Fuja do limbo entre sua “vida real” e o mundo online

Fuja do limbo entre sua “vida real” e o mundo online

Paulo Silvestre

27 de setembro de 2021 | 06h40

Sou um apaixonado pela alma humana. Ela se manifesta de maneiras inesperadas e até inusitadas. Já há um bom tempo, isso se dá de forma crescente no meio online. Às vezes, temo que isso esteja indo longe demais e estejamos nos perdendo nessa virtualidade, embebidos por esse “éter digital” e desprezando o valor de atividades presenciais.

A pandemia acelerou esse processo. O distanciamento social por meses mudou algo na cabeça de muita gente. Por exemplo, mesmo com os escritórios autorizados a funcionar a plena capacidade, cresce o número de brasileiros que querem continuar no home office.

Somos seres gregários: precisamos do contato com o outro! Não podemos ir contra nossa natureza. O digital pode nos ajudar nisso, mas não pode nos sugar para dentro das telas.


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No mês passado, uma pesquisa da FIA (Fundação Instituto de Administração) e da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP indicou que 78% dos trabalhadores brasileiros querem manter o home office, ainda que parcialmente. Já o número dos que querem voltar aos escritórios diariamente caiu de 19% para 14% desde o ano passado. Para completar, 81% dos entrevistados afirmaram que a produtividade em casa é maior ou igual à conseguida na empresa.

O que torna esse número mais emblemático é surgir nesse momento de escritórios reabertos, e tendo crescido oito pontos percentuais em um ano. Há colegas que interagem diariamente e nunca se encontraram, pois foram contratados durante a pandemia.

A audiência de plataformas digitais para conhecer outras pessoas também explodiu nesse período. No auge do distanciamento social, muitos desses encontros aconteciam apenas online. Com o relaxamento dessas regras, as pessoas estão “tirando o atraso”.

Isso me faz pensar no “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman (editora Zahar, 2004). Para o filósofo e sociólogo polonês, falecido em 2017, quando a qualidade das relações diminui demais, isso é compensado por uma quantidade enorme de parceiros. “Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar”, escreveu.

Dessa forma, a relação social construída com uma responsabilidade mútua é trocada pelo que Bauman chama de “conexão”. Ele explica que o grande apelo dessas plataformas digitais está na facilidade de se esquecer o outro, de se “desconectar”. Essa seria a forma de se relacionar na “modernidade líquida”: troca-se, sem qualquer remorso, os parceiros por outros “melhores”.

Isso nunca foi tão verdadeiro!

 

“Desvirtualizando”

Nesses 20 meses de pandemia, já propus a várias pessoas e grupos que, assim que possível, “desvirtualizemos”. Em outras palavras, devemos nos encontrar para levar nosso relacionamento a um novo patamar, especialmente para aqueles com quem me encontrei apenas digitalmente.

Esse processo acontece também de maneiras imprevisíveis. Foi o caso da figurinista Marissa Meizz. Em maio, ela soube que o vídeo de um desconhecido que a procurava já tinha alcançado 14 milhões de visualizações no TikTok. O homem havia descoberto que amigos dela dariam uma festa em um fim de semana em que viajaria, para que ela não participasse.

Obviamente isso magoou Meizz. Entretanto, ao invés de “curtir uma fossa” sozinha, essa americana de 23 anos decidiu contar sua história na mesma rede social, e se tornou uma celebridade instantânea. Graças a isso, passou a organizar eventos ao ar livre para que pessoas se tornassem amigas. E eles têm reunido centenas delas em várias cidades dos EUA.

Essa história traz duas das características essenciais dos relacionamentos online: instantaneidade e abrangência. Qualquer coisa que fizermos pode impactar grande quantidade de pessoas, de uma maneira inexplicável pelo senso comum. Mas a esmagadora maioria desses “amigos de Facebook” é, na melhor das hipóteses, as “conexões” descritas por Bauman.

Ironicamente esse tipo de relacionamento pode trazer muitos benefícios comerciais. Afinal, uma boa exposição pode ser excelente para, por exemplo, vender qualquer tipo de produto ou serviço.

O problema é que a fugacidade e a descartabilidade desses “relacionamentos líquidos” tiram de nossas mãos qualquer forma de controle sobre eles. Ficamos à mercê dos algoritmos das redes sociais, que, da mesma forma que podem levar alguém ao estrelato digital, pode reduzir o indivíduo a uma posição obscura com a mesma velocidade. Isso exige muita maturidade emocional, tanto para lidar com o sucesso, quanto com o fracasso repentinos.

Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora dos livros “Alone Together” (“Sozinhos Juntos”, em uma tradução livre, Basic Books, 2017) e “Life On The Screen” (ou “A Vida na Tela”, Simon & Schuster, 2011), afirma que, à medida que a conexão digital com as pessoas aumenta, nossas vidas emocionais diminuem. Seu argumento é que, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com outras pessoas pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas e nos levam à solidão.

Segundo ela, com a imposição do distanciamento social, percebemos quanto os contatos presenciais são importantes. Por isso, quando finalmente conseguem se reencontrar, as pessoas apreciam muito mais a presença do outro.

Em “Amor Líquido”, Bauman escreveu que “amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.” E continuou: “no amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”

Dessa forma, temos que naturalmente aproveitar todos os recursos que o meio digital nos oferece. Os aprendizados da pandemia, adquiridos a um custo tão alto, permanecerão, trazendo ganhos a tudo que fizermos e nos colocando em contato com pessoas antes inimagináveis.

Mas não podemos deixar que isso subjugue a importância do contato físico e de relacionamentos mais profundos e verdadeiros. Ainda segundo Bauman, apenas quando nos damos conta de que nossa voz é ouvida e de que nossa presença é sentida, entendemos que somos únicos e dignos de amor.

Precisamos do outro em um contato de qualidade para nos fazer perceber isso. Usemos, então, os recursos digitais com inteligência!

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