A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

Paulo Silvestre

01 Outubro 2013 | 07h19

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja - Imagem: reprodução

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja

 

Na semana passada, a imagem acima inundou as redes sociais. Invariavelmente, ela era acompanhada de comentários criticando a postura da Veja, como exemplo de uma mídia nacional manipuladora e tendenciosa. Em meio a esse debate, ficou ainda mais claro para mim que grande parte da crise que os grandes veículos vêm enfrentando se deve ao fato de que eles não conseguem mais representar o seu público. Chego a me questionar se eles ainda se preocupam com isso.

A referida imagem é uma composição, publicada originalmente no blog de Luís Nassif, demonstrando a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24, feita por veículos estrangeiros (The Guardian, Le Monde e El País), em que era destacado o embate contra a espionagem americana (com fotos de Dilma discursando), e pela revista brasileira, com um título sugerindo um discurso de olho nas eleições de 2014 (e uma foto com Dilma sentada, muito menos imponente que as demais).

É fato que isenção completa não existe, inclusive pela nossa natureza humana. Mas sou um homem forjado no aço de rotativas e sei que é perfeitamente possível fazer jornalismo com seriedade. E isso é uma obrigação do ofício e das publicações.

Por mais que o veículo tenha uma linha política com a qual se alie, e não há nenhum problema nisso (deve-se inclusive deixar explícito ao seu público), não tem o direito de fazer jornalismo tendencioso, que deliberadamente mostre apenas uma parte da verdade, para induzir as pessoas a comprarem sua tese, seja ela qual for, legítima ou não. Isso é antijornalismo!

Uma publicação pode ser de direita ou de esquerda, pode defender seus candidatos, mas deve noticiar também o que eles têm de ruim, assim como o que seus adversários têm de bom. E isso não se restringe a questões políticas: vale também para assuntos religiosos, esportivos, o que for, tudo aquilo que os antigos diziam que “não se deve por à mesa” (eles estavam errados!).

O veículo deve oferecer subsídios para que seu público construa a sua opinião: assim se forma uma sociedade. Sem isso, ele apenas reforça preconceitos de gente cada vez mais alienada em torno de realidades enviesadas.

Plataformas de articulação social

Há algumas semanas, Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e responsável pela Agência Estado ter a importância que tem, deu uma entrevista em que sugere que os jornais (e podemos extrapolar para os grandes veículos da mídia) perderam o espaço que tinham como articuladores da sociedade.

“Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos, e contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política”, afirma Mesquita. Com isso, em um mundo em que o jornalismo era principalmente impresso, essas empresas ganharam enorme importância política. “Todas as empresas que atingem uma posição monopolista ‘emburrecem’. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social”, conclui.

Trocando em miúdos, os veículos se tornaram máquinas bem azeitadas de fazer dinheiro na velocidade que suas rotativas imprimiam seus exemplares. Funcionavam tão bem, que esqueceram a sua função social. Os interesses da empresa começaram a se contrapor aos editoriais e, pior que isso, tudo começou a virar uma amálgama disforme e sem relevância para seu público.

Enquanto não havia outra plataforma que servisse de alternativa, essa massa serviu bem ao propósito do negócio. “Numa perspectiva histórica, (as empresas de comunicação) legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da sua capacidade de articular públicos”, explica Mesquita.

Veio então a popularização da Internet, e o público deixou de ser um passivo consumidor das notícias (e das versões) dos grandes veículos e passou a ser protagonista da construção do noticiário. Subitamente, o público dos veículos, qualquer pessoa, passou a ser um potencial concorrente. E uma enxurrada de versões alternativas começou a surgir.

Quer pagar quanto?

Diante da incapacidade de lidar com esse novo mundo, os grandes veículos deixaram de representar seu público. E contestações como as vistas em volta da imagem acima aparecem o tempo todo.

O espaço para tal representação popular está aberto, democraticamente abraçando qualquer um que se proponha a isso. Aqui e ali, surgem pessoas, grupos e empresas procurando o seu espaço, representando desde poucos indivíduos a uma fatia significativa da sociedade.

Enquanto isso, os grandes veículos agonizam com receitas publicitárias e de assinatura cada vez menores. Não há surpresa nisso: ao não se sentir representado pelo veículo, seu público desaparece, derrubando as tiragens e as receitas. Afinal, quem vai pagar por algo com o que não se identifique?

As empresas de comunicação tentam sofregamente transpor seu velho modelo de negócios para a nova mídia. Não conseguem perceber que não há mais espaço para isso. Sua miopia está destruindo sua credibilidade, seu maior ativo.

Portanto, a solução para sair da crise é abandonar esse antijornalismo e se re-encontrar com seu público. Mas quais terão inteligência e coragem para isso?