A esquizofrenia do posicionamento

A esquizofrenia do posicionamento

Paulo Silvestre

17 de maio de 2021 | 07h39

Há alguns dias, me perguntaram se se posicionar politicamente nas redes sociais nos atrapalharia profissionalmente. Essa é uma pergunta simples para uma resposta complexa.

Graças ao momento de grande intolerância e polarização em que vivemos, não há mais zona segura. Qualquer posicionamento, por mais bem intencionado, equilibrado e embasado que seja, torna-se potencialmente explosivo graças àqueles que pensam de maneira diferente. E sempre haverá muitas pessoas que pensam diferentemente de nós.

Poderíamos considerar então que o caminho para não termos prejuízos por nossa exposição seria não se posicionar. Mas isso também não é uma opção aceitável, pois as pessoas esperam que nos posicionemos. Não fazer isso enfraquece a nossa imagem nas redes sociais, cujos algoritmos de relevância premiam aqueles que estão sempre se expondo.

Resta a hipótese de simplesmente não aparecer nas redes sociais. Mas, em um mundo hiperconectado, ficar de fora dessas plataformas implica em quase desaparecer para nosso público, abrindo caminho para os concorrentes.

Vivemos, portanto, uma “esquizofrenia do posicionamento”: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come!


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A verdade é que não existe uma fórmula mágica para o posicionamento nessa realidade. Mas como sempre aparecemos, de um jeito ou de outro, essa é uma atividade de autoconhecimento, antes de mais nada. Afinal, se não soubermos nossos pontos fortes, como poderemos transmitir isso ao outro?

Precisamos também ter uma atitude de autopreservação. Considerando que nunca se sabe o que movimenta o “humor” dos algoritmos de relevância (e cada rede tem o seu, às vezes um tanto “ranzinzas”), não devemos nos tornar escravos dele. Isso contraria o que a maioria dos “gurus de redes sociais” prega, com suas “fórmulas mágicas” para ganhar seguidores e visualizações (que, no final, de pouco ou nada servem). É dessa forma que protegemos nossa saúde mental, que já vinha abalada por essa busca frenética de exposição digital e foi castigada pelos efeitos da pandemia de Covid-19.

É também um exercício de correr riscos calculados. Qualquer forma de exibição implica em alguns apontando dedos e dizendo que está ruim, errado ou feio. E isso é inevitável! Mas podemos mitigar esse risco ao conhecer bem nosso público, como ele se comunica, o que procura no que podemos lhe oferecer. Se nos posicionarmos atendendo isso, por mais que alguns “torçam o nariz”, aumentamos nossa chance de deixar uma boa imagem àqueles que realmente importam para nós.

Por isso, acho interessante o que muitos profissionais de saúde vêm fazendo no TikTok. Eles dão dicas em suas áreas dentro das características da rede, incluindo, em alguns casos, as infames “dancinhas”. Já ouvi várias pessoas afirmando que aquilo denigre as imagens desses profissionais. Não vejo assim: aquela é a linguagem da plataforma e seus usuários estão acostumados a isso. Ao fazer assim, esses profissionais estão prestando um serviço que talvez não chegaria àquele público se se restringissem a “formatos convencionais” de posicionamento.

 

Vivendo em uma vida nova

Devemos entender que as pessoas mudaram, e esse é um processo cuja velocidade cresce exponencialmente.

A digitalização de nossas vidas começou nos anos 1980, ganhou força com a Internet comercial na década de 1990 e explodiu com as redes sociais combinadas ao smartphones nos últimos 15 anos.

Há ainda um fator inesperado e extremamente dolorido, mas que acelerou ainda mais tais inovações: a pandemia. Mudanças nas empresas e em nossas vidas, que demorariam anos para acontecer, ocorreram em questão de poucos meses no ano passado. E qualquer que seja o caminho que encontremos ao sair desse cenário de privações, ele carregará para sempre elementos de um novo jeito de viver.

Uma das coisas mais emblemáticas nisso é que hoje fazemos ainda mais coisas online do que fazíamos em 2019. Algumas atividades então bem pouco desenvolvidas, como o home office e o ensino à distância, cresceram e assumiram uma dimensão em nosso cotidiano que não pode mais ser ignorada.

A maneira como compramos hoje também ficou muito mais online. O relatório Webshoppers, da consultoria Ebit | Nielsen, demonstra uma explosão nisso em 2020, com um crescimento de 41% na receita do e-commerce brasileiro frente ao ano anterior, chegando a R$ 87,4 bilhões. No total de consumidores, o e-commerce brasileiro atingiu 79,7 milhões de pessoas, 29% a mais que em 2019, o que representa 38% da população brasileira total. Além disso, 2020 foi o ano em que 13,2 milhões de brasileiros compraram algo online pela primeira vez em suas vidas.

Esse novo comportamento das pessoas frente ao varejo pode ser extrapolado, com segurança, para a maioria dos serviços. Outra coisa que cresceu enormemente no ano passado (até mesmo por conta da pandemia) foram os atendimentos médicos e psicológicos pelos computadores ou celulares. Tanto que a telemedicina acabou sendo regulamentada no Brasil em março. Os atendimentos psicológicos já tinham sido autorizados pelo Conselho Federal de Psicologia em 2018.

 

A importância da autenticidade

Obviamente não precisamos fazer dancinhas no TikTok para termos um bom posicionamento no meio digital. Essas ações “performáticas” podem gerar muita visibilidade, mas a qualidade do contato é muito mais importante que a quantidade.

Ser autêntico é fundamental por vários motivos. Em primeiro lugar, isso torna todo o processo mais leve para nós. Quando criamos nas redes uma imagem que não condiz com quem somos, um “personagem digital”, temos que estar sempre atentos para não trair sua personalidade. Quanto mais diferente de nós, mais de nossa energia essa personalidade alternativa consumirá.

Infelizmente, esse recurso é muito usado. Além desse consumo de energia, ele embute um outro potencial problema, que pode ser devastador para a imagem de qualquer um. Quando se cria esse “avatar” que não condiz com nossos atos e valores, corre-se o risco de ser desmascarado.

Foi o que aconteceu com a cantora Karol Conká, na edição desse ano do “Big Brother Brasil”. Ela foi eliminada do programa com uma votação recorde de 97,17%, por ter demonstrado arrogância, preconceito e agressividade. Seus fãs viram ali uma pessoa que contrastava com a personagem construída na mídia e nas redes sociais. Como resultado, quando deixou a casa, tinha perdido algo como 40% de seus seguidores e contratos que chegavam a R$ 5 milhões.

Para evitar o temido “cancelamento”, neologismo que descreve o que aconteceu com Karol, seja, portanto, autêntico. Além disso, suas opiniões devem ser sempre embasadas. E isso nos leva a um outro fenômeno recente, que é o abuso do direito de “liberdade de expressão”.

As redes foram tomadas por pessoas que, invocando tal liberdade, acham que podem dizer o que bem entenderem, além de ofender deliberadamente quem pensa de maneira diferente em qualquer assunto.

Em um primeiro momento, isso pode gerar muita visibilidade e até atrair fãs, mas essa não é uma tática sustentável. Isso não é liberdade de expressão (que tem limites), e sim agir como um ogro digital. Comportamentos destrutivos e agressivos devem ser substituídos por atitudes construtivas e agregadoras, se o objetivo for elaborar um posicionamento de qualidade e duradouro.

Aparecer nas redes sociais não pode ser algo que cause dor ou exija muita energia. Se isso estiver acontecendo, algo precisa ser repensado.

Concentre-se no campo das ideias positivas, compartilhe um pouco do que sabe. E entenda que, ainda assim, não agradará todo mundo. Mas basta agradar aqueles com quem queremos nos relacionar. Se fizer tudo corretamente e alguém não gostar, provavelmente essa pessoa não faz parte do seu público.

Por isso, a melhor maneira de vencer a esquizofrenia do posicionamento é não embarcar nessa loucura.

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