Onde está a verdade e por que precisamos dela

Onde está a verdade e por que precisamos dela

Paulo Silvestre

08 de fevereiro de 2021 | 07h00

De tempos em tempos, uma pergunta me atormenta: por que parte da população se posiciona contra a imprensa, se ela é o melhor recurso que essas pessoas têm para se proteger de todo tipo de abuso dos mais diversos grupos de poder?

Como democrata, como pesquisador e como alguém que observa a atuação da imprensa em países de diferentes culturas, esse comportamento ainda me choca, mas há muito já não me surpreende. É relativamente simples de ser explicado e está intimamente ligado ao que é a verdade. Mas essa não é uma discussão acadêmica ou uma conversa que interesse apenas a jornalistas. Se não soubermos o que é a verdade e onde a encontrar, estamos condenados a uma vida miserável e cada vez mais servil.

Acontece que a verdade incomoda e é contrária aos interesses de quem precisa enganar para atingir seus objetivos. Por isso, os agressores da imprensa normalmente apoiam, de maneira consciente ou não, quem está “sentado no trono” no momento. Não é um fenômeno novo, mas acontece sempre e de maneira tão mais forte quanto mais autoritário for o governante.


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Há um versículo bíblico que vem sendo distorcido e usurpado à exaustão nos últimos tempos por esses governantes: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Oras, mas, afinal, o que é a verdade?

Ela não aparece facilmente. Precisa ser escavada e, em muitas ocasiões, só é encontrada ao se confrontar pontos de vista conflitantes sobre um mesmo assunto. Assim, a verdade surge das diferenças e, por isso, raramente está nas redes sociais. Afinal, seus algoritmos escondem de todos nós os pensamentos divergentes e reforçam os preconceitos.

É por isso que a imprensa se torna alvo desses grupos. Não estou aqui para fazer uma defesa inconsequente dela ou sugerir que seja perfeita: não é e nem tem a pretensão de ser. Entretanto, ao “ousar” ouvir os diferentes lados de um fato, o jornalismo pelo menos se aproxima do que está acontecendo no mundo, por mais incômodo que isso seja –e normalmente é para alguém.

Resgatando o versículo acima, a referida verdade que liberta implica na necessidade de vivermos conscientes do que nos cerca e da libertação que somente o conhecimento disso pode trazer. Não é de se admirar, portanto, que o Papa Francisco seja um defensor do jornalismo.

 

“Vem e verás”

No último dia 23, por conta da Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que acontecerá no dia 16 de maio, o sumo pontífice publicou uma mensagem destacando a importância da imprensa na busca pela verdade. Mas afirmou que, para isso, os jornalistas precisam sair à rua, encontrar as pessoas, “gastar sola de sapato” (em suas palavras).

Para Francisco (e ele está certo), não se faz bom jornalismo apenas diante de uma tela: a verdade vem com a reportagem no local dos fatos. Segundo ele, “seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade”. Portanto, bom jornalismo dá trabalho e só acontece quando seu compromisso é com o público!

Pode-se argumentar que veículos de comunicação pertencem a empresas, e elas, como qualquer outra, têm seus interesses, inclusive econômicos. Mas uma empresa de comunicação, mesmo longe de ser uma entidade imaculada, não é uma empresa comum: a verdade é sua matéria-prima e a reputação é o seu maior ativo, que só existe se lhe for concedida pelo seu público. Sem reputação, um veículo deixa de existir.

Seguindo nesse raciocínio, há alguns dias, revi o ótimo filme “The Post: A Guerra Secreta” (2017). Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Meryl Streep e Tom Hanks, conta (com riqueza de detalhes) a história real do escândalo dos “Pentagon Papers”, documentos ultrassecretos vazados do Pentágono em 1971 e que demonstravam que o governo mentia descaradamente há anos aos americanos sobre a Guerra do Vietnã.

Os documentos geraram reportagens no New York Times e no Washington Post, que enfureceram o presidente americano da época, o republicano Richard Nixon. O mandatário tentou ao máximo desacreditar e intimidar os jornalistas. Até mesmo quis impedir, na Justiça, a continuidade das reportagens que diminuiriam a popularidade de um presidente que brilhava, mas que era sujo. Os jornais venceram na Suprema Corte, irritando ainda mais Nixon. No ano seguinte, o mesmo Washington Post publicou reportagens que deflagaram o escândalo de Watergate, que levaria à renúncia de Nixon dois anos depois.

 

O trabalho é continuar

Todo governo, mesmo o mais democrático, adoraria ter uma imprensa dócil. Mas, nesse caso, não seria jornalismo: seria propaganda!

A imprensa tem que fiscalizar o governo, qualquer governo! Consequentemente, quanto mais autoritário for o mandatário, mais ele tenta calar, desacreditar e, se possível, destruir a imprensa. Por isso, se um veículo é muito atacado por um governo, deve estar fazendo bom jornalismo. Essa é uma métrica que funciona!

No julgamento do caso dos “Pentagon Papers”, o juiz Hugo Black disse: “Os Pais Fundadores deram à imprensa livre a proteção que ela deve ter para cumprir seu papel essencial em nossa democracia. A imprensa deveria servir aos governados, não aos governantes.”

A Justiça deve, portanto, garantir essa proteção, ao contrário do que temos visto frequentemente no Brasil, com incontáveis casos de censura judicial. A imprensa, por sua vez, deve necessariamente defender os interesses da sociedade, não os dos grupos do poder e muito menos os seus, como empresas.

Katharine Graham, então dona do Washington Post, interpretada por Meryl Streep no filme, arriscou ir para a cadeia e ver seu jornal fechado ao confrontar Nixon. Ainda assim, fez o que era certo. E, após sua vitória, sacramentou: “Nem sempre acertamos. Nem sempre é perfeito. Mas acho que, se apenas continuarmos, esse é o trabalho”.

Quantos teriam a coragem de fazer o certo com a faca de um presidente no seu pescoço, como ela fez?

A imprensa erra de vez em quando. Mas precisamos aprender a tolerar os erros que fazem parte do processo de construção da verdade. O que é inadmissível são mentiras deliberadas, venham de quem vier.

O fato é que a democracia vem sendo atacada em várias partes do mundo por aqueles que a juraram defender. A bizarra invasão do Congresso americano, no dia 6 de janeiro, incentivado pelo então ainda presidente Donald Trump, só fracassou porque as instituições republicanas e os militares dos EUA funcionam e não abrem mão da democracia, mesmo diante da pressão do presidente. E o mesmo pode ser dito da maioria dos órgãos de comunicação do país, que promovem a verdade.

Na mensagem do dia 23, o Papa Francisco disse ainda que “o próprio jornalismo, como exposição da realidade, requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai: mover-se com desejo de ver, uma curiosidade, uma abertura, uma paixão.” E, de fato, é preciso paixão pela verdade no jornalismo.

Em um famoso discurso em 1996, o jornalista e Nobel de Literatura Gabriel García Márquez concluiu que “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em uma profissão tão incompreensível e voraz, cujo trabalho termina a cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não garante um momento de paz até que recomece com mais ardor que nunca no minuto seguinte.”

Portanto, a única maneira de escaparmos desse poço de areia movediça política e moral no qual já afundamos como sociedade até o pescoço é acreditando na verdade e em quem a busca. E ela não vem de quem precisa ficar fazendo bravatas o tempo todo para se reafirmar.

Cada um acredita no que quiser! Isso não quer dizer que existam incontáveis verdades para cada indivíduo chamar de sua. A nossa sobrevivência como uma sociedade organizada depende de identificar e apoiar aqueles que pelo menos tentam buscá-la, lutando pelos interesses públicos. Os demais –políticos, empresas, instituições preocupadas apenas com suas necessidades– devem ser varridos para o mais obscuro rodapé da história.

Do contrário, em breve estaremos nas ruas fazendo justiça com nossas próprias mãos. Armadas!

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