Vladimir Safatle: “Há uma impossibilidade de amar na nossa sociedade”
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Vladimir Safatle: “Há uma impossibilidade de amar na nossa sociedade”

Morris Kachani

24 de fevereiro de 2022 | 13h03

“O que significa o tratamento psicanalítico? Freud falava que a função da psicanálise é permitir que as pessoas “andem e trabalhem”, por exemplo, essa é uma frase famosa. Só que vale colocar um adendo, porque fazer as pessoas amarem trabalhar como a sociedade capitalista entende por amor e trabalho, é só “enfiar a faca um pouco mais fundo dentro do peito das pessoas”, ou seja, é só aprofundar o processo de sofrimento psíquico”

“Há uma impossibilidade de amar na nossa sociedade e há uma possibilidade de trabalhar, mas só se você for trabalhar como subjeção da atividade à produção do valor. É uma impossibilidade de agir sem que essa ação seja captada pelos processos de produção de valor.

Essa impossibilidade é real, é concreta, as pessoas sentem isso nos seus corpos, elas sentem isso no seu sono, elas sentem isso no seu desejo, elas sentem isso em todas as dimensões. Então se a psicanálise for capaz de fazer com que essa impossibilidade seja ouvida, ela pode ao menos criar as condições para que as singularidades do sujeito procurem transformar essa impossibilidade em algo mais do que uma simples impotência”

“A psicanálise teria tudo, de uma certa forma, para se restringir a uma prática de alívio moral de uma classe que está desconectada com a vida nacional, que é uma classe que precisa a todo momento trabalhar como se fosse uma questão absolutamente psíquica”

“As formas de violência no Brasil determinam regimes muito específicos de escuta ou em muitos casos regimes muito específicos de silenciamento, de incapacidade de escuta”

“É importante entender que a psicanálise foi atravessada por uma luta de classes interna desde os anos 20”

Um debate sobre os paradoxos da história da psicanálise no Brasil, com Vladimir Safatle, professor titular do departamento de filosofia e do Instituto de Psicologia da USP; professor-convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII e Berkeley, e Rafael Lima, psicólogo e psicanalista, autor da tese de doutorado “A Psicanálise na Ditadura Civil-Militar brasileira” (USP).

SAFATLE

“A história da psicanálise é uma história muito rica, em todos os sentidos, porque ela não só se desenvolveu como clínica, mas como crítica da cultura. Isso fez com que a psicanálise conseguisse ocupar uma posição anômala no campo da reflexão nacional, no caso brasileiro. É difícil você encontrar um país onde a psicanálise tenha uma interlocução tão forte quanto no Brasil, não só pela sua presença na universidade, mas também pela sua presença no debate público”

“Eu acho que esse é um momento rico da sociedade brasileira, ou seja, ela conseguiu sobreviver até 2022, como psicanálise brasileira, uma psicanálise que vai se articulando com o pensamento nacional e com a realidade concreta da vida da sociedade brasileira. E a psicanálise encontra hoje um desafio importante, que novas gerações são muito sensíveis a esse desafio e que estão dispostas a abrir outros caminhos, mesmo caminhos que saem das ações eminentemente de consultórios, que tentam desenvolver outras formas de interação e de escuta, que passam pela escuta pública”

“A questão do que significa o acesso elitizado [da psicanálise] durante muito tempo ficou restrita praticamente ao problema do preço das análises. Já nos anos 80 essa questão era colocada dessa forma e alguns analistas tentavam resolver esse problema tendo uma certa liberalidade, na qual você aceitava pessoas que poderiam pagar muito pouco, como se fosse uma espécie de compensação, o que eu acho que está longe de ser uma situação boa, porque isso implica na posição de certos analisandos [pacientes] dentro do processo transferencial.

Por exemplo, vamos supor que você é um analisando que paga pouco para um analista que normalmente cobra muito; você sente que está lá como “um favor” praticamente e isso acaba interferindo na relação analítica. E eu diria que não é só isso, está em jogo também a constituição de um tipo de escuta que não escuta certas coisas”.

RAFAEL

“Até a ditadura a gente tem um conjunto bastante extenso e heterotópico de entradas, recepções e absorções da psicanálise no campo da clínica e no campo da cultura. (…) Em primeiro momento em que a psiquiatria leitora de Freud passa a incorporar a teoria freudiana e a clínica freudiana passa a integrar as suas práticas nos grandes hospitais psiquiátricos públicos, em paralelo acontece uma espécie de recepção estética, tem uma conversa entre a recepção da psicanálise pelo movimento modernista e psiquiátrico”

“Barbacena acaba sendo um exemplo de como funcionavam os antigos manicômios no Brasil. Isso daí é um processo que vem do século XIX até a reforma psiquiátrica, nos últimos anos da ditadura. A psicanálise é recebida dentro desse quadro paradoxal, que passa pelos anos 20, 30 e nos anos 50 a agenda do racismo científico, da higiene mental.

“A psicanálise pôde se reencontrar consigo mesma nos anos 50 e acaba ingressando também como uma espécie de discurso fundamental para a organização de uma modernização conservadora”

“A ideia dos “50 anos em 5”, que era a propaganda política do JK [Juscelino Kubitschek] a respeito do seu próprio governo, faz com que a psicanálise acabe sendo bem recebida nesse horizonte das subjetividades do hemisfério norte, e com isso também vêm vários paradoxos que acabam não correspondendo à própria inclinação crítica da psicanálise”

“Até a ditadura a psicanálise teve um movimento de crescimento e de expansão e uma presença muito importante na cultura brasileira, mas ela foi caminhando num “carregar meio trôpego”, uma série de contradições e paradoxos das circunstâncias políticas das épocas anteriores. Todos esses paradoxos aportam na questão do golpe de 1964″

SAFATLE

“A maneira como a psicanálise, não só no Brasil como em outros países da América Latina, se associou a um certo discurso do déficit de normatividade da sociedade, ou seja, “falta lei” ou “a lei funciona mal”, isso a psicanálise utilizou muitas vezes como discurso. Hoje é muito claro como esse tipo de discurso tem caráter conservador”

RAFAEL

“A chegada desses paradoxos e contradições de 64 também comporta o fato de que esses paradoxos chegaram em posições institucionais e muitas vezes teóricas já bem consolidados. Em 64 os movimentos psicanalíticos nacionais não eram ingênuos”

“Em 64 um certo grupo de psicanalistas se alinha muito rapidamente a um certo discurso, que na verdade também é anterior ao golpe de 64, mas que é um discurso da Guerra Fria de combate à ascensão do comunismo não por meio do argumento clássico da tomada do poder do Estado, mas pelo substrato psicológico por meio do qual o comunismo se infiltraria, um discurso paranoico anticomunista da Guerra Fria, importado dos EUA.

Ao mesmo tempo havia grupos psicanalíticos que muito rapidamente se colocaram na posição de resistência ao golpe de 64”

SAFATLE

“O Brasil é uma sociedade sem luto, eu acho que a pandemia mostrou isso claramente, a gente está falando de uma sociedade que tem tranquilamente 1 milhão de pessoas mortas pela pandemia. (…) Uma sociedade que tem 1 milhão de mortes e que não teve 1 minuto de luto público”

“O esquecimento social é um elemento fundamental do sofrimento psíquico. Certas sociedades impedem você de falar sobre certas coisas, não necessariamente no sentido da censura, mas também da não-escuta. As pessoas podem efetivamente sofrer pela configuração do debate na estrutura social quando não conseguem mais se fazer ouvir, em questões que vão desde como elas são até como lidam com passado”.

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