Redes sociais fogem do seu papel nos ataques à democracia

Redes sociais fogem do seu papel nos ataques à democracia

Paulo Silvestre

06 de setembro de 2021 | 07h34

O Brasil chegou à semana do Dia da Independência com um clima tão denso, que dá para ser cortado com uma faca, feito doce de leite cozido além do ponto. Ainda que tudo leve a crer que isso não passe de uma fumaça espessa, diz o ditado que onde ela existe, também há fogo. E o combustível para essas labaredas são as redes sociais, particularmente o pouco que elas vêm fazendo para tentar corrigir seu papel decisivo no ataque crescente à sociedade organizada.

Para quem viveu praticamente toda sua vida em um Brasil redemocratizado com o fim da ditadura militar, é inacreditável e assustador ver essa escalada da insanidade e da violência. Ela acontece porque grupos políticos usam essas plataformas digitais e o incrível poder de convencimento de seus algoritmos para incutir, em uma parcela considerável da população, a falsa ideia de que podem pensar, dizer e fazer o que bem entenderem em nome da liberdade de expressão.

Isso é uma falácia! Quando todos têm razão, ninguém tem razão! Mas o fato de as redes sociais nos colocarem em contato apenas com quem pensa como nós acaba legitimando mesmo a mais absurda porcaria.


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Possivelmente o exemplo mais emblemático desse momento é o motim de grupos expressivos de polícias militares pelo Brasil, abarcando de soldados a coronéis. Em nome desse suposto direito de se expressar, vêm transgredindo, de forma despudorada, seu próprio regulamento e atacando explicitamente instituições democráticas. A insubordinação é alimentada pelos grupos de poder nas redes sociais, transformando os militares em marionetes.

A gênese desse comportamento são diversas insatisfações das tropas, especialmente quanto a salários. Mas a prolongada e aguda crise política e econômica do Brasil atinge todas as categorias da sociedade. Os policiais não podem se atribuir mais direitos que qualquer outra categoria, e muito menos, para conseguir o que querem, usar a força que a sociedade lhes confere para ameaçar a mesma sociedade. Caso contrário, quem nos protegerá de quem deve nos proteger?

Winston Churchill disse em 1947 uma de suas célebres frases: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.” O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, considerado um dos maiores estadistas da história, sabia que a democracia só funciona bem pela contraposição de ideias.

Ele deve estar se revirando no túmulo agora ao ver o que oportunistas fizeram da democracia com a ajuda das redes sociais, ao eliminar tal contraposição.

 

Poder desmedido

Não seria absurdo afirmar que nunca existiram empresas tão poderosas no sentido de transformar a sociedade, para o bem ou para o mal. As redes sociais, que surgiram como espaço lúdico para encontrar amigos e compartilhar trivialidades, se transformaram em plataformas que definem o que compramos (seu grande negócio), com quem andamos e até o que pensamos.

Suas equipes conscientemente constroem sistemas que atuam nas camadas mais primitivas de nosso cérebro. Isso é fartamente explicado no documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix. Também foi descrito cientificamente em um estudo liderado por Adam Kramer, então cientista de dados do Facebook, publicado em 2014 na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences, assim como em outra pesquisa, que ganhou a capa da Science, a mais importante revista científica do mundo, em 2018.

Nunca nada ou ninguém sequer rivalizou com essa capacidade de persuadir as pessoas. Trata-se de uma virtual onipotência, que é usada o tempo todo. Assim como a indústria tabagista sabia que o cigarro fazia mal e viciava os consumidores e, mesmo assim, investia em ingredientes que ampliavam a dependência, as redes sociais persistem nesse seu caminho.

Justiça seja feita, algumas dessas plataformas, inclusive o Facebook, vêm tomando ações para minimizar os pesados efeitos colaterais provocados por suas atividades. Mas isso está longe de ser eficaz, principalmente porque essas companhias ainda não assumem a verdadeira extensão desse dano.

Além disso, as ações acontecem principalmente porque elas vêm sendo pressionadas por governos ao redor do mundo, especialmente depois que explodiu o escândalo da Cambridge Analytica em 2018. Como explica outro documentário da Netflix, “Privacidade Hackeada”, essa empresa britânica de marketing político usou o Facebook para manipular milhões de pessoas favorecendo a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA em 2016, e o Brexit, que tirou o Reino Unido da União Europeia.

E pensar que tudo isso começou com conversas inocentes de amigos.

 

A alegria na ignorância

A maioria das pessoas gostaria apenas de seguir sua vida de maneira produtiva e em paz. Mas a onipresença das plataformas digitais acaba nos arrastando para esse turbilhão.

Governos totalitários adoram isso: o pensamento único lhes favorece. Por isso, investem tanto nas redes sociais.

Isso me faz lembrar do filme “O Doador de Memórias” (2014), que retrata uma sociedade em que não há tristeza, doença ou pobreza. Mas o custo dessa harmonia é a eliminação de todas as emoções (mesmo do amor) e da liberdade. As pessoas sequer têm memórias do seu passado e veem o mundo sem cores (literalmente).

Para a governante vivida por Meryl Streep, “quando as pessoas têm a liberdade de escolher, elas escolhem errado”. Assim o governo determina até o que cada pessoa deve fazer e como deve pensar. E, para conter qualquer rebelião, todos devem tomar diariamente uma espécie de droga.

Começo a achar que as redes sociais são essa droga em nossa realidade. Muita gente topa aparentemente eliminar toda a dor e a discordância, mesmo que o custo disso seja sua liberdade, sua autonomia e seu senso crítico. Precisam apenas de alguém que os guie para esse mundo do pensamento único.

Bem, isso agora existe e está sendo implantado. Mas não dá para viver assim!

Precisamos de paz e de liberdade! Ninguém se desenvolve em um uma vida de constante incerteza e conflito, ou sendo dominado socialmente (ainda que não perceba essa dominação).

Sou progressista e liberal (ao contrário do que muitos pensam, esses conceitos não são antagônicos). Entendo que empresas não podem atuar livremente apenas para garantir seus próprios interesses. Como integrantes de uma sociedade, suas ações têm impacto na vida das pessoas e devem ser responsabilizadas quando algo que fizerem prejudicar a população.

Por isso, devemos usar as redes sociais no que elas têm de bom –e são muitas coisas! Mas não podemos deixar que elas se prestem aos objetivos nefastos de alguns grupos. O espaço que elas já ocuparam em nossas vidas não pode colocar em risco a democracia e nosso bem-estar.

Nós também somos responsáveis por tudo isso!

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