Por que alguém pagaria R$ 13,4 milhões por um “terreno” que só existe na Internet

Por que alguém pagaria R$ 13,4 milhões por um “terreno” que só existe na Internet

Paulo Silvestre

06 de dezembro de 2021 | 07h35

O Decentraland, metaverso em que um “terreno virtual” foi vendido no dia 23 por R$ 13,4 milhões

O Decentraland, metaverso em que um “terreno virtual” foi vendido no dia 23 por R$ 13,4 milhões – Imagem: reprodução

 

Depois da pandemia, algumas das principais cidades do mundo vivem um “boom imobiliário”. Mas a transação no setor que mais chamou atenção recentemente aconteceu no dia 23, quando um “terreno virtual” foi vendido pelo equivalente a US$ 2,4 milhões (cerca de R$ 13,4 milhões na cotação do dia).

Apesar de ser apenas digital, ele mede 566 m2, o que dá cerca de R$ 24 mil por metro quadrado. Para comparação, esse valor médio de um terreno real em São Paulo gira em torno de R$ 10 mil, custando R$ 16 mil em Buenos Aires, R$ 83 mil em Paris, R$ 90 mil em Nova York e R$ 91 mil em Londres.

Para muita gente, não faz o menor sentido investir tanto dinheiro em algo que sequer se pode tocar. Mas em um mundo cada vez mais digitalizado, um espaço em um metaverso pode ser tão real quanto um pedaço de chão na sua cidade.


Veja esse artigo em vídeo:


Qualquer coisa tem o valor que as pessoas atribuem a ele. Claro que uma casa, um carro ou uma máquina têm um valor intrínseco, derivado do que foi usado para a sua construção, seja matéria-prima, mão de obra e até pesquisa. Mas o que realmente importa é a percepção de valor associado aos benefícios de se ter aquilo. Por exemplo, uma casa em um bairro com segurança e muitos serviços vale mais que uma construção idêntica em uma região violenta e com uma infraestrutura ruim.

Dessa forma, o alto investimento em um “terreno virtual” pode se justificar, dependendo do que será feito com ele e quais os ganhos ele trará a seus donos. Ainda assim, essa é uma lógica que desafia o senso comum.

O “terreno virtual’ mais famoso do mundo fica no metaverso Decentraland, um espaço online onde os usuários entram com seus avatares (suas representações digitais) para interagir com outras pessoas e até mesmo fazer negócios com elas, contratando serviços e comprando produtos que só existem no mundo digital. O pagamento é feito em criptomoedas.

Esses ambientes existem há muitos anos, mas ganharam novamente os holofotes em outubro, quando o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, rebatizou a empresa de Meta e disse que ela estava migrando do negócio de rede sociais para o de metaverso. Entretanto, ainda se viu muito pouco de efetivo vindo dessa mudança.

Antes dela, o metaverso mais famoso era o Second Life, um mundo virtual lançado em 2003. Ele foi revolucionário ao permitir que qualquer usuário entrasse e interagisse naquele mundo digital com outras pessoas e realizasse transações ali, que poderiam ser revertidas em dinheiro de verdade. A diferença fundamental é que o Second Life se parece mais com um game, enquanto a proposta de Zuckerberg visa permitir que o usuário “entre” no ambiente e interaja com elementos ali, graças às realidades virtual e aumentada agora disponíveis.

O dono do terreno milionário no Decentraland é a empresa Tokens.com, especializada em ativos digitais, criptomoedas, NFTs e metaverso. A empresa declarou que pretende usar o espaço para fazer desfiles de moda de roupas virtuais, que serão vendidas a usuários da plataforma para usarem em seus avatares.

Em junho, outra área no Decentraland foi vendida por cerca de US$ 913 mil. Os donos construíram ali um shopping center virtual para vender roupas digitais, mas o espaço costuma estar às moscas.

A Tokens.com teria que vender muita roupinha para os bonecos digitais para pagar os US$ 2,4 milhões investidos ali. Mas esse não é o seu verdadeiro ganho. O maior benefício para a empresa é valorizar suas atividades e os serviços com os quais atua. Dessa forma, os desfiles de moda virtuais soam quase como uma desculpa para encobrir suas verdadeiras motivações.

 

Difícil de entender

A empresa precisa de ações como essa para gerar debate e ajudar potenciais clientes a entender do que se tratam seus serviços.

É o caso dos NFTs (sigla em inglês para tokens não-fungíveis), uma modalidade de comercialização de arte digital viabilizada por uma combinação de tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra de arte digital, a pessoa passa a ser reconhecida como sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

Façamos uma comparação com uma obra de arte física, como um quadro. Por mais que ela exista e tenha um dono, nada impede que seja reproduzida. Peguemos como exemplo o “O Grito”, obra-prima do norueguês Edvard Munch. Apesar de existir a original, ela é reproduzida em pôsteres, em publicações, em fotos de turistas e até na Internet. Os proprietários do original não recebem nada por isso, sequer têm qualquer controle sobre essas reproduções. Mas ninguém duvida que eles são os donos da obra e, se algum dia resolverem vendê-la, serão remunerados por isso.

O que dificulta a compreensão do NFT é que o original pode ser algo como um meme, que pode ser facilmente reproduzido por milhões de pessoas, e essas cópias serão idênticas ao original. Além disso, é legítimo perguntar então se qualquer pessoa poderia vender uma foto sua como NFT.

Na verdade, não. Para algo ser classificado como NFT, aquilo precisa ser muito conhecido, como a fotografia em um meme. E o “primeiro dono” precisa, de alguma forma, ter relação com a obra, por exemplo, sendo a pessoa retratada nela.

Vale lembrar que esse mercado não é regulamentado, por isso, esses valores são totalmente voláteis e sem garantias. Ainda assim, as vendas de objetos virtuais atingiram US$ 10 bilhões no terceiro trimestre, segundo a empresa de análise de mercado DappRadar. Já a consultoria Emergen Research calcula que o metaverso pode representar um mercado US$ 829 bilhões em 2028.

Tudo isso chega a transcender os conceitos do livro “Modernidade Líquida” (Editora Zahar, 2001), do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Para muitos, o metaverso e suas transações são ilusórias, beirando o estelionato. E essa virtualização da vida afastaria as pessoas umas das outras.

Precisamos de algum tempo ainda para validar esses conceitos, o que só será possível quando o metaverso se tornar uma realidade no cotidiano das massas, como aconteceu com as redes sociais. Mas uma coisa é certa: para algo ser real, não precisa ser tocado!

Basta que as pessoas acreditem que seja!

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.