O dilema do bom produtor de conteúdo

O dilema do bom produtor de conteúdo

Paulo Silvestre

09 de agosto de 2021 | 07h22

Em um mundo dominado pelo meio digital, em que as redes sociais ajudam a construir impérios e a vender de tudo, produzir conteúdo deixou de ser prerrogativa de empresas de comunicação e de jornalistas. Pessoas e negócios de todo tipo se aventuram nessa tarefa para se posicionar. Mas o que poderia ser algo benéfico e até divertido pode ganhar contornos sinistros, graças à intolerância nessas plataformas. E isso faz muita gente boa sofrer com suas publicações ou duvidar se deve se expor assim.

Na semana passada, o filho de 16 anos da cantora de forró Walkyria Santos se suicidou depois de receber uma enorme quantidade de comentários homofóbicos. Tudo porque ele havia publicado um vídeo que viralizou no TikTok, em que simulava um beijo em um amigo.

Esse é um caso extremo, mas infelizmente não é único. Além disso, vemos todos os dias uma enxurrada de ataques gratuitos, pesados e extremamente virulentos contra pessoas que fizeram publicações inofensivas e às vezes até positivas para a sociedade. Entretanto, por não concordarem com algo que foi dito, os “valentões digitais” não têm limites na sua fúria para desqualificar as ideias e destruir o autor.

Chegamos a um ponto irracional em que se produz conteúdo o tempo todo, mas isso pode subitamente destruir uma reputação e provocar grande sofrimento.


Veja esse artigo em vídeo:


É absolutamente injustificável um ataque desumano como o sofrido pelo filho de Walkyria Santos. A maioria desses agressores possivelmente não faria o mesmo olhando nos olhos da vítima, mas protegidos pela ilusão da “manada digital”, que justifica e incentiva o ódio e a intolerância, cada um deles agora carrega uma parcela da culpa pelo suicídio do jovem. O problema é que eles nem devem estar se importando com isso, seguros do outro lado da tela.

É praticamente impossível agradar todo mundo, ainda mais quando todos parecem ter opinião sobre qualquer assunto. Os algoritmos das redes sociais, que nos colocam em contato apenas com quem pensa como nós, estão destruindo a empatia e a capacidade de se construir com as diferenças.

O ativista político e pesquisador do meio digital Eli Pariser descreveu isso há uma década, com o conceito de “filtros-bolha”. Segundo ele, os algoritmos não são éticos ao tentar nos mostrar apenas o que nos agrada, barrando qualquer pensamento dissonante, tudo para aumentar a audiência das plataformas digitais.

Longe de ser um exagero, o conceito de Pariser é um fato que nos embrutece e nos torna menos tolerantes, resultando nesse cenário insustentável em que vivemos. A sociedade entrou em uma desnecessária autofagia.

 

O paradoxo da tolerância

É triste observar tudo isso!

A Internet comercial nasceu em 1994 como um espaço muito democrático, em que todos podiam se expressar livremente. Ninguém a imaginava como a máquina política de manipulação que se tornou nos últimos anos. Era um cenário idílico, em que todos falavam e ninguém se agredia (sim, a Internet já foi assim!).

Como pesquisador do meio digital e jornalista que atua nele desde seu primeiríssimo momento, defendo essa liberdade e combato os intolerantes, o que pode parecer uma contradição. Mas ela foi perfeitamente descrita em 1945 pelo filósofo austríaco Karl Popper com seu “paradoxo da tolerância”, no best-seller “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Segundo ele “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. O filósofo explica que “se não estivermos preparados para defender a sociedade do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles”. Ele afirma que não é necessário calar as filosofias intolerantes, desde que possam ser combatidas com argumentos racionais e mantidas em xeque frente à opinião pública.

Popper alerta, entretanto, que os intolerantes podem não estar preparados para lidar com a razão, “a começar por criticar todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores e os ensinam a responder aos argumentos com punhos ou pistolas”.

Alguma semelhança com o mundo atual?

Popper sugere que devemos então, em nome da tolerância, não tolerar o intolerante. E conclui que “devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique fora da lei e que qualquer incitação à intolerância e perseguição seja considerada criminosa”.

 

O raso combatendo o profundo

Cada um dá aquilo que tem! Infelizmente, as pessoas estão com cada vez menos recursos intelectuais, então se valem da agressividade e da divisão para combater quem tem a profundidade da qual não dispõem.

O problema é que essa violência dói em quem está querendo se posicionar de maneira construtiva. Por isso, vejo muita gente que poderia contribuir brilhantemente com a sociedade nas redes se calando para evitar ser envolvido em algum turbilhão insano, que prejudique sua imagem e até sua saúde mental.

Em resumo, os únicos que ganham com isso são os rasos, os intolerantes, aqueles que querem achatar toda a sociedade a seu nível.

Àqueles que querem usar as redes sociais para se posicionar, eu sempre digo que façam isso com um bom conteúdo. E, por “bom conteúdo”, entenda-se algo que apresente suas qualidades, contribua com o crescimento de quem verá aquilo, e não ofenda ou diminua ninguém. Quem tem a pretensão de criar uma boa imagem no meio digital deve entender que isso deve ser feito de maneira construtiva, e não praticando a intolerância ou cometendo crimes.

Claro –como já expliquei– sempre haverá o risco de “receber pedradas” mesmo quando se fizer tudo corretamente. Por isso, a sugestão é publicar sempre com segurança do que se está fazendo ou dizendo. No caso de ataques, haverá argumentos para se apresentar.

É verdade que eles podem ser muito agressivos, e acabam abalando o autor. Alguns ainda fazem isso para tentar crescer um pouco ao criticar alguém de mais envergadura moral e intelectual. Mas não se deve deixar abater por isso. O “idiota da aldeia”, como o filósofo italiano Umberto Eco descreveu em 2015 esses tipos que florescem no pus do ódio das redes sociais, sempre podem ser ignorados ou até mesmo bloqueados.

Ou resgatamos a nossa capacidade de conviver em harmonia com as diferenças, construindo com elas ao invés de silenciá-las, ou corremos o risco de deixar de sermos uma espécie viável no futuro. Não podemos nos tornar uma sociedade medíocre pela agressividade dos intolerantes.

Portanto, para esses, o conselho é: cuidado ao atacar alguém só porque a “manada” justifica. Isso pode ferir uma pessoa profundamente. Se esse comportamento não for combatido, o agressor pode ser a próxima vítima.

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