Marchamos firmemente para o inferno

AO VIVO

Acompanhe notícias do coronavírus em tempo real

Marchamos firmemente para o inferno

Paulo Silvestre

26 de dezembro de 2019 | 14h21

Jesus Cristo (Gregório Duvivier) e seu amigo gay (Fábio Porchat), na sátira “A Primeira Tentação de Cristo”, do Porta dos Fundos - Foto: reprodução

Jesus Cristo (Gregório Duvivier) e seu amigo gay (Fábio Porchat), na sátira “A Primeira Tentação de Cristo”, do Porta dos Fundos

Nunca pensei que escreveria um artigo como esse apenas um dia após o Natal, mas acontecimentos recentes exigem um posicionamento rápido e enérgico.

Em pleno dia de Natal, começou a circular no WhatsApp e no YouTube um vídeo do autointitulado “Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira”, em que se vê integrantes do grupo atirando três bombas incendiárias caseiras contra a sede da produtora do humorístico Porta dos Fundos, no bairro de Humaitá, no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, que o comparou com imagens de câmeras de segurança, ele é autêntico.

O atentado terrorista aconteceu na madrugada do dia 24. Felizmente não houve vítimas, e o incêndio foi controlado por um segurança do local.



Os criminosos afirmam em seu vídeo que o ataque é uma represália ao filme “A Primeira Tentação de Cristo”, produzido pelo Porta dos Fundos e disponível na Netflix desde o dia 3 de dezembro. Na sátira de 46 minutos, Jesus Cristo, interpretado por Gregório Duvivier, volta do jejum de 40 dias no deserto com um amigo, vivido por Fábio Porchat, com quem viveria um romance gay.

A 10ª DP (Botafogo) investiga o caso como crime de explosão, que pode ainda ser enquadrado na Lei Antiterror, por usar explosivo “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião” com o objetivo de “provocar terror social”.

A Frente Integralista Brasileira divulgou nota em seu site negando qualquer vínculo com os criminosos, e afirmando que integralistas não usam máscaras em suas ações.

Surge então a pergunta: quem são essas pessoas e por que fazem isso?

 

Tempos de intolerância

Quando li a primeira notícia sobre o atentado terrorista pensei imediatamente: “je suis Charlie”. A frase surgiu em 2015, após o atentado ocorrido no dia 7 de janeiro daquele ano contra a sede da revista semanal satírica francesa Charlie Hebdo: fundamentalistas islâmicos atiraram com fuzis contra a equipe e policiais, matando 12 pessoas e ferindo gravemente outras cinco.

O crime foi uma nova retaliação contra a edição de 2 de novembro de 2011, que apresentava, na capa, uma charge do profeta Maomé como redator-chefe, dizendo “100 chicotadas se você não morrer de rir”. Antes desse fatídico ataque, a revista havia sido atacada com uma bomba incendiária, no mesmo mês da edição acima.

Estamos caminhando para isso aqui no Brasil? Possivelmente!

Surgido ainda na Antiguidade, o humor, por vezes, atua no limite dos costumes e pode flertar perigosamente com temas delicados. Nem por isso deve ser censurado e muito menos humoristas devem ser atacados.

Tenho amigos que se sentiram ofendidos e tenho amigos que riram muito com o filme do Porta dos Fundos. Mas obviamente os primeiros nunca cogitaram um ataque à empresa ou aos humoristas, pois são pessoas decentes e inteligentes, e sabem que um ataque como esse contrariaria a própria fé. Até onde sei, nenhum deles sequer utilizou um instrumento socialmente legítimo para isso, que é recorrer à Justiça. Entenderam que fazer campanha contra o filme em seus círculos pessoais seria o suficiente.

Houve, sim, um abaixo-assinado online pedindo a retirada da produção da Netflix. E, no dia 19, a Justiça do Rio negou liminar a um pedido semelhante. A decisão foi tomada por não haver motivos legais para isso e que isso configuraria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”.

Esse é o caminho que deve ser seguido por uma sociedade organizada e evoluída.

Vale lembrar que algumas das ditaduras mais sanguinárias da história começaram conquistando apoio popular ao defender uma suposta “moral e bons costumes”. Algumas dessas ditaduras foram eleitas democraticamente, outras chegaram ao poder com golpes de Estado. Impossível não pensar na ascensão do nazismo de Hitler, ou do socialismo soviético consolidado com Stalin, que se apoiaram no povo para fazer valer seu ponto de vista. E quem pensasse de maneira diferente era preso ou, de preferência, morto.

A Justiça deve combater exemplarmente esse tipo de crime, especialmente em um momento em que diferentes governos conservadores incentivam ações extremistas contra tudo e todos que se posicionem contra seus interesses. Eles ganham força pela manipulação de grandes massas populares, que inocentemente acreditam estar defendendo valores nobres.

A imprensa vem sendo atacada sistematicamente, em especial quando faz bem seu trabalho essencial de fiscalizar o governo. Cientistas são desacreditados por demonstrar, de maneira irrefutável, temas que contrariam os interesses de poderosos. Professores são perseguidos e agredidos por grupos conservadores por questões ideológicas. E até as artes são atacadas por aqueles que se acham no direito de julgar e punir sob a sua própria visão distorcida do mundo.

É exatamente o mesmo mecanismo criado pelos nazistas. Por isso, tenho medo de que, muito em breve, assistamos a pessoas literalmente queimando “livros subversivos” ou “arte degenerada” em praça pública.

Quando isso acontecer, aí sim teremos chegado ao inferno.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


Artigos relacionados:

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: