A “cultura do cancelamento” ataca a democracia no seu coração

A “cultura do cancelamento” ataca a democracia no seu coração

Paulo Silvestre

10 de janeiro de 2022 | 07h42

A melhor maneira de se perpetuar ideias ruins é evitar o debate, principalmente dos mais jovens, que tradicionalmente trazem ideias reformadoras. Por isso, uma pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Ipec preocupa: ela indica que 59% dos brasileiros entre 16 e 34 anos evitam falar de política nas redes sociais por medo de serem “cancelados”.

Na verdade, esse temor de ser “linchado digitalmente” atinge todas as idades. O meio digital, que floresceu lá pela virada do século como um espaço em que todos poderiam se expressar livremente, se transformou, nos últimos anos, em uma arena de ódio e de exclusão, afastando muita gente que poderia contribuir com ótimas ideias. E isso não surgiu ao acaso: foi construído pelas velhas ratazanas políticas.


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Esse medo tem fundamento. As redes sociais foram alçadas à posição de ferramenta preferido de trocas pessoais e profissionais, especialmente para essa faixa etária. Por isso, ser “cancelado” pode implicar em grandes prejuízos para o indivíduo.

Isso demonstra uma grande ferida da democracia brasileira. A violência das tropas digitais de diferentes ideologias desestimula a participação dos jovens no debate político, justamente no seu local preferido de conversas. Para piorar a situação, essas mesmas redes sociais se tornaram, de uns cinco anos para cá, a principal ferramenta de convencimento de massas.

É por isso que precisamos nos posicionar sem medo!

Ao se eliminar aqueles que poderiam contribuir com ideias de alto nível e uma visão construtiva para a sociedade, o debate no meio digital torna-se raso, restrito a um maniqueísmo do “nós contra eles”, favorecendo àqueles que não têm boas propostas. E os algoritmos das redes sociais fortalecem isso ainda mais.

Isso é uma ampliação do que sempre foi ensinado ao brasileiro: “política, religião e futebol não se põem à mesa”. Essa é uma maneira de criar cidadãos mais “dóceis”, que não se envolvem com temas delicados, aqueles que convidam a pensar e a melhorar a sociedade. Com isso, tornam-se mais suscetíveis a comandos de líderes em quem acreditam, mesmo para coisas que jamais fariam se usassem seu senso crítico.

Basta ver a grotesca invasão do Congresso americano por apoiadores do ex-presidente Donald Trump, que tentavam impedir a ratificação da vitória de Joe Biden. O ataque, que completou um ano nesta quinta, deixou cinco mortos e foi realizado por pessoas que, em outras condições, jamais fariam algo do tipo.

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) disse, em sua obra mais famosa, “Leviatã” (1651), que “o homem é o lobo do homem”. Ele acreditava que o ser humano precisa viver em uma sociedade regida por “contratos sociais”. Sem eles, esse “lobo” nos levaria à barbárie.

Hoje vejo essas regras sendo rasgadas, especialmente nas redes sociais, por aqueles que têm poder e por seus apoiadores. O mais grave disso é que o outro e suas necessidades deixam de ser importantes a partir do momento em que um indivíduo tem a força de impor suas vontades, como temos observado.

 

Como falar de política

A pesquisa do Ipec mostra também que os jovens não são alienados e que gostam de participar do debate político. Mas, como preferem não fazer isso online, levam o tema para outros locais, como a escola, a igreja e até festas. Ao fazer isso “olho no olho”, diminuem a chance de agressões gratuitas e de um “cancelamento” em grande escala.

Por isso, nem tudo está perdido! Mas é uma pena que não façam isso nas redes sociais, onde sua voz ganharia muito mais ressonância.

Faltam aos jovens também exemplos de pessoas que falem e exerçam bem a política. Ao contrário do passado, em que lideranças debatiam ideias, hoje o cenário é de um campo de batalha permanente, em que o opositor é visto como um inimigo a ser eliminado. Sem uma boa referência, as pessoas não sabem como se posicionar.

A sociedade precisa reaprender que a política não é um bicho-papão e nem precisa ser carregada de ódio. O ser humano é um animal político, e só dominamos esse planeta graças a isso, pois nos organizamos para atingirmos o bem comum. A isso, damos o nome de “sociedade”.

Não podemos perder a nossa capacidade essencial de dialogar, e isso inclui com as pessoas que não pensam como nós. Aliás, de certa forma, quando nos confrontamos com as diferenças, é quando mais crescemos, pois nos permitimos ver o mundo por outra perspectiva.

Portanto, política é para construir com as diferenças e não para destruir os diferentes! Se os jovens desejam participar desse debate, eles são mais que bem-vindos: devem ser incentivados e protegidos!

Isso exige que as empresas que são donas dessas plataformas digitais trabalhem muito mais duro para combater o ódio em suas páginas. De três anos para cá, elas têm feito algo nesse sentido, mas, como a pesquisa do Ipec demonstra, isso tem sido muito insuficiente.

Do lado dos usuários, as pessoas precisam vencer o apelo fácil do ódio que domina o debate público. Por incrível que se pareça, odiar quem pensa de maneira diferente é uma forma pervertida de se pertencer ao grupo com valores semelhantes aos seus. Mas isso obviamente não é saudável!

Pelo contrário, temos que nos posicionar, sim, nas redes sociais, mas de maneira cordial e construtiva. Não devemos deixar de publicar algo por medo de errar ou de dizer algo que o rebanho critique. E temos que entender que nunca será possível agradar todo mundo: isso, aliás, está na essência da democracia.

Por isso tudo, política, futebol e religião se põem, sim, à mesa! E também nas redes sociais.

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