Voto evangélico em 2018 não deve se repetir em 2022
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Voto evangélico em 2018 não deve se repetir em 2022

Isabella Marzolla

18 de agosto de 2021 | 11h40

O apoio a Bolsonaro continua significativo, mas as estatísticas apontam queda no segmento, que representa 1/3 do universo eleitoral. Para especialista, pautas morais e envolvimento das lideranças na campanha podem fazer a diferença

O Brasil dos evangélicos no poder - Outras Palavras

Foto: Reprodução

Nas eleições de 2018, uma vertente importante do eleitorado que ajudou a garantir a vitória do atual Presidente Bolsonaro foi a dos evangélicos, angariados pela identificação dos valores e bandeiras moralistas e tradicionalistas que o então candidato pelo PSL carregava em seus discursos durante a campanha. Bolsonaro recebeu 11,6 milhões de votos a mais do que Haddad entre os evangélicos.

Apesar de ainda contar com apoio considerável dos eleitores evangélicos, a popularidade de Bolsonaro anda baixa, com uma taxa geral de reprovação de 51% (Datafolha dos dias 7 e 8 de julho).

Segundo as pesquisas, quase metade da população evangélica (45%) votaria no atual presidente. Este número, porém, já foi maior. No segundo turno das eleições de 2018, 69% declarou voto em Bolsonaro.

Na corrida eleitoral, Lula lidera as pesquisas em todas as religiões, exceto entre os evangélicos.

Os evangélicos representam hoje em torno de um terço dos eleitores e até 2032 eles devem ser a maioria religiosa no Brasil, segundo projeções do IBGE.

Até o momento, de acordo com a última pesquisa da XP/Ipespe de ontem (17), os pré-candidatos que aprecem disparados na frente da disputa pela Presidência do Brasil são Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 40% das intenções de voto e Jair Messias Bolsonaro (sem partido) com 24%; praticamente empatados em terceiro lugar temos Ciro Gomes (PDT) com 10%, Sergio Moro (sem partido) com 9% e Eduardo Leite (PSDB) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) com 4%. Uma parcela de 9% votaria em branco, nulo ou não sabiam.

Para entender o peso dos evangélicos nas eleições de 2022 e o apelo passional da religião na política brasileira, conversei com Dirceu André Gerardi, doutor em ciências sociais e pós-doutorando em Sociologia na USP. Desde 2017 é membro pesquisador no Projeto Temático “Religião, direito e secularismo: a reconfiguração do repertório cívico no Brasil contemporâneo?”, financiado pela Fapesp.

“O que esses grupos fazem muito bem, o próprio grupo de comunicação do Bolsonaro faz, é divulgar esses pânicos morais e problemas para criar uma comoção, e ao criar comoção você gera engajamento nessas lutas, ou seja, aglutina pessoas. Foi isso que aconteceu em 2018.

Para 2022, depende muito do que os pastores vão fazer e qual vai ser o discurso que vai surgir para poder aglutinar. Pauta moral e de costume gera engajamento”

“Agora essas lideranças [evangélicas] estão na “garupa da moto” do Presidente e estão participando da campanha [eleitoral] pelo Brasil todo. Existe uma guerra espiritual em curso e os pastores estão tentando “livrar o Bolsonaro dessa esquerda medonha”. Ele é um “Messias”, está no nome dele”

“Apesar da gente ver esse grupo religioso como sendo homogêneo, o campo evangélico caracteriza-se por uma multiplicidade. O eleitorado evangélico apresenta oscilações na sua relação com a esquerda pelo menos nos últimos vinte anos”

“É difícil isso acontecer, do Brasil se tornar um País verdadeiramente laico em um sentido puro, acho que é até impossível. (…)

*

Hoje o segmento religioso que mais apoia o Presidente Jair Bolsonaro é o evangélico, que faz parte de sua base eleitoral. Apesar do apoio, o Presidente apresenta atualmente os maiores índices de reprovação em seu mandato. Bolsonaro não receberá em 2022 o mesmo apoio que recebeu em 2018 dos eleitores evangélicos?

A perda de popularidade de Bolsonaro ocorre em todos os segmentos eleitorais, não é exclusivamente do evangélico. Essa queda está associada a fatores sanitários, políticos e econômicos da atualidade.

Mas vale lembrar que até 2018, antes de ser preso, o Lula liderava as pesquisas entre os evangélicos que também indicavam que ele teria a vitória no segundo turno das eleições. Só que o atentado que o Bolsonaro sofreu, que foi no mesmo período em que Haddad entrou na corrida eleitoral para substituir o Lula, fez ele crescer nas pesquisas a ponto de Bolsonaro não precisar participar de confrontos políticos. No início do segundo turno, 66% do eleitorado evangélico declarou voto no Bolsonaro, ou seja, já estava definido.

É para prestar atenção. O grupo evangélico tem grande importância. As eleições de 2018 se devem em grande medida ao voto evangélico, 11 milhões de votos. Acredito que eles vão ter um peso grande em 2022, mas vai depender da capacidade do Bolsonaro de se envolver com os pastores.

Na minha visão, essa perda de popularidade do Bolsonaro junto ao público evangélico só pode ser recuperada por uma participação das lideranças evangélicas, porque acompanhando o antipetismo e também as oscilações de aprovação dos governos, dentro do corte dos evangélicos, dá para perceber que é a partir das lideranças neopentecostais que essa reprovação ou aprovação aumenta ou diminui. Será que lideranças evangélicas serão capazes de recuperar esse público [evangélico] perdido? Ainda fica a pergunta, acho que eles podem, mas vai ser um pouco difícil.

Esse cenário otimista que vimos [dos evangélicos] em 2018 não vai se repetir em 2022. Só que o Bolsonaro joga com a ambiguidade, a gente não sabe qual vai ser a estratégia dele na próxima eleição.

Mas apesar da queda de popularidade do Bolsonaro, a minha impressão é que o eleitorado evangélico ainda é uma das principais bases políticas do bolsonarismo e também da direita radical no Brasil, assim como os militares.

As taxas de reprovação e aprovação dos evangélicos em relação aos partidos variam muito.

Desde 2002 a 2014, na pesquisa “Estudo sobre o Antipartidarismo”, é possível analisar a aprovação e reprovação do PT. Em 2002 a rejeição dos evangélicos ao PT era de 25%, considerada baixa. Em 2006 essa rejeição aumenta, depois ela diminui e depois aumenta de novo em 2014. Só que o apoio ao [Jair] Bolsonaro em 2018 aumentou consideravelmente.

Apesar da gente ver esse grupo religioso como sendo homogêneo, o campo evangélico caracteriza-se por uma multiplicidade. O eleitorado evangélico apresenta oscilações na sua relação com a esquerda pelo menos nos últimos vinte anos.

Se formos comparar os dados das enquetes de 2002 a 2014, o antipetismo do grupo [evangélico] é um pouco maior do que a média nacional, de 3 a 5 pontos.

Qual o papel das lideranças religiosas nas campanhas políticas?

Lideranças evangélicas, deputados e esses apresentadores de programas religiosos em grande medida contribuíram para difundir um discurso público que é ligado à moralidade sexual conservadora.

À medida que esses grupos e esses pastores acentuavam esse sentimento de rejeição ao PT, eles também relativizavam por outro lado o autoritarismo de Bolsonaro, para esse público da igreja e seus seguidores nas redes sociais.

Um exemplo bem prático e claro é do apóstolo da Igreja Bola de Neve, o Rinaldo Luiz de Seixas, que suspostamente vazou um áudio de uma palestra que ele deu e dizia que para ele votar no capitão [Bolsonaro] não era nem um tipo de problema, visto que o Bolsonaro era pró-Deus, defensor da família e em geral o único que podia “livrar o Brasil do PT, da grande desgraça”. O Silas Malafaia também dizia que o PT era um câncer.

Em 1989, quando Lula concorreu pela primeira vez, a Igreja Universal do Reino de Deus do bispo Edir Macedo associou a imagem do petista a de um anticristo. Nos comícios de 2006 e 2010 a maioria dos evangélicos votaram no PT. Nas eleições de 2014, com boatos sobre o chamado “kit gay” o grupo se afastou do partido novamente. Como o Partido dos Trabalhadores lidou com o segmento evangélico enquanto esteve no Poder?

A rejeição ao PT é oscilante. Em 2010 a gente tem uma redução dessa rejeição ao PT, que é baixa e vai a 20%, porque os líderes pastorais começam a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff (PT).

O Lula aprovou um terceiro “Programa Nacional de Direitos Humanos”, que tinha propostas como tirar crucifixo de repartições públicas e Comissão da Verdade e isso causou um rebuliço em 2009, que movimentou diversos setores da sociedade.

Especificamente para os evangélicos, o Lula negociou e fechou um acordo eleitoral retirando as questões do avanço do aborto e questões relacionadas ao que eles [evangélicos] chamam de ideologia de gênero e orientação sexual. O que aconteceu depois desse acordo foi que o Edir Macedo fez uma carta ao povo de Deus apoiando a Dilma, e o pastor Magno Malta pegou um jatinho e foi em diversas cidades do nordeste para, nas palavras dele, “dessatanizar” a imagem de Dilma.

A pauta moralista tomou conta das eleições de 2010, mesmo assim grande parte dos pastores estavam apoiando Dilma, exceto o Malafaia, que desde aquele ano se tornou antipetista fazendo um discurso abertamente conservador.

O PT teve lideranças católicas que desempenharam um papel muito importante na formação do partido lá nos anos 80, como com grupos militantes de comunidades católicas de base. Apesar do PT ter um viés católico forte, há também lideranças evangélicas dentro do partido, como a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ).

Como Bolsonaro mantém a fidelidade do segmento evangélico mesmo em um momento tão conturbado?

A crise sanitária causou um impacto muito forte na economia e causou a recessão e o encarecimento do custo de vida das pessoas. As pessoas estão passando fome em algumas regiões do País, tem muita gente que perdeu o emprego e não recupera, tem muita gente que está insatisfeita com esse governo.

Mas o grupo evangélico ainda compartilha de muitos valores que o Bolsonaro continua falando. Por exemplo, na eleição de 2018 Bolsonaro falava que ia fazer ensino a distância para combater o marxismo e ele ainda fala que vai implantar no governo pautas antiaborto para valorizar os valores da família.

Tem inúmeras lideranças, por exemplo, o Silas Malafaia, Magno Malta e deputados como Marcos Feliciano, que estão defendendo abertamente as pautas conservadoras do Presidente e inclusive defendendo as fakes news que eles [governo] divulgam nas redes sociais e no Parlamento.

Só que agora essas lideranças [evangélicas] estão na “garupa da moto” do Presidente e estão participando da campanha [eleitoral] pelo Brasil todo. Existe uma guerra espiritual e os pastores estão tentando “livrar o Bolsonaro dessa esquerda medonha”, ele é um “Messias”, está no nome dele.

Durante a campanha [eleitoral de 2018] criou-se a imagem do Bolsonaro de que ele era ungido. Os pastores reconheciam os problemas do Bolsonaro só que, no entanto, eles diziam que ele era o único que podia salvar o País, tirar o País das “garras” do PT. Isso é uma linguagem que vem do anticomunismo, da ditadura brasileira, que o Brasil tem uma esquerda medonha enquistada nas instituições do Estado que estão tentando “minar o campo” do Bolsonaro.

Segundo a Folha de S. Paulo, Lula teria expressado a vontade de contar com um vice-presidente evangélico, o bispo Manuel Ferreira. O filho do bispo é Samuel Ferreira, que comanda hoje a Assembleia de Deus de Madureira e apoia Bolsonaro.

O fato do Lula cogitar ter um vice evangélico, é uma forma de tentar captar o voto desse grupo [evangélico], que é considerado importante no País.

Estamos falando de suposições, mas o vice do Lula precisaria ser uma pessoa que una os diversos evangélicos, o que é um processo muito difícil de fazer, porque o mundo evangélico é múltiplo. O Lula estava mais fazendo um “balão de ensaio”, como se fala na ciência política, para ver que efeito um vice religioso teria, e óbvio que foi refutado de imediato.

De que forma a religião se introduziu e avançou na política brasileira?

Algo que vale destacar é que o Bolsonaro começou a campanha desde 2014 e em 2014 ele quadruplicou o número de votos para deputado federal que ele tinha feito em 2010. Isso foi indicador do discurso dele, que iniciou em 2010 com o “Kit Gay”.

Entre 2009 e 2010 muitas pautas e políticas de direitos humanos começaram a ser implementadas no País, na área da educação, da saúde, em amplos setores da sociedade e conforme essa pauta avançava, lideranças evangélicas começaram a ver isso como um sinal do avanço da secularização, ou seja, a secularização da sociedade seria uma retração da religião no País.

Só que o que percebemos no Brasil é justamente o contrário, você tem um avanço da religião no País. O crescimento demográfico da população evangélica reflete a ocupação de diversos postos na sociedade hoje, na saúde, educação, na política.

As igrejas se comportam como partidos políticos no Brasil desde os anos 80, com candidaturas oficiais e do ponto de vista formal elas também fundaram partidos políticos. Por exemplo o PRB [atual partido Republicanos] é comandado por pastores e bispos da Igreja Universal e o PSC era dirigido pelo Pastor Everaldo, que foi preso por envolvimento em casos de corrupção.

A partir dessas posições eles conseguem fabricar políticas públicas baseadas em princípios religiosos e ideológicos. Por exemplo a recomendação de abstinência sexual para evitar a gravidez [campanha do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] e a implementação do Escola Sem Partido para combater a doutrinação.

Por que a religião, em específico a evangélica neopentecostal, tem apelo passional tão forte no Brasil?

As emoções geram engajamento e quanto mais emoções você proporciona para o seu público, mais engajamento você pode ter para promover as suas pautas. Por exemplo, você dizer que o seu filho vai ser homessexualizado na escola para um público evangélico conservador, isso vai gerar experiências sensíveis neles.

Os deputados e pastores geralmente têm exemplos na ponta da língua para justamente fazer as pessoas sentirem indignação, insatisfação. O que esses grupos fazem muito bem, o próprio grupo de comunicação do Bolsonaro faz, é divulgar esses pânicos morais e problemas para criar uma comoção, e ao criar comoção você gera engajamento nessas lutas, ou seja, você aglutina pessoas.

Foi isso que aconteceu em 2018 e vai ser difícil de se repetir em 2022, depende muito do que os pastores vão fazer e qual vai ser o discurso que vai surgir para poder aglutinar as pessoas. Pauta moral e de costume gera engajamento.

Apesar de na Constituição o Estado Brasileiro se dizer laico, o Brasil é um País religioso, até sob o aspecto histórico, com uma colonização portuguesa catequizante. Existe a possibilidade, no futuro, do Brasil ser um País verdadeiramente laico?

Acho que o Brasil é um dos casos clássicos onde isso não vai acontecer em um curto prazo. Um país verdadeiramente laico em um sentido puro, acho que é até impossível.

Mas há avanços. Por exemplo hoje, existe um alargamento das pautas seculares que são associadas a sexualidade, a grupos LGBT+.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.