Algoritmos criam novas tribos urbanas (às vezes perigosas)

Algoritmos criam novas tribos urbanas (às vezes perigosas)

Paulo Silvestre

26 de abril de 2021 | 07h15

Hoje muita gente é membro de alguma tribo urbana e nem se dá conta. Não me refiro necessariamente às “clássicas”, como os punks ou os nerds, mas mesmo quem não faz parte dessas grandes turmas pode ser bastante ativo. E essa pulverização se dá por conta das redes sociais.

As tribos urbanas surgiram como uma maneira de as pessoas integrarem um grupo de amigos com interesses em comum. Elas existem há décadas e são parte indelével da nossa cultura.

Fazer parte de uma dessas tribos sempre exigiu iniciativa do integrante, tanto para entrar, quanto para se manter nela. Ninguém se tornava metaleiro sem querer! Mas, de uns anos para cá, algo mudou.

Vivemos em um tempo em que entramos em tribos praticamente sem perceber, graças aos algoritmos. E isso pode ser bem ruim para nossa vida, pois somos membros inconscientemente ativos, praticamente teleguiados!


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Os algoritmos de relevância das redes sociais identificam nossas características e nossos gostos para filtrar a realidade. A partir disso, destacam, a cada um dos bilhões de internautas, fatias do mundo que reforçam seus pontos de vista e lhes apresentam uma enormidade de pessoas que pensam da mesma forma.

Como de costume, as redes sociais não criam nada, apenas fazem o que já existe acontecer de forma mais intensa e mais rápida. Por isso, essas novas tribos que criam –essas tribos digitais– são ótimas para nos manter felizes e confortáveis, anestesiados até!

Mas elas também podem reforçar o que temos de pior, a um ponto de colocar a própria sociedade em risco. Basta ver o número incrivelmente alto de pessoas que insistem em não se vacinar, mesmo diante do recrudescimento da pandemia de Covid-19.

Sim, os “antivacinas” são uma nova tribo urbana bem definida! E eles têm força mesmo diante do consenso de que, enquanto a maior parte da população não estiver imunizada, não conseguiremos retomar uma vida que se aproxime da normalidade.

As tribos urbanas se consolidaram ao longo do século 20. Seus membros apresentam uma grande uniformidade de pensamentos, gostos, comportamentos, linguagem e até maneira de se vestir.

Não são organizações formais ou com uma liderança, estando muitas vezes associadas a fenômenos culturais. Tampouco surgem para ativismo político, o que não quer dizer que sejam sempre alienadas com o mundo a sua volta. Pelo contrário, muitas tribos, como os punks, têm posições sociais bastante críticas, que manifestam em músicas, por exemplo.

O termo “tribo urbana” foi cunhado pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, que começou a usá-lo em seus artigos a partir de 1985, mas o conceito já existia há décadas. Outras tribos famosas são os hippies, os geeks, os roqueiros, os skinheads, as patricinhas, os góticos… e por aí vai.

 

Necessidade de pertencimento

Normalmente, as pessoas entram em tribos quando são mais jovens, justamente pela necessidade natural de fazer parte de um grupo. Em muitos casos, as pessoas migram de uma tribo para outra.

É essa mesma característica de querer se associar a pessoas que têm pensamentos semelhantes que permitem que os algoritmos criem essas novas tribos. Porém, ao contrário das tribos urbanas, que não são criadas com objetivo político, muitas tribos digitais surgem exatamente para isso, ou acabam sendo usurpadas para esse fim por grupos de poder.

O próprio movimento contra vacinas é um exemplo.

Quando começou a levar mais a sério a ideia de concorrer à cadeira de presidente dos Estados Unidos, lá pelos idos de 2012, Donald Trump percebeu que uma parcela considerável do público conservador americano tinha dúvidas sobre a eficiência das vacinas. Por isso, começou a fazer uma campanha feroz contra elas nas redes sociais, associando os imunizantes a diferentes doenças e ao autismo.

Muita gente acreditou nisso, e as teorias contra vacinas se espalharam pelo mundo. Como resultado, doenças que estavam praticamente erradicadas em muitos países, como o sarampo, voltaram com força, matando muita gente.

Mas nem Trump podia prever o surgimento da pandemia de Covid-19, cuja saída passa necessariamente pela vacinação em massa. Tanto que o presidente negacionista americano se rendeu aos fatos e comprou todas as vacinas que pôde.

É uma pena que Bolsonaro não tenha feito o mesmo. Pelo contrário, fez campanha aberta contra as vacinas o quanto pôde. O resultado desse negacionismo é que, em dezembro, 22% dos brasileiros diziam categoricamente que não se vacinariam, contra 73% que o fariam. Já no final de fevereiro, com o negacionismo perdendo força diante da doença, 89% já diziam querer se vacinar.

 

Negação como resistência

Os antivacinas não são a única tribo fortemente alimentada pelas redes sociais. Os terraplanistas, as pessoas que afirmam que a Terra é plana e não esférica, se fortaleceram graças principalmente ao YouTube.

Apesar de negarem uma verdade científica amplamente demonstrada, esse grupo tampouco é desprezível. Estima-se que 7% dos brasileiros afirmem que a Terra é um disco e não uma bola, enquanto 3% não têm certeza. Nos Estados Unidos, esses índices são, respectivamente, 2% e 5%. E pesquisas mostram que terraplanistas são mais numerosos entre pessoas mais jovens e entre os menos escolarizados.

Vistos de fora, esses grupos podem parecer um bando de malucos, mas seu crescimento consistente graças às redes sociais não pode ser simplesmente desprezado.

A negação a se vacinar por 10% da população, mesmo diante da maior crise sanitária da história, demonstra o risco que eles representam à sociedade como um todo. E há provavelmente mais antvacinas que hippies, nerds, punks ou qualquer outra tribo urbana “clássica”.

Essas tribos digitais e seu negacionismo à ciência e à cultura podem ser considerados resultado de um movimento de resistência a ideias que vinham guiando a sociedade. Grupos cujos valores eram vistos como inadequados ou ultrapassados –como homofobia, machismo, autoritarismo, xenofobia– ganharam voz, principalmente com a ascensão de políticos de ultradireita nas redes sociais.

Isso explica também a polarização irracional em que o mundo foi jogado. As tribos urbanas, da mesma forma que acolhem seus integrantes, por vezes rejeitam quem é diferente. As tribos digitais, com seus sentimentos exacerbados pelos algoritmos, fazem isso ainda mais, criando divisões que podem descambar em um insano “se você não está comigo, está contra mim”.

De certa forma, isso me lembra as teorias de Zygmunt Bauman (1925 – 2017) e seu “mundo líquido”. Segundo o sociólogo e filósofo polonês, os relacionamentos passaram a ser menos estáveis e definidos mais pelo acúmulo de experiências.

Nas tribos digitais, as pessoas se unem àqueles que podem lhe proporcionar algum benefício imediato, mesmo o simples acolhimento de suas ideias. Mas se aparecer alguém que ofereça mais vantagens ou que saiba manipular os algoritmos melhor, leva todo o rebanho embora.

As pessoas precisam resgatar o controle de seu cotidiano e o apreço por valores inegociáveis, como o direito à vida. Também precisam aguçar seu seno crítico, para que não sejam manipuladas por distorções de outros valores, como o direito á liberdade na boca de vivaldinos.

Fico feliz em ver o crescimento de uma conscientização frente a esses males. Mesmo companhias e lideranças empresariais estão se engajando nisso, até mesmo porque o alinhamento da valores entre marcas e seu público é ótimo para os negócios!

As redes sociais também estão trabalhando nisso, se não pelo amor, pela dor da ameaça de governos conscientes que as responsabilizam pela disseminação de fake news e da criação dessas tribos digitais negacionistas.

Quanto a nós, temos um papel fundamental nessa história. Não há nenhum problema em ser geek, punk ou hippie. Apenas não seja coisas como terraplanista ou antivacina. Precisamos nos unir em torno de ideias que valham a pena e melhorem o mundo.

 

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