Um país que nem sabe o que não sabe

Um país que nem sabe o que não sabe

Paulo Silvestre

12 de julho de 2021 | 07h33

A educação brasileira ter, na média, uma qualidade sofrível e estar ladeira abaixo há anos infelizmente não é nenhuma novidade. Isso criou uma geração de cidadãos menos conscientes e de profissionais menos competitivos. Mas, além disso, tenho observado com assombro uma certa acomodação na mediocridade, que glorifica a estupidez nas redes sociais e cria solo fértil para o amadurecimento de uma ditadura da ignorância.

Isso nos empurra ainda mais fundo nesse lodo social em que nos encontramos. Uma sociedade bem educada, com universalização de bom conhecimento e cultura, não apenas cumpre seus deveres e faz valer seus direitos, como trabalha para a evolução de cada indivíduo e da comunidade. Sem isso, emperra onde está, pois nem sabe o que não sabe. E assim segue seus dias guiada pelo que vê nas redes sociais.

Isso parece –e é mesmo– um contrassenso. Por que alguém abriria mão da busca pelo conhecimento, que lhe daria o mundo, para se limitar a uma vida bovina, aquela em que, se houver um bom pasto, o gado ficará satisfeito sem tem que se movimentar muito?


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Quando eu era criança, havia uma frase dita pelos colegas como um misto de insulto e desprezo por algo que não dominavam: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Aquela bravata pueril tinha um quê de autoafirmação no grupo, por uma suposta superioridade que daria ao valentão o direito de desprezar o conhecimento, mas era restrito ao grupo de amigos e tentava esconder a ignorância por desconhecer o tema.

Hoje o “direito de ser ignorante” também serve para fazer parte de alguns círculos sociais. Mas, nesse caso, essas pessoas realmente se sentem de alguma maneira especiais, por não se curvarem ao que dita a ciência, as regras de convivência e até o bom senso. Ao afrontar o saber, o ignorante tem a falsa sensação de se posicionar acima de quem estudou muito para chegar onde chegou, em uma espécie de “esperteza torta”.

Aí reside uma das explicações desse fenômeno. O conhecimento não vem de graça: é necessário esforço e concentração. Em outras palavras, adquirir conhecimento dá trabalho, mas poucas coisas trazem retorno melhor.

Isso costumava ser um senso comum. Tanto que um dos maiores feitos para uma família de classe média era ver seus filhos concluindo uma faculdade, sinal de vitória, maior até que a compra da casa própria. Ninguém questionava isso.

Com as redes sociais, esse cenário mudou. A proliferação nelas de “gurus de meia pataca”, com suas “fórmulas mágicas de sucesso”, criou uma sensação de que basta seguir alguns passos básicos para se adquirir fama e fortuna.

Mas o que se observa é que os únicos que adquirem fama e principalmente fortuna com isso são os próprios “gurus”.

 

Evasão escolar

A pandemia agravou ainda mais esse quadro. Com as escolas fechadas pelas medidas do distanciamento social, o desemprego recorde e até a depressão, parte da população perdeu interesse em aprender. O quadro é ainda mais dramático entre os jovens, que abandonaram ou pensam em abandonar a escola.

Segundo pesquisa do Conselho Nacional da Juventude, que ouviu 68 mil pessoas com idades entre 15 e 29 anos, se tiverem que escolher entre trabalho e escola, 43% dos jovens brasileiros pensam em parar de estudar. Em 2020, esse índice era de 28%, que já era alto. Os principais motivos são necessidade de complementar a renda e não conseguir estudar remotamente.

Outro estudo, esse da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), aponta que 5,1 milhões de crianças e adolescentes desistiram de estudar no Brasil por causa da pandemia. Ele foi feito a partir de dados do último relatório PNAD Contínua, concluído em novembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desse total, mais de 40% tinham entre 6 e 10 anos, uma faixa etária em que a escolarização estava quase universalizada antes da pandemia. O principal motivo foi a falta de acesso a equipamentos e Internet para fazer as aulas remotamente. Isso fez com que o Brasil regredisse duas décadas no acesso ao ensino básico.

Resgatar esses jovens para a escola é um desafio que toda a sociedade deve abraçar. Se fracassarmos nessa tarefa, a ditadura da ignorância ganhará força e o país ficará ainda mais imobilizado, em um círculo vicioso.

 

A vida que só existe nas redes

Não desdenho o conhecimento empírico, o aprendizado na “escola da vida”. Mas, apesar de isso ser importante para desenvolvermos pessoas criativas e flexíveis, há um limite até onde se pode chegar com ele. Isso explica por que o profissional brasileiro é considerado internacionalmente como alguém inventivo, porém sua produtividade fica muito abaixo dos trabalhadores de países que investem em boa educação e valorizam o conhecimento.

Para realmente alcançarmos um destaque consistente na sociedade e na profissão, temos que abandonar as fórmulas fáceis. Não podemos ter uma vida que brilha apenas nas redes sociais, com as fotos e vídeos que padecem de uma grosseira mesmice no Instagram e no TikTok, ou historinhas de inspiração fácil no LinkedIn.

Por isso, não chega a ser uma surpresa o novo recurso TikTok Resumés, em que pessoas poderão se candidatar a vagas de trabalho com vídeos curtos nessa plataforma. A novidade está em teste no mercado americano.

Temos que romper essa narrativa do “bom ignorante”, em que “ser espontâneo” passou a ser uma virtude, quando, na verdade, apenas mal disfarça indivíduos que, nas redes sociais, insultam desafetos e falam bobagens a partir de raciocínios mal construídos e de mentes sem conteúdo, despreparadas.

Eu gosto muito das redes sociais, mas elas não podem ser ferramentas de ascensão social. As pessoas precisam crescer de verdade, fora delas.

Precisamos resgatar o valor do aprendizado verdadeiro, da educação ampla, da cordialidade e do conhecimento. Por mais que as redes sociais nos mostrem uma vida que parece ser fácil em posts e em stories, apenas nos desenvolvemos como indivíduos e como nação quando arregaçamos as mangas e saímos da superficialidade em nosso cotidiano.

Por isso, o “bom ignorante” não passa de uma ilusão criada por aqueles que preferem manter o povo no escuro, para sua manipulação. É uma narrativa alimentada por quem prefere o caminho fácil, desancando quem valoriza o saber. Essa ditadura da ignorância precisa acabar!

 

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