O pacto brasileiro pela mediocridade

O pacto brasileiro pela mediocridade

Paulo Silvestre

17 de fevereiro de 2020 | 09h23

A atual campanha de um dos mais tradicionais fabricantes de chocolates do país é assustadora: ela premia quem reprova em disciplinas na faculdade! Como diz seu slogan, “bombou, ganhou!”

Normalmente os prêmios vão para quem tem desempenho superior em algo, não insuficiente. Essa iniciativa resolveu ir em sentido contrário. O mais triste é que ela não causa o problema: é mais um sintoma dele!


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


A proposta da campanha é “lutar contra os vilões que te impedem de curtir com seus amigos. E, para começar o ano, escolhemos a reprovação na faculdade como vilã”.

É verdade que pesquisas indicam que um dos motivos que faz as pessoas mais irem para a escola são os amigos, especialmente as crianças. Apesar de isso ser importante para o desenvolvimento infantil, não é a principal função da escola. E certamente não é –ou não deveria ser– o principal motivo de alguém ir para a faculdade.

Mas me chamou muito a atenção chamar a reprovação de “vilã”.

Oras! O “vilão que te impedem de curtir com seus amigos” não é a reprovação. É uma política educacional medíocre, cuja raiz está no sucateamento do ensino desde a ditadura militar, que vem piorando ininterruptamente desde então e que atingiu seu clímax agora.

É uma política educacional que muda a cada governo que assume, eliminando tudo que foi feito antes, seja bom ou ruim, acabando com qualquer chance de consistência pedagógica. É uma política que desestimula, humilha e agora até persegue os professores, que prioriza números ao invés de aprendizagem ou a formação de cidadãos mais alinhados com o mundo em que vivemos.

Talvez a campanha quisesse ser “divertidinha”. Mas isso não pode ser motivo para fazer piada. Nada justifica premiar um desempenho insuficiente. Isso promove a mediocridade, em um país que cada vez menos se busca a excelência acadêmica e em outras áreas.

Isso está em linha com um país que desmoraliza a ciência e joga contra a educação. A piora nessas áreas nos afasta cada vez mais dos países desenvolvidos. Nunca ocuparemos um lugar de protagonismo no mundo fazendo isso. Sempre seremos uma república de bananas! Basta ver métricas importantes, em que continuamos dando vexame e caindo.

No dia 23 de janeiro, por exemplo, o Brasil piorou no relatório de percepção de corrupção da Transparência Internacional, amargando a 106ª posição de um total de 180 países. No dia 3 de dezembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa mais recente, avaliação internacional sobre educação, e o Brasil manteve seu histórico vexatório: ficamos entre os 20% piores países do mundo. No dia 24 de julho, caímos duas posições no Índice Global de Inovação, realizada pela Universidade Cornell, pelo Instituto Europeu de Administração de Empresas e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual: ficamos na 66ª posição, entre 129 países. E hoje somos a 9ª economia do mundo (pelo tamanho do nossos mercado), mas já fomos a 6ª, há apenas uma década.

Todos esses números, por si só, são motivo de grande vergonha. Todos eles estão interligados. Mas nenhum deles é uma surpresa.

Para revertermos esses indicadores, e tantos outros que vamos mal, temos que investir em uma educação de qualidade e que seja verdadeiramente para todos. Uma educação que promova a excelência acadêmica e também habilidades como respeito a diferenças, tolerância e trabalho em equipe.

Há pelo menos 15 anos folclorizamos a educação deficiente, como se a formação acadêmica fosse algo dispensável. Que bastaria ter vontade, ser espontâneo, fazer “o certo” para se dar bem na vida. Em resumo, que estudar é um tanto dispensável, desnecessário. Junto ao jeitinho brasileiro, criamos um outro câncer social no país: a figura do “bom ignorante”.

Haja chocolate para “curar” isso tudo!


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