O ensinamento oculto de “Parasita” para a vida

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O ensinamento oculto de “Parasita” para a vida

Paulo Silvestre

19 de fevereiro de 2020 | 07h44

Cena de

Cena de “Parasita”, com o personagem Kim Ki-Woo (esquerda) “analisando a arte” do filho de Park Yeon-Kyo

No último dia 9, pouco antes da cerimônia do Oscar, a correspondente da rede ABC que cobria o “Tapete Vermelho” fez uma pergunta que muitas pessoas consideraram tola ao diretor sul-coreano Bong Joon-Ho, sobre seu filme “Parasita”: “o que fez você fazer o filme em coreano, quando outros filmes seus foram em inglês?” Ao que ele respondeu: “quis explorar o tema (da riqueza e da pobreza) com personagens que eu vejo no meu cotidiano na Coreia, em coreano.” Algumas horas depois, o diretor e sua obra se tornaram os grandes vencedores da noite, levando os prêmios de melhor roteiro original, melhor filme internacional, melhor diretor e melhor filme, o primeiro em 92 anos de Oscar a receber o prêmio máximo em um idioma que não fosse inglês.

Como ele conseguiu essa proeza? Na verdade, todos nós podemos aprender algo disso para nossos negócios e a vida.

Fazendo um paralelo, seria como perguntar aos diretores de Hollywood por que criam seus filmes em inglês, sendo que há tantos outros idiomas no mundo. Mas a pergunta da correspondente e a resposta do diretor não são simplórias como podem parecer a princípio. Joon-Ho enxergou o mundo de uma maneira que poucas pessoas conseguem, apesar de todos nós sermos atores no mesmo palco, cada um em seu país, sua cidade, sua vida. E talvez aí resida justamente o sucesso de “Parasita”. E aí podemos aprender com o filme

Como você já deve estar careca de saber a essa altura, “Parasita” conta a história de uma família sul-coreana pobre que dá um jeito de se infiltrar na vida de uma família rica, enganando-os para conseguir para seus membros todos os empregos da casa, o que acaba criando situações inesperadas. É apresentado como um filme sobre “luta de classes”, mas em nenhum momento lembra embates entre “proletários” e “burgueses”. Por um motivo muito simples –que todos nós temos que entender para crescermos: no século XXI, isso não existe mais!

Na versão atual do conflito, ele chega a ser paradoxalmente colaborativo. No lugar de “vermelhos” versus “azuis”, o mundo se transformou em uma amálgama cinza, insípida, indiferenciável. E profissionais, empresas e até políticos que estão se dando bem são aqueles que aprenderam a fazer essa leitura e entregam seus serviços para esse público igualmente amorfo.

Isso não é necessariamente antiético, nem corrupção de valores próprios, e –sim– uma capacidade de se adaptar ao meio. Entretanto, você consegue se adaptar assim?

Quem assiste a “Parasita”, vê isso com as duas famílias se querendo bem e, ao mesmo tempo, criticando os “defeitos” um do outro. Constroem uma relação simbiótica e amistosa, apesar dessas diferenças. Os pobres acham os ricos pessoas boas e honradas, apesar de serem “bobos”. Os ricos acham os pobres trabalhadores e confiáveis, mas são “fedidos”. E a coisa segue, chegando ao ponto de os primeiros usurparem a casa alheia, e dos segundos forçarem os primeiros a se vestirem de índio para agradar o filho mimado.

Não há vilões e mocinhos no embate. Sob determinada ótica, podemos dizer que os dois grupos, apesar de tudo, são formados por boas pessoas, cada um tentando viver a sua vida da melhor maneira possível, apesar de ambos terem visões deturpadas da realidade, justamente por não conhecer o outro, e nem tentar se colocar no seu lugar.

A questão é: até quando esse equilíbrio social instável dura antes que exploda em um conflito irracional?

 

Onde fica a polarização?

Discute-se muito a polarização que temos vivido há alguns anos e que se acirrou há dois. Eu mesmo discuto isso amplamente nas redes sociais e outros fóruns. Apesar de minhas convicções políticas e sociais, que desafiam a minha lógica diante de algumas coisas que acontecem no mundo e no nosso país, procuro sempre um debate equilibrado e respeitoso. Na maioria das vezes, dá certo, mas é cada vez mais comum ser vítima de apedrejamentos morais, justamente pela intolerância que busco combater.

Concluí que a polarização de fato existe, mas na cabeça das pessoas que se preocupam com isso, estejam nos extremos ou no meio deles, como procuro estar. O causador da polarização, por exemplo um político, se preocupa apenas em alimentar a discórdia, pois isso o beneficia. Ele vampiriza o ódio criado por essa dicotomia, e só existe enquanto ela durar.

Essa é uma tática altamente arriscada e explosivamente destrutiva. Os pontos intermediários, onde existe o bom-senso, são aniquilados pelos que pedem o sangue de cada lado. O problema é que o que sobra não se contenta com a existência do outro. E, se em um ambiente de relativa harmonia como em “Parasita”, as diferenças podem se tornar insuportáveis, que dizer quando as partes querem se matar?

Sei que conclamar as pessoas a buscar o equilíbrio, mesmo discordando de alguma coisa, é quase uma utopia no atual cenário em que vivemos. Mas não custa tentar. É possível até fazer uma oposição qualificada, se houver diálogo. Fora disso, continuamos nossa trajetória firme à barbárie.

Após assistir a “Parasita”, fiquei pensando se aquela situação insólita das duas famílias teria alguma chance de continuar indefinidamente. Pouco provável: em algum momento, uma ou mais partes envolvidas deixariam transparecer a sua sombra, e a simbiose estaria condenada.

O grande desafio que todos nós temos, nessa realidade cinza em que fomos metidos, é aprender a conviver de maneira respeitosa e construtiva com o outro, que pode ser muito diferente de nós. Zygmunt Bauman estava absolutamente correto quando dizia que estamos em uma Modernidade Líquida: a mudança é inevitável, incontrolável, imprevisível. Não dá para agarrá-la com as mãos: temos que aprender a navegar nela.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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