Yuval Harari: “Algoritmos entendem você melhor do que você mesmo se entende”

Morris Kachani

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Foto: HSM Open Space

Buda, Sócrates e Jesus não tinham concorrência…

Yuval Harari, historiador e filósofo israelense, autor da trilogia best seller Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21, esteve em um evento corporativo da HSM na manhã de hoje, onde apresentou um impressionante painel sobre o futuro da humanidade. Eis a transcrição de sua fala:

Quero usar esta oportunidade para falar sobre os novos desafios que nossa espécie vai enfrentar no século 21. Mas antes, talvez fosse bom mencionar todas as grandes conquistas da humanidade no passado recente, como inspiração para superar este novo momento.

Acredito que a maior conquista da humanidade foi superar a fome, por muitos anos considerada nossa grande inimiga. No passado, a maioria das pessoas conviveu com a fome. Hoje, mesmo com desastres naturais como as secas, ninguém morrerá de fome. Mesmo nos países em desenvolvimento, mais pessoas morrem por comer demais, do que de menos. A fome sumiu do mundo. Hoje a única fome que existe é a fome política.

Em países como Iêmen, Sudão, Síria, ainda se morre de fome, mas apenas porque políticos e governos querem que seus povos passem fome.

O segundo ponto foi a superação das infecções. Hoje mais se morre de doenças associadas à velhice do que de infecções. Antigamente as pessoas morriam mais jovens, não viviam o suficiente para morrer de câncer.

O terceiro ponto, foi de que conseguimos superar guerra e violência. Antigamente a guerra era entendida como algo natural de um mundo imperfeito, e que apenas Deus poderia resolver as coisas através de milagre. Pode não parecer, mas estamos vivendo a era mais pacífica da história. Tão pacífica que o significado de paz no mundo, mudou. Antigamente paz significava falta temporária de guerra. Hoje significa improbabilidade de guerra.

Há algumas guerras no mundo claro – venho de Israel e do Oriente Médio -, mas não devemos nos cegar para o contexto global. Isso é menos comum do que em qualquer outra época.

Mesmo incluindo Síria e Afeganistão, hoje os crimes de guerra matam menos do que o suicídio em termos estatísticos. Ou seja, hoje você é seu pior inimigo.

O açúcar é uma ameaça maior para sua vida do que a arma.

*

E os próximos desafios também são 3: o colapso ecológico, o retorno à guerra e a disrupção tecnológica.

Em termos de guerra, se alguns humanos tomarem decisões estúpidas, a guerra volta em um formato ainda pior. Com forças mais poderosas, em desequilíbrio flagrante entre sabedoria e estupidez. Só um tolo é suficiente para começar uma guerra, e este é um grande perigo.

O colapso ecológico, diferente da guerra, já é uma realidade presente ao redor. Ninguém o quer, claro, mas ao mesmo tempo há algo inevitável que todo mundo quer, que é o crescimento econômico. A única esperança realista é de que surjam novas tecnologias ecoamigáveis.

E isso nos leva ao terceiro e mais complicado desafio: a disrupção tecnológica.

A fantasia tecnológica de alguns poucos pode se tornar o pesadelo de bilhões. Inteligência artificial e biotecnologia podem contribuir para nossa evolução, claro. Por exemplo, hoje 1, 5 milhões de pessoas morrem de acidente de carro por ano, sendo que 90%, por erro humano. Os veículos autônomos salvarão 1 milhão de pessoas. Porém não quero passar muito tempo falando das promessas das tecnologias, porque  já ouvimos muito a esse respeito.

Meu trabalho como historiador e filósofo é diferente: é preciso destacar os perigos que não são levados em consideração pelas empresas e corporações. A disrupção da vida humana poderá acontecer de diferentes formas. Talvez vamos enfrentar algo muito complicado do ponto de vista social e econômico.

Com a revolução industrial, o século 19 criou a classe trabalhadora urbana. Ela corre o risco de se transformar em uma classe inútil no século 21. Não inútil do ponto de vista da família e das relações afetivas, mas pela perspectiva econômica e política.

Ninguém sabe como será o mercado de trabalho em 2050. Só se sabe que vai ser completamente diferente do que é hoje. Inteligência artificial e robótica irão mudar praticamente todas as profissões, e muitos trabalhos vão desaparecer. Alguns emergirão, mas não sabemos se serão suficientes. E será preciso recapacitar as pessoas para preencher estas vagas.

Por exemplo, um motorista que perde o emprego. Poderá ensinar yoga ou virar engenheiro de software, mas como lidar com esta mudança aos 40 anos? E mesmo que se capacite, não será uma solução de longo prazo, porque a automação será contínua, e não apenas um único evento. Ou seja, com a automação vai haver uma cascata de disrupções, uma seguida de outra, continuamente.

Nos teremos uma revolução em 10 anos, depois em 20, e assim por diante. Então as pessoas terão que se reinventar não uma vez na vida mas talvez várias, a cada década praticamente.

No passado as pessoas tinham que lutar contra a exploração; no século 21 a maior luta é contra ser irrelevante. Sendo quando você é explorado é menos ruim, porque pelo menos você é necessário.

Esta revolução pode criar desigualdades sem precedentes. Não só entre pessoas mas também entre diferentes países.

No século 19 alguns países se industrializaram primeiro, como Grã-Bretanha e Japão. Se não tomarmos cuidado, o mesmo acontecerá agora com a inteligência artificial. Já estamos no meio da corrida com a China liderando, e a maioria dos outros países muito atrás.

No século 19, quem não se importou com a industrialização, com navios a vapor e estradas, nos primeiros 30 anos, se transformou em colônia. Hoje, há uma riqueza imensa em hubs como California e China. Acredito que os maiores impactados serão os países em desenvolvimento. Porque a automação vai reduzir a mão de obra sem qualificação, mesmo que ela seja barata. Haverá muitos novos trabalhos para engenheiros de softwares em São Francisco e Pequim, e bem menos para ofícios de têxtil ou caminhoneiro…

Mas o perigo maior está no nível político de ascensão das ditaduras digitais – governos e regimes totalitários controlando todos o tempo todo. A equação é muito simples: conhecimento biológico multiplicado por processamento de dados resulta em hackeamento de seres humanos. A fusão da biologia com a tecnologia pode resultar em dados suficientes para hackear milhões.

São algoritmos que vão te entender melhor do que você mesmo se entende. Com poder para manipular seus sentimentos e substituir completamente suas decisões. Eles não precisam te conhecer perfeitamente – para hackear só é preciso conhecê-lo um pouco melhor. O que já é razoável porque você mesmo não se conhece tão bem.

Eu por exemplo apenas com 21 anos descobri que era gay, depois de muito tempo de negação na adolescência. O fato é que deixei passar algo extremamente importante sobre mim durante este período, e isso não é incomum entre os gays.

Então você imagine uma situação em que o algoritmo poderá dizer se um adolescente está no espectro gay, controlando por exemplo o movimento dos olhos diante de uma imagem em que aparecem um homem e uma mulher sexies. O algoritmo pode monitorar e hackear a serviço de governos e empresas. A Coca-Cola já saberá sua preferência. Quando criar uma propaganda desenhada para você, ela vai escolher se na imagem aparece um homem de sunga ou uma menina de biquíni.

Esse conhecimento vai valer bilhões e pode trazer consequências mais sérias. No Irã por exemplo existe pena de morte para os homossexuais. O que significaria para um homem gay ser detectado por este governo? Todos esses segredos que valem a pena ser conhecidos, podem levar à ascensão de pior regime totalitário da historia.

Será preciso se prevenir e se proteger não apenas de seu próprio governo, mas de outros governos e instituições poderosas. Imagine você como seria a política brasileira  quando alguém na China souber todo histórico médico e pessoal dos políticos, juízes e jornalistas, incluindo escapadas sexuais e doenças mentais.

Não precisa enviar seu exército, é só coletar dados.

O hacker pode impactar nossa liberdade cada vez mais, com a inteligência artificial tomando decisões por nós. Essa mudança já está a caminho. Hoje bilhões confiam no algoritmo do facebook ou do google para nos dizer a verdade. A Netflix nos diz o que assistir… No futuro nos dirão onde trabalhar, com quem casar, ou se o Banco Central deve diminuir ou não a taxa de juros. E a resposta será sempre a mesma: “porque o algoritmo disse assim”. O cérebro humano é limitado. Não seremos capazes de entender o algoritmo e suas decisões, não teremos essa capacidade de processar dados. Corremos o risco de perder o controle sobre nossas vidas e a capacidade de entender as políticas públicas.

Hoje digamos que 1% da humanidade entende do sistema financeiro. No futuro talvez seja zero.

Mas o que vai significar a vida humana quando todas as decisões forem tomadas por um algoritmo? Não temos modelos filosóficos e existenciais para entender e interpretar uma vida como essa.

Os políticos poderão criar o céu ou o inferno. Nós filósofos estamos lidando com a dificuldade para conceituar o que será o céu e o que será inferno. Se falharmos nestas utopias, vamos nos encontrar presos dentro delas sem possibilidade de saída.

E a disrupção não será somente sobre economia, política ou filosofia, mas biologia também. Teremos habilidade para criar novas formas de vida inorgânicas depois de 4 bilhões de anos de vida orgânica. Entraremos em uma era da vida inorgânica criada pelo design. Poderemos cometer erros graves. Governos, corporações e exércitos podem tentar desenvolver modelos em que prevaleçam a inteligência e a disciplina, mas negligenciando a compaixão, a sensibilidade, a espiritualidade. Uma espécie de “super humanos”, inteligentes e disciplinados. O que pode representar um downgrade de nossa espécie.

*

Que fazer sobre isso tudo? Primeiro, é preciso enfatizar que estas não são profecias, apenas possibilidades. E não é tarde para agirmos. A tecnologia não é determinista. Cada um faz dela o que quiser, basta comparar as duas Coreias, por exemplo.

O que podemos criar agora? Talvez o mais importante e antigo conselho seja ainda válido: conheça a si mesmo. Buda, Sócrates e Jesus não tinham concorrência. Hoje, neste momento, vários governos e corporações estão tentando hackear você. Querem saber mais a seu respeito para poderem vender produtos ou política.

A terapia e a meditação pode ser um caminho para conhecer-se melhor. Outros preferem fazer trilhas nas montanhas. Eu pessoalmente pratico 2 horas por dia de meditação, além de fazer retiros que podem durar alguns dias. Cada pessoa pode encontrar seu próprio método, e é importante que se invista tempo e esforço nisso rapidamente.

Porque se os hackers chegarem antes, eles serão proprietários de você. As pessoas mais manipuláveis são justamente as que acham que têm livre arbítrio.

50 pessoas juntas podem fazer mais que 500 isoladas. Muitas dados e poder concentrados em um só local podem impactar negativamente.

Alguns países e pessoas certamente vão perder muito, por isso é preciso criar uma rede de segurança global para proteger os membros mais fracos da humanidade.

É importante, ao mesmo tempo, fortalecer as corporações globais, elas são mais importantes que nunca. Nenhuma nação conseguirá resolver sozinha estas questões ambientais e tecnológicas, porque nenhum governo tem poder para isso.

Ninguém quer fabricar um robô matador ou usar com más intenções a engenharia genética de bebês. Não importa quem vai ganhar essa corrida, o perdedor será a humanidade. E as grandes corporações podem contribuir para reverter este processo. Trump diz que existe uma contradição entre nacionalismo e globalismo, e se propõe a rejeitar o globalismo. Este é um erro muito sério – não há contradição, porque nacionalismo não significa odiar estrangeiros. Se trata de amar seus compatriotas, e no século 21 a única forma é cooperar com estrangeiros. No século 21, os bons nacionalistas devem ser bons globalistas.

No século 20 aprendemos a criar um mundo mais pacífico através de lições difíceis. Foram duas guerras e Stalin. No século 21, se não atingirmos um mundo mais pacífico  na primeira tentativa, a espécie pode não sobreviver. E se desaparecer, não será o fim do mundo. Talvez os ratos vão assumir e aprendam com nossos erros. Espero confiar em pessoas e não em ratos.

(Fim da palestra; aplausos)

Considerações finais:

Será mais fácil substituir médicos que enfermeiras, e não o oposto. Alguns médicos só processam dados, de diagnóstico dos exames e de artigos que lêem. Enfermeiras em contraste, lidam com habilidade no trato com as pessoas.

 

Muita gente ainda está com a cabeça no século 20, pensando em proteção social. Mais que isso, educação e treinamento serão necessários, e esta deve ser uma tarefa clássica dos governos.

 

De nada adianta construir muro na fronteira. Os governos nacionalistas devem pensar globalmente. Não há contradição entre um e outro, porque hoje, nenhuma questão pode ser resolvida por um único país.

 

Suécia e Suíça não preocupam. Dispõem de meios para lidar com toda esta transformação. Já os países pobres… Quanto mais rico o país, mais fácil. E muitas vezes você se torna rico ao explorar os outros. Mas então fica mais fácil lidar com os problemas que você causou. A grande responsabilidade pela mudança climática por exemplo, é dos países mais ricos. Mas eles correm menos risco porque têm mais recursos. Bangladesh é menos responsável pela mudança climática, mas Estados Unidos têm mais recursos.

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