O “computador de US$ 100” virou o “tablet de US$ 75”

Gabriel Pinheiro

17 de junho de 2010 | 03h01

A fundação One Laptop Per Child (OLPC) anunciou, no ultimo dia 27, que está substituindo a sua ideia de produzir notebooks educacionais a US$ 100 para crianças de países em desenvolvimento por outra, com um novo equipamento, um tablet nos moldes do iPad.

Batizado de XO 3 (por ser a terceira versão), a nova maquininha será produzida pela Marvell Technology Group a US$ 99, mirando uma meta de US$ 75 quando (e se) o ganho de escala de seu produto Moby, de onde o XO 3 será derivado, permitir isso. O objetivo seria chegar a isso para a próxima Consumer Electronics Show, que acontece em janeiro, mas a diferença entre o que o Moby é e o que o XO 3 promete ser sugere que isso não deve acontecer mesmo antes de 2012: Nicholas Negroponte, o idealizador da iniciativa e diretor do Media Lab, do MIT, quer que o XO 3 seja à prova d’água, todo em plástico resistente, mais fino que o iPad e tenha um processador de 8 GHz (o Moby roda a 1 GHz).

Mas a grande pergunta é: o preço de US$ 75 se tornará realidade algum dia, pelo menos dentro dos próximos anos? Pois, desde que foi proposto, ainda em 2005, o aclamado “computador de US$ 100” não passou de um slogan: a organização nunca conseguiu trazer o preço para abaixo dos US$ 200, mesmo tendo entregue mais de 2 milhões de máquinas pelo mundo.

A descrença do parágrafo anterior se deve à recorrente incapacidade de cumprir a maior de todas as promessas do projeto, sua grande bandeira: colocar um notebook educacional de US$ 100 nas mãos de todos os estudantes do mundo. É uma pena, pois, como defensor dos benefícios do uso da tecnologia na educação, torço para tudo que a OLPC proponha dê certo.

O próprio equipamento, mesmo a sua primeira versão, é excelente. Para este que lhes escreve, seu único problema é o sistema operacional Sugar, um “sabor” de Linux que traz uma interface que não se parece com nenhum outro sistema, seja Windows, MacOS ou mesmo outras distribuições do Linux. Para um equipamento de inclusão e educação digital, isso me parece contraditório. Mas aparentmente eles ouviram meus apelos: o XO 3 poderá rodar os sitemas Android, Windows Mobile e Ubuntu, além do Sugar.

Na semana passada, participei do II Web Currículo, seminário na PUC-SP que discutiu o uso de tecnologias na educação. O XO foi mencionado em vários momentos, inclusive na última palestra, de Paulo Markum, que teceu críticas à proposta. Para o jornalista, a intenção do Governo Federal de comprar 50 milhões de notebooks educacionais (outra promessa jamais realizada, nem de longe) investiria uma enorme soma de recursos públicos em equipamentos que, em pouco tempo, estariam obsoletos. Para ele, seria muito mais interessante usar esse dinheiro para financiar iniciativas privadas, em escolas e até mesmo lan houses, que garantiriam a atualização do parque.

Curiosamente, o grande benefício da iniciativa da OLPC foi jogar os holofotes sobre a questão de tecnologia na educação e a possibilidade de se obter grande ganhos pedagógicos com isso, e como isso pode ser maximizado com alunos usando, cada um, um computador. Um outro grande benefício foi propor ao mercado um novo modelo de equipamento com características específicas a baixo custo, que inspirou o segmento dos netbooks, um grande sucesso de mercado (não educacional). Talvez faça o mesmo agora com os tablets, derrubando os seus preços. Se isso acontecer, é possível que vejamos equipamentos comerciais chegando em maior quantidade às escolas. A tarefa estaria cumprida.

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