido do Kajuru”. Exatamente, respondeu o Davi. “Deixa eu falar com ele”.

Tinha gente comigo, estava o filho do Datena que é meu afilhado, e estava também meu suplente, com as mulheres. Tudo no viva voz, Davi colocou no viva voz pra mostrar que ele era importante.

Aí eu peguei e falei, “senhor presidente, primeiro que doido o senhor também é, né presidente?”. Aí a gente deu risada e foi conversando, e ele falou, “pára de bater com essa história do Onyx, Kajuru, me ajuda. Você não vai me ajudar?”.

Vou ajudar sim, em tudo que for certo. Não vai ter só minha ajuda, vai ter meu aplauso”, respondi. “Agora, no que for errado, eu vou bater pesado. Você sabe que eu faço isso”.

Então ele pediu: “Kajuru, esquece essa história do Onyx?”.

Respondi, “Quem tem que esquecer é o senhor. Merdas, cagadas, não voltam ao cu” (risos). Antológico, não é?

Mas até a véspera, estava achando que o presidente apoiava o Renan. Circulou uma notícia de que ele só tinha ligado para o Renan, parabenizando o senador pela vitória na bancada de seu partido. Não tinha ligado para os outros.

Nada, mentira, candidatíssimo dele era o Davi. Ele nunca apoiou o Renan em nenhum momento. Ele ligava para os senadores em que o Davi ficava em dúvida, mestre. Davi foi o único candidato que visitou todos os Estados para pedir voto. Todos. 27 Estados. Pessoalmente, foi pedir votos. A campanha dele foi milionária, cá entre nós. A campanha dele foi de presidente da República.

Daí, quando ele tinha dúvida, diariamente tinha que prestar contas ao Bolsonaro. Ligava diariamente às 10, 11 da noite. Por exemplo, “Presidente, aqui em Goiás estou em dúvida no voto do Kajuru. Não senti firmeza não”. Daí ligava pro Kajuru no dia seguinte, pedindo voto pro Davi, em nome do Bolsonaro. Pediu voto pra muita gente. Muita gente mudou o voto poque o Bolsonaro pediu.

E você votou no Davi?

Eu declarei que votaria no José Reguffe, porém meus seguidores pediram pra mim votar diferente. Eu decidi inaugurar pela primeira vez no Senado uma nova forma de votar na história, em que quem vai votar são meus seguidores e os brasileiros, através de enquete em tempo real ao vivo na hora da votação, agora com a segurança do aplicativo. Para votar em minhas 30 redes sociais, com 9 milhões 123 mil seguidores, a pessoa precisa se cadastrar com o título de eleitor e zona eleitoral. Isso impede a intrusão de robôs. 

Você tem tempo de ficar alimentando suas redes sociais?

Tenho uma equipe né? Sem uma equipe você não existe. Isso eu aprendi com o João Saldanha. Estou em todas as redes que você imaginar. Facebook, Instagram, Pinterest, Linked in, Google Mais…

Por esses dias li um texto da Tabata Amaral (PDT) https://www.nexojornal.com.br/colunistas/tribuna/2019/Como-pretendo-renovar-de-fato-a-pol%C3%ADtica, eleita deputada federal, que faz parte do movimento de renovação da Câmara, comentando que consultar a rede social era bacana mas que em excesso corria o risco de trazer uma visão descolada da vida real. Ou não?

Não é não, ela é uma débil mental de rede social, não sabe nada. Eu mexo com isso há dez anos, que é isso? Hoje os seguidores discutem mais política do que futebol. Estão politizados, senadores como o Jarbas Vasconcelos (MDB) inclusive vieram falar pra mim, “Você pode contar com as redes porque tem 40 anos de TV, agora nós senadores não temos esse perfil perante a opinião pública. Então seu seguidor é confiável, o nosso não é. O nosso pode ser um adversário nosso”.

Qual o perfil do seu seguidor?

É de acordo com as urnas da eleição. Um terço não vota em ninguém, um terço é PT, e um terço e pouco é Bolsonaro. É bem dividido. É igual ao resultado da urna. Eu puxei a capivara de todos eles.

E o Alcolumbre pessoalmente, ele é um cara legal?

Ele é um cara articulado, um cara que trabalha igual dupla, que sabe ouvir, e é habilidoso. Conduziu esta questão das nomeações das comissões de uma forma que eu fiquei admirado. Esse cara vai longe na política, ele não é bobo não.

Interessante ouvir isso, porque geralmente quando fala que o político vem do baixo clero, como é o caso dele, a gente que tá de longe aqui fica um pouco assustado.

Mas ele é fraco de oratória. Ele não é culto. Ele nunca leu o Pequeno Príncipe né? Mas é um cara articulado. Ele mesmo fala, “Kajuru, pelo amor de Deus, eu queria ter a tua cultura. Cada pronunciamento seu é como se fosse uma aula”. Ele é muito humilde. Ele mesmo falou que não é chegado a leitura. Agora, politicamente é um cara muito preparado.

E o Renan?

Eu gosto dele. Liguei pra ele depois da eleição, e disse, “Renan, não vou te pisotear nunca, vou discordar de você sempre, mas para discordar não vou precisar desqualificá-lo. Agora, seguinte, reflita sobre os erros que cometeu. Você cometeu erros durante a campanha”. E no fim dei um conselho pra ele: “se você me permite um conselho respeitoso, seguinte, se aproxime mais da população, você está muito distante dela”.

Ele ficou muito puto?

Todo mundo sabe. Ele ficou arrasado, foi traído aos 44 do segundo tempo, tanto que até hoje não voltou ao Senado.  

Simbolicamente foi forte, é a primeira vez que o MDB ficou de fora.

Aquilo ali era uma capitania hereditária. Eu via o Senado assim. Não tem jeito, 4 mandatos, pelo amor de Deus.

Você chegou no Senado agora. O que está achando?

Ah, eu fico meio assustado com os exageros. Fico vendo minha sala, tenho vergonha de ficar lá.

Por que?

A minha sala é 3 vezes maior que meu quarto. Eu moro em um flat, onde pago R$ 2,2 mil por mês, e R$ 300 de lavanderia, porque evidentemente recusei os R$ 6 mil de auxílio moradia, e recusei morar naquele apartamento de senador, em que a sala parecia um campo de futebol. Assim como recusei todos os privilégios, registrei em cartório e mandei ofício para dona Ilana, que é a diretora do Senado e ficou surpresa. Eu recusei todos, até reforma de gabinete. Mandei apenas pintar a parede de branco.

Mas respeito meus colegas, cada um faz o que quer. Desde quando era vereador, eu abria mão de 100% do meu salário. Como senador abro mão de 50%, só que não devolvo para a corrupção, para o erário. Pego o dinheiro e documentalmente, com transmissão ao vivo pelas minhas redes sociais, dou para instituições sérias e reconhecidas no Estado de Goiás.

A verba mensal do gabinete é de quanto, mesmo?

Além do gabinete tem que acrescentar o escritório que cada senador mantém em seu Estado. Juntando tudo dá R$ 209 mil, por mês. O salário é de R$ 34 mil, bruto.

Como é o expediente? Na segunda-feira eu liguei pra 3 senadores e nenhum deles estava em Brasília.

Isso eu não sei. Só sei que na sexta eu trabalhei e era um dos 5 presentes. Eu usei a tribuna e assumi a presidência, por 45 minutos. Na segunda, só tinham 8. Única coisa que posso falar pra você é que senador turista, eu não vou ser. Os porteiros do Senado sabem, chego sempre antes das sete da manhã.

Que achou das eleições no Senado? Pra quem viu de longe, nem as crianças são capazes de agir de uma forma tão infantil.

A primeira noite, né, irmão? Eu falei no ar, usei a tribuna para dizer que estávamos caminhando para o báratro. Inclusive os senadores Tasso Jereissati, Fernando Collor e Jaques Wagner vieram depois humildemente me perguntar, o que isso significava. Báratro é o inferno, o precipício, o abismo, modéstia à parte fiz essa profecia. Depois o Collor comentou que nunca um senador havia brilhado tanto em sua estreia e conseguido calar a todos porque de fato todos olharam pra mim quando falei na tribuna.

Você já bateu boca com alguém?

Deixa eu ter relações sexuais com eles primeiro (risos), depois eu te conto, foram só seis dias. Mas eu não estou aqui pra arrumar intriga, estou aqui pra arrumar projetos pro meu Estado. Esse jogo não é meu.

Então qual é sua turma?

Minha turma é boa, estou em um bloco de 14 senadores, o maior de todos, que foi criado primeiro pelo Randolfe Rodrigues (Rede), seguido por mim. É o bloco Independente, eu que criei o nome. Lá só tem gente boa, tem a Leila do vôlei (PSB), a Simone Tebet (MDB) é admirável, a Daniella Ribeiro (Progressistas) da Paraíba, Soraya Thronike (PSL)… a merda nestas entrevistas é que se não cita um nome, a pessoa fica chateada.

E o Flávio Bolsonaro?

A imprensa fica tentando criar um desentendimento entre nós. Tentaram me jogar contra ele. Ele me respeita pra caramba. Ele já me disse, “Kajuru, coisa sua eu assino na hora”. Então se o cara me respeita, eu vou falar mal dele?

É que ele está em evidência…

Isso é problema da justiça, eu não sou juiz. O próprio pai falou e também o Mourão, que isso tem que ser investigado e que se ele for culpado, tem que ser punido. Agora, pessoalmente, o Flávio é um cara que não desrespeita ninguém. Viu o pai sendo criticado duramente no Senado, e ficou na dele. Se comporta como um paralmentar que respeita a opinião dos outros.

E como funciona essa sua consultoria com o Christovam Buarque?

Buarque me escolheu como herdeiro dos seus 118 projetos de educação e saúde. Resolveu ser meu assessor voluntário, assim como o Pedro Simon e a eterna senadora Heloísa Helena. Por isso que o Tasso Jereissati me comentou, “você não tem um gabinete, você tem um ministério”.

E, modéstia à parte, dos 81 senadores, ninguém tem uma equipe como a minha. Os assessores são do primeiro time. Meu diretor de comunicação por exemplo, foi editor chefe do Jornal Nacional. Ele que dirige meus telejornais, onde dou satisfação sobre minhas ações diárias.

Você esteve com o ministro da educação, que achou dele?

Tínhamos 15 minutos, acabamos ficando 1 hora. Falamos sobre Dostoievski. Ele odeia Marx, até comentou, “Marx, tô fora”. Ele aceitou os recursos que pedi para o Estado de Goiás. Serei o primeiro senador que vai inaugurar escola a seu lado. Ele também acatou o pedido do Ivan Lins, que é meu padrinho, para ter aula de música nas escolas, no ensino médio, além de esporte e biblioteca. Porque a música te aproxima de Deus, música é muito bom.

Você está trabalhando um projeto sobre justiça fiscal. Que achou da reação do Gilmar Mendes sobre a investigação da Receita?

Nada que Gilmar faça é justiça fiscal ou qualquer tipo de justiça. Eu não sou masoquista, querido.

Quem são seus heróis?

Primeiro Deus, os outros morreram de overdose. Nas artes plásticas, Picasso, Van Gogh. Na música, Nina Simone, Chet Baker, B.B. King, Ivan Lins e Jobim. Sertanejo de origem. E minha mãe, né? Que me criou com um salário mínimo.

Você é de esquerda ou direita?

Esquerda e direita é uma bobagem, isso é ridículo.

Em quem você já votou? No Fernando Henrique? No Lula?

Claro que não votei em Lula e FHC. Me inclua fora dessa, meu colega. Até porque não tem nenhuma diferença entre os dois. Única diferença é que Lula tá preso e FHC tá solto.

Parece que você tem um projeto sobre a Vale, também.

Quero que os diretores da Vale imediatamente passem a tomar água do rio Doce, porque falaram que não está poluída. Não estou no Senado pra brincar, pra mim a Vale é assassina. Parem de tomar água mineral de supermercado. Se tomarem a água do Doce, tá resolvido o meio ambiente do Brasil.

A Vale tem que ser punida com milhões, quero vê-los na cadeia presos, como Lula. Por que só Lula está preso, por que Ricardo Teixeira não tá preso? Por que Aécio não tá preso? Por que Marconi Perillo não tá preso? Concordo com Heloísa Helena, que falou que quem entra na política e fica rico, é ladrão.

Uma curiosidade, por que seus óculos são desse jeito?

Porque Adriane Galisteu foi pruma feira em Dusseldorf, na Alemanha, viu eles e perguntou pra mãe, que estava com ela: “em uma palavra, qual o único apresentador da TV brasileira que teria coragem de usar esses óculos?”.

Tchau! preciso jantar e depois tomar minhas 25 gotas de rivotril e um indutor de sono.

 

 

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