Facebook, Google, Apple e Amazon na berlinda

Facebook, Google, Apple e Amazon na berlinda

Paulo Silvestre

03 de agosto de 2020 | 08h21

Você acha que o Facebook, o Google, a Apple e até a Amazon manipulam você?

Nós nos acostumamos tanto a usar os produtos dessas companhias, a maioria deles aparentemente gratuitos, que fica difícil imaginar a nossa vida sem isso. Não seria nenhum exagero dizer que essas quatro companhias definitivamente mudaram a nossa vida nos últimos vinte anos. Mas agora todas estão sendo acusadas de abusos e podem ser obrigadas a se dividir em empresas menores para concorrer entre si.

Se isso acontecer, como essa mudança impactaria nossa vida?


Veja esse artigo em vídeo:


O Facebook, o Instagram e o WhatsApp são um bom exemplo. Todos esses produtos são de uma única empresa: o Facebook. E estão cada vez mais integrados, o que traz recursos inegavelmente interessantes. Nessa pandemia de Covid-19, muitos negócios, especialmente os pequenos, se reinventaram em cima dessas plataformas. Em um momento de distanciamento social e lojas fechadas, muita gente vendeu bastante graças a elas.

E se esses produtos não fossem da mesma companhia gigantesca? E se eles fossem, na verdade, concorrentes? Será que isso teria acontecido? Ou quem sabe poderiam ter feito ainda mais, justamente por serem competidores entre si?

Bom, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp já foram concorrentes!

O Facebook comprou o Instagram em 2012 por US$ 1 bilhão e o WhatsApp em 2014 por incríveis US$ 19 bilhões! Fez isso justamente porque seu CEO, Mark Zuckerberg, os via na época como ameaças ao seu negócio.

O problema é que isso potencialmente viola as leis que protegem a concorrência nos Estados Unidos. Por conta disso e de outras práticas de suas companhias, na quarta passada, o próprio Zuckerberg, além de Sundar Pichai, CEO do Google, Tim Cook, CEO da Apple, e Jeff Bezos, CEO da Amazon, tiveram que prestar depoimento ao Congresso americano.

A sessão, que durou mais de seis horas, foi feita por videoconferência, usando o sistema Webex da Cisco, que não é controlada por nenhum dos quatro conglomerados. Realizado pelo comitê antitruste da Câmara dos Deputados, o depoimento foi o ápice até agora de uma investigação que já dura treze meses e que já juntou 1,3 milhão de documentos.

Isso pode provocar uma profunda mudança nas quatro das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo, inclusive forçando sua divisão em empresas menores. Isso já aconteceu no passado em outros setores, como nos casos da petrolífera Standard Oil e da gigante das telecomunicações AT&T.

As quatro empresas foram acusadas de usar dados de consumidores e de concorrentes para favorecer seus negócios.

Contra o Facebook, foi dito que espiona dados de aplicativos rivais para decidir se devem ser comprados ou copiados. É o caso dos stories, que hoje estão no próprio Facebook, no Instagram e até no WhatsApp, e são uma clara cópia de um recurso do Snapchat. Vale dizer que Zuckerberg tentou comprar o Snapchat e não conseguiu. Depois disso, seus produtos lançaram essa funcionalidade, o que praticamente enterrou o competidor.

O Google também foi acusado de usar informações de concorrentes, e que diminuiria suas exibições nos resultados de sua busca e outros produtos seus.

Já a Amazon foi acusada de usar dados de parceiros que usam sua plataforma para determinar que produtos a gigante deve desenvolver.  Também foi dito que pratica preços anticompetitivos para afetar rivais. Os congressistas ainda disseram que a empresa vende sua caixa de som conectada, a Amazon Echo, abaixo do custo, e que a assistente de voz da empresa, a Alexa, direciona consumidores para produtos da própria Amazon ou de parceiros, ao invés dos que seriam as melhores opções para o usuário.

Já a Apple foi acusada pelo poder que tem com a App Store, a loja de aplicativos para iPhone e iPad, por poder vetar aplicativos na loja e por cobrar uma comissão de até 30% sobre os ganhos dos desenvolvedores.

Os executivos se defenderam das acusações de irregularidades, naturalmente. Todos disseram que trazem grande benefício aos Estados Unidos e aos consumidores, e que não são contra a concorrência. Disseram ainda que precisam crescer constantemente justamente pela competição feroz que enfrentam.

Concorrência inclusive de empresas chinesas, um tema sensível aos Estados Unidos no momento, graças à guerra que Trump declarou a Pequim, com vistas a sua reeleição em novembro. Zuckerberg chegou a sugerir que regular empresas americanas aumentaria o poder das chinesas, que não se pautam pelo que chamou de “valores americanos”, como democracia, livre concorrência e liberdade de expressão.

Apesar de tudo isso, os negócios dos quatro aparentemente não se abalaram com a sabatina e com a pressão que vêm sofrendo há meses. O Facebook, apesar da desaceleração no seu crescimento, aumentou seu faturamento em 11% durante a pandemia, chegando a US$ 18,7 bilhões. Já a Apple reportou um aumento de 11% em seu faturamento nos meses de abril, maio e junho sobre o mesmo período do ano anterior. O aumento na busca por aplicativos e equipamentos para trabalho à distância compensou a perda de receita pelo fechamento de suas lojas no mundo todo. A Amazon, por sua vez, viu seu lucro trimestral duplicar, batendo US$ 5,2 bilhões, puxado pelo negócio de venda e entretenimento on line. Por fim, a Alphabet, controladora do Google, registrou o primeiro decréscimo trimestral de faturamento em 17 anos de cotação na Bolsa: 2% com relação ao mesmo trimestre do ano passado. Isso se deu por uma diminuição no investimento dos anunciantes. Mas o faturamento com publicidade no YouTube e seu negócio de computação na nuvem cresceram.

 

O que isso significa na prática?

Apesar de todo esse barulho, grandes mudanças regulatórias não são esperadas para tão cedo. Isso se acontecerem!

Mesmo que as empresas sejam divididas, isso não causará uma grande mudança em nossas vidas. Do nosso lado, as grandes questões são se estamos sendo manipulados e se nossos dados estão sendo roubados, por exemplo.

Sejamos claros: sim, somos rastreados e nossos dados são coletados o tempo todo! E, sim, os algoritmos de relevância nos manipulam! E a divisão dessas empresas não vai mudar isso.

Precisamos -isso sim- aceitar e entender que isso está acontecendo e como o mundo funciona agora, para, pelo menos, não sermos enganados! Os algoritmos nos rastreiam para nos entregar ofertas supostamente incríveis e feitas para cada um de nós! Mas nós não somos obrigados a aceitá-las!

Por outro lado, se a oferta for realmente boa e para algo que realmente precisamos, ótimo! O que não podemos é comprar por impulso, por exemplo. E isso não é uma recomendação que vale só para o meio digital, claro!

O mesmo acontece com as “fake news”, as infames notícias falsas, que tampouco foram inventadas com as redes sociais, mas que se tornaram um gravíssimo câncer social graças a elas. Não podemos acreditar em tudo que vemos! Temos que entender que grande parte dos problemas que temos hoje no mundo são causados por pessoas, empresas, grupos e governos que usam esses recursos das redes para fazer valer os seus interesses em detrimento dos da sociedade.

É possível usar esses recursos para atingir o público certo de maneira eficiente e ética: muita gente faz isso! O problema são os bandidos, que criam “fake news”, por exemplo. Não sabemos em quem acreditar, nem sabemos mais o que é a verdade! Por isso, temos que escolher muito bem em quem confiar, e não nos deixar levar pelo que as redes sociais jogam em nossa cara.

Precisamos nos apropriar de todos esses muitos recursos do meio digital, que são realmente incríveis! Mas temos que fazer isso de uma maneira que mais nos beneficie que nos prejudique. Porque, aconteça o que acontecer com essas quatro gigantes, o que elas criaram nunca mais deixará de existir.

O que pode ser muito bom!

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