Para PM Paulista, o Negro é o cocô do cavalo do bandido

José Vicente

14 Agosto 2015 | 14h44

Não somos racistas. Esse foi um libelo de contrariedade que varreu o país, quando a sociedade se debruçou nas discussões da implantação das ações afirmativas e cotas para negros nas universidades e no serviço publico para tentar combater o histórico elevado grau de exclusão política e social do negro na sociedade brasileira. Em síntese, segundo a narrativa, do ponto de vista da ciência, a formação genética do indivíduo é variada, não havendo possibilidade de se falar de pureza de raça. Raças não existem. Se raça não há, não há também que se falar em racismo.

Diferentemente da narrativa, e olhando para a floresta, a ONU sempre definiu e relacionou o racismo entre aqueles de intensa gravidade e iniquidade entre as nações e a Constituição brasileira de 1988, o definirá como crime hediondo e imprescritível.

Naquela oportunidade – 2001/2003 -, como Secretário Geral da Conferencia Mundial de Combate ao Racismo da ONU, em Durban, África do Sul, o Brasil, pela primeira vez na história, reconhecia oficialmente a existência do racismo e a discriminação contra os negros perante o conjunto das nações e assumia o compromisso irrevogável de combatê-lo na sociedade e, principalmente, nas suas instituições, naquilo tradicionalmente conhecido como racismo institucional, convicto de que, o racismo da sociedade, do grupo social, do indivíduo, alcança e aparelha as instituições que, além de internalizar e cristalizar essas crenças como valores e princípios, elas os reproduzem intencionadamente ou não, como ideologia, práticas, mensagem e postura atitudinal.

O ambiente da segurança pública no país é seguramente o locus de maior contradição entre esses objetivos e valores nacionais e, a prática da vida real e cotidiana é altamente esclarecedora da distância entre o pensamento e ação. Nossas polícias matam, anualmente,  mais do que o conjunto dos conflitos armados mundial em andamento, e a grande maioria das vítimas são jovens e negros. Um verdadeiro genocídio contra jovens negros, em praça pública e a céu aberto.

E, seguramente, uma das formas mais reprováveis na condução desse tema pelas instituições, são aquelas suportadas no escárnio, na desfaçatez e na desonestidade institucional. Aquele que remete o debate ao nível da jocosidade e transforma a vítima em algoz. No jargão, é tentando fazer com que ela se sinta pior que o cocô do cavalo do bandido.

Quando em 2001, uma patrulha da PM abordou o eminente, Professor e negro Edvaldo Brito, festejado jurista e à época Secretário de Negócios jurídicos da Prefeitura São Paulo, no Governo Celso Pitta, que seguia em viatura oficial com dois seguranças negros em direção à Universidade Mackenzie, onde lecionava há dezenas de anos, a instituição emitiu nota justificando que “a abordagem de rotina” deveu-se ao fato de que aquelas pessoas – homens negros em um carro oficial, “aparentavam” ser suspeitas.

Quando, fevereiro de 2004, o dentista negro Flavio Rangel foi perseguido, abordado e morto pela Polícia Militar pelo crime de estar dirigindo um carro novo e bonito com o qual fora levar a namorada ao aeroporto, o Comandante da Policia Militar publicou artigo em jornal de grande circulação, e a PM emitiu nota afirmando que, além de se tratar de abordagem de rotina a um suspeito – negro num carro bacana -, os policiais que o abordaram eram negros, logo, não havia que se falar de discriminação.

Quando em dezembro de 2012, a PM distribuiu panfletos na cidade de Campinas (SP) para alertar sobre a ação de crime e criminosos, o documento oficial que a determinava – Ordem de Serviço 8º BPMI – era assinada por um Capitão da PM e cuja orientação era “abordar especialmente indivíduos de cor parda e negra, com idade entre 18 e 25 anos….” .

Nesse caso, o próprio Governador em nota afirmou  “…o que houve era como dizer, olha teve um assalto aqui e o suspeito é loiro ou japonês, no caso, o suspeito era de cor parda…”

E, hoje, conforme registra esse Jornal Estado, no caderno Metrópole, quando de novo é pegada com a boca na botija produzindo e distribuindo os mesmos cartazes  discriminadores,   na cidade de Diadema e região, a PM em nota, afirma que não houve qualquer intenção preconceituosa racial porque a instituição é orientada pelos princípios de direitos humanos e grande parte do efetivo é de afrodescendente. E que quem desenhou os panfletos foi um soldado cartunista negro.

Se racismo houver, sugere a PM, quem pratica são os outros, até porque a Instituição está ancorada em sólidos princípios e ações de valorização dos Direitos Humanos.

E, ao final e ao cabo, quando tragicamente isso acontece na instituição, o culpado é o cartunista ou policial negro responsável pela abordagem ou desenhista dos cartazes e panfletos questionados.

Se é a PM Paulista que forma seus soldados e oficiais e gere seus recursos humanos, psicológicos e culturais suportada nos fundamentos da suas doutrinas, valores e crenças institucionais, e se as ordens de serviço e mesmo as criações dos cartunistas têm que passar pela análise da cadeia de comando antes de serem executadas ou publicizadas, é possível mesmo que o culpado pelas manifestações racistas e discriminadoras, seja o Soldado Negro Cartunista ???

A PM Paulista precisa ser encorajada a avançar mais nos seus conceitos, nas suas práticas e no seu discurso institucional para se transformar numa instituição calcada em valores genuínos, autênticos e transparentes de respeito ao negro brasileiro e, logo, à cidadania e ao estado democrático de direito em sua plenitude.

Para isso, é indispensável que ela, PM,  tenha dignidade de reconhecer seus erros, equívocos e ambiguidades, e honestidade para conhecer, avaliar e produzir de forma sincera e objetiva, os meios e ações para combater o racismo e discriminação na sua ação e no seu pensamento.

Fora disso, o negro continuará sendo e se sentindo como o cocô do cavalo do bandido.