O digital lhe tornará um gênio ou uma besta: você decide

O digital lhe tornará um gênio ou uma besta: você decide

Paulo Silvestre

12 de outubro de 2020 | 07h45

A tecnologia está literalmente nos transformando, de maneiras que a maioria das pessoas sequer imagina! Mas nos converte em que: gênios ou bestas?

Incrivelmente, a decisão está em nossas mãos!

Tenho acompanhado o crescimento de desconfiança em relação ao meio digital, especialmente às redes sociais. Sistemas que nos rastreiam e coletam nossos dados continuamente, algoritmos de relevância que nos empurram goela abaixo todo tipo de informação e nos manipulam, incontáveis notificações que nos mantêm continuamente engajados, fake news, deef fake, filtros bolha… Tudo isso existe mesmo e chega a ser assustador!

Entretanto, ninguém deixará de usar as redes sociais, buscadores, smartphones e outros recursos do mundo digital, mesmo sabendo que esses sistemas estão o tempo inteiro nos rastreando e coletando informações de todo tipo sobre nós.


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Não temos como colocar o gênio de volta na lâmpada!

Os meios digitais nos garantem altas doses de dopamina enquanto os usamos! Nossas vidas ficaram muto mais fáceis e divertidas com todos esses sistemas. Pagamos com o nosso tempo e a nossa atenção aos anunciantes dessas plataformas.

Mas o buraco é mais embaixo.

A superexposição aos recursos digitais está nos provocando alterações até mesmo do ponto de vista fisiológico.

Em 2011, a pesquisadora em psicologia Betsy Sparrow realizou um estudo na Universidade Columbia (EUA), que identificou alterações em nosso cérebro pelo uso do Google e de outros buscadores. Ela concluiu que, graças a ele, nós passamos a memorizar muito menos informação.

O Google não quis criar isso. Mas acabou promovendo a mudança.

Responda a si mesmo: de quantas pessoas você sabe o número de telefone de cor? Provavelmente muito poucas, possivelmente menos que dez! Mas se eu lhe fizesse essa pergunta há 15 anos, você provavelmente saberia o telefone de muita gente e até de empresas.

O que aconteceu? Estamos ficando mais burros?

Não é nada disso! Acontece que nosso cérebro tem uma plasticidade incrível! Informações ou habilidades que ficam menos importantes para nossa vida abrem espaço nele para novos recursos, que estamos efetivamente usando.

A pesquisa de Sparrow demonstra que toda a informação que sabemos que pode ser facilmente encontrada (por exemplo na Internet) é eliminada de nossa memória. Em compensação, melhoramos nossa capacidade de encontrar pessoas, objetos e informações com os recursos que tivermos a nossa disposição. Ou seja, refinamos uma habilidade importantíssima, a de encontrar o que procuramos, mas memorizamos menos coisas.

Essa conclusão é muito importante para ajustarmos como levamos nossas vidas e até como aprendemos coisas novas.

 

A diferença entre informação e conhecimento

Não é de hoje que observo como os alunos já chegam na sala de aula com uma quantidade incrível de dados, que eles encontram na rede.

Como professor, se eu ficasse simplesmente passando informação, como os professores costumavam fazer (e infelizmente muitos ainda fazem), seria um enorme desperdício de tempo! Muito melhor é ajudar os alunos a juntar as informações que todo o grupo traz para o debate e construir um conhecimento novo e útil a partir disso.

Podemos também pensar no varejo, como exemplo. Hoje, quando o cliente vai a uma loja para comprar algo, muito provavelmente já pesquisou sobre aquele produto na Internet e talvez tenha mais informação sobre ele que o próprio vendedor. Se ele tentar convencer o consumidor simplesmente passando esses mesos dados, corre o risco de perder a venda. Precisa trazer algo novo e contextualizado para aquele cliente! E aí a tecnologia pode ser de grande ajuda, pois ele pode receber, em tempo real, muitas informações valiosas sobre a pessoa que estiver a sua frente, para que ele mostre como o produto a ajudará a satisfazer suas necessidades específicas, e não coisas genéricas.

Isso é bom não apenas para o varejista (porque vai aumentar suas vendas), mas também para o consumidor, que levará para casa um produto que realmente atende suas expectativas, e não qualquer outra coisa, resultado de uma compra ruim.

Infelizmente nem todos estão dispostos a usar esses recursos, essa informação, essa transformação de maneira positiva. Muitos, possivelmente a maioria da população, entrará “no modo automático” e se deixará levar pelos infames algoritmos das plataformas digitais.

E aí é para se ter medo mesmo! Pois essas pessoas já se tornaram massa de manobra de grupos políticos, ideológicos e econômicos. Na prática, terceirizaram seu senso crítico, sua habilidade de pensar criativa e construtivamente.

Esse é um dos maiores desafios dessa geração, pois os sistemas dessas plataformas estão cada vez mais eficientes, para que elas se tornem mais sedutoras. Por outro lado, a turma que quer manipular a população para atingir os seus objetivos –muitas vezes condenáveis– domina mais e mais esses recursos.

Temos que recuperar as rédeas de nossa vida, ou esse poder de transformação do meio digital pode nos converter em bestas, quando poderia nos tornar gênios!

No momento, o lado ruim de toda essa entrega tecnológica está ganhando. Você não precisa ir longe para comprovar isso. Basta olhar, nas redes sociais que você usa, o nível das publicações.

É assustador como elas são rasas e de uma mesmice atroz! Parece que, qualquer que seja o assunto, acabamos tendo apenas algo como meia dúzia de opiniões, que são replicadas indefinidamente pela massa.

Somos seres pensantes, e não gado! Aliás, essa é uma das coisas que mais nos diferenciam de todos os outros animais.

Entretanto, bem em linha com as transformações promovidas em nós pelo meio digital, aquela visão medíocre da vida que se vê nos posts nas redes sociais já invadiu o cotidiano das pessoas. Tudo que é profundo, que exige mais pensamento, perde espaço para aquilo que é mais que simples: simplório! As pessoas querem coisas cada vez mais fáceis, mais básicas, mais rápidas, mais baratas, para um consumo desenfreado e descartável, com as mesmas características.

Vejo isso na evolução da pós-graduação, com o crescimento dos cursos de curtíssima duração, com poucas horas, e o encolhimento da procura por cursos com mais de um ano, como especializações e MBAs. Que dizer então de mestrados e doutorados?

Não há nada de errado em se aprender uma habilidade específica para aplicá-la imediatamente no seu cotidiano. Mas, se estamos sempre reclamando que nosso país e o mundo estão ruins, precisamos colocar mais de nós mesmos para mudar essa situação. Temos que sair da zona de conforto! Temos que desafiar o status quo!

Temos que usar os recursos digitais para nos tornarmos pessoas melhores, e não o contrário!

O discurso, o diálogo, as entregas estão muito empobrecidos! As pessoas estão perdendo a sua capacidade de pensar, de criar, de se libertar! Se isso continuar, teremos, em breve, um futuro distópico em que poucos grupos terão ainda mais controle sobre toda a população.

Temos que usar a tecnologia para nos livrar disso, e não para nos levar a isso.

Quais serão os seus próximos passos com ela?

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