Nosso robô doméstico pode nos trair

Nosso robô doméstico pode nos trair

Paulo Silvestre

15 de novembro de 2021 | 10h36

Os robôs estão invadindo nossas casas! Não as máquinas que se parecem a nós, como as do filme “Blade Runner”, ou as caricatas, como Rosie, a androide-empregada de “Os Jetsons”. Falo de equipamentos mais simples, como aspiradores de pó inteligentes e assistentes virtuais que ganham corpo e nos seguem pelos cômodos. Entretanto, apesar de bastante úteis em nosso cotidiano, temos que perguntar a quem elas realmente servem.

A princípio, esses robôs fazem exatamente aquilo pelo que pagamos. Mas vivemos no mundo do “capitalismo de vigilância”, em que somos constantemente observados por sistemas que descobrem do que gostamos, para nos oferecer produtos que possamos comprar.

Além disso, cada vez mais coisas –como nossos celulares, relógios, carros, eletrodomésticos e até roupas– coletam nossos dados para esses algoritmos. Portanto, apesar de sermos donos desses robôs, temos que questionar se eles trabalham para nós ou para seus fabricantes.


Veja esse artigo em vídeo:


Alguns lançamentos nas últimas semanas aqueceram esse debate. Um deles foi o Astro, um pequeno robô da Amazon com uma tela montada sobre o corpo com rodas, e a Alexa, a premiada assistente virtual da empresa, em seu cérebro. Coincidência ou não, ele tem o mesmo nome do cachorro dos Jetsons, mas não se parece em nada com ele, apesar de lembrar, de certa forma, um bichinho.

Com um custo de US$ 1.000 nos EUA, o aparelho tem uma série de recursos interessantes, como executar variados comandos de voz, dar recados e até entregar coisas para pessoas específicas da casa. Isso só é possível porque ele reconhece rostos e vozes de cada morador. Também faz videochamadas em qualquer lugar, a partir de sua tela. Possui ainda recursos para acompanhar pessoas que exigem atenção especial e até animais de estimação, e um curioso sistema de segurança, que faz com que verifique barulhos suspeitos e fique seguindo e gravando imagens de pessoas que não conheça.

A princípio, parece tudo muito bacana! Mas especialistas em privacidade criticam pesadamente um robô que caminha livremente pela nossa cosa, coletando imagens e sons constantemente, para tomar decisões. Sabe-se que Astro é capaz de transmitir informações pela Internet para seu dono. Mas a Amazon não confirma ou nega se algo também é enviado para ela. E a empresa é conhecida pela eficiência em nos oferecer um pouco de tudo com base em quem somos e do que gostamos.

Outro produto lançado recentemente é o Roomba j7+, versão mais recente do popular aspirador de pó doméstico da iRobot. Essa categoria de robô, que já era objeto de desejo para muita gente, ficou ainda mais popular no início do distanciamento promovida pela pandemia.

Sua grande vantagem é limpar cada vez melhor nossa casa, de maneira totalmente autônoma. Isso é possível porque sua inteligência artificial e seus sensores permitem que ele mapeie a planta da residência e a disposição dos móveis, para que seu caminho fique mais eficiente a cada uso.

O j7+, que custa US$ 850 nos EUA, vai além: ele traz uma câmera capaz de reconhecer obstáculos ignorados pelos modelos anteriores, como cocô de cachorro, desviando deles para não espalhar sujeira ao invés de limpar. Ele ainda envia uma foto do “achado” ao celular do dono e para a empresa –se o usuário permitir– para melhorar o reconhecimento das imagens.

Não é a primeira vez que aspiradores-robôs enviam dados das casas dos usuários a seus fabricantes. Por mais que sejam criptografados e anônimos, eles têm grande valor para qualquer um que deseje saber como as pessoas de uma determinada região ocupam suas próprias casas. Isso pode, por exemplo, ajudar nos projetos de futuras moradias.

 

Olha quem está ouvindo

O temor de que nossos equipamentos –especialmente os smartphones– estejam nos ouvindo para funções indesejadas não vem de hoje. Quem nunca pelo menos soube de histórias de usuários que começaram a receber ofertas de produtos sobre os quais haviam acabado de falar com outra pessoa diante de seu celular?

Obviamente esses aparelhos, que são a única coisa que carregamos conosco durante as 24 horas do dia, estão nos ouvindo o tempo todo! Afinal, eles precisam fazer isso para executar nossos comandos de voz.

Apple, Google e Amazon afirmam que as assistentes virtuais presentes em seus aparelhos usam esse recurso apenas para os fins indicados. Suponhamos que isso seja verdade, mas será que as dezenas de aplicativos que instalamos em nossos smartphones são assim tão éticos com o áudio e o vídeo que eles podem capturar sem o nosso conhecimento? Por muito menos, alguns desses programas já roubaram informações sensíveis de seus usuários em troca de alguma gracinha que entregam às pessoas.

Vejo muita gente cancelando suas contas nas redes sociais para não ser rastreado, mas isso é de uma enorme ingenuidade. Somos espionados a toda hora pelos nossos eletrodomésticos e até por câmeras e equipamentos da cidade. Há alguns anos, li os Termos de Uso de uma TV de um grande fabricante que indicava ao usuário para “não fazer diante do aparelho nada que pudesse se arrepender depois”. Afinal, o modelo tinha câmera e microfone embutidos.

Vai saber quem poderia estar ouvindo e vendo!

 

Posso querer que apenas aspirar?

Apesar dessa preocupação legítima de não querer ser rastreado, isso fica cada vez mais difícil de se conseguir.

É um fato que, quando compartilhamos nossos dados, esses sistemas tendem a nos oferecer melhores serviços. Alguns deles, totalmente integrados ao nosso cotidiano, como produtos do Google, do Facebook e da Apple, praticamente só funcionam bem com essa arapongagem!

Nós, por outro lado, passamos por uma profunda mudança cultural nos últimos anos. Aceitamos abrir mão de muito de nossa privacidade para poder usar esses produtos. Parece ser tudo grátis, mas pagamos caro por eles, justamente com nossos dados.

Chegamos assim a uma decisão crítica: será que não há outro caminho para a modernidade a não ser expondo nossas intimidades, ainda que de forma anônima, para essas empresas?

Vale lembrar que, mesmo que os fabricantes deem o melhor tratamento para esses dados, que garantia temos que esses equipamentos não serão hackeados para se tornarem espiões para criminosos? De certa forma, a coleta ilegal de nossas informações por empresas no Facebook para depois nos convencer o que comprar, com quem falar e até em quem votar é exatamente isso. Mas, agora, talvez estejamos correndo o risco de alguém literalmente olhar dentro de nossas casas.

A verdade é que qualquer fabricante pode incluir em seus programas e em seus robôs códigos que nós, como usuários, jamais saberemos. É preciso que se crie algum órgão que garanta que eles nos contem tudo que precisamos saber sobre o que produzem. Mas honestamente acho isso pouco exequível.

Em tempos de Lei Geral de Proteção de Dados, temos o direito de saber tudo o que será coletado de nós e exatamente o que será feito disso e com quem será compartilhado. E aceitar esses pedidos não pode ser uma condição para que o equipamento execute bem a tarefa para qual foi adquirido.

No fim das contas, para limpar nossa casa muito bem e sozinho, o aspirador de pó não precisa contar a ninguém onde estão nossos móveis.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.